"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

11.2.15


olha minha pose: está forçada. olha a risada quase desenhada nos cantos da minha boca: está falsa. você acha que me lê. como num livro. não me leia assim, com o olho. você está lendo errado. me toque: estou escrito em braille.

  J. Castro 
(foto Peter Sellers & Sophia Loren)

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9.2.15


Descoberta 

 As gavetinhas escondidas no criado-mudo estão se abrindo. Contém novas direções, pílulas para se ouvir a música interna, diversos tipos de áureas e ainda um lindinho manual ilustrado de perdões. 
 
Vanessa Campos Rocha
(foto Lillian Gish)

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8.2.15


Estou na praia. É um dia excepcionalmente quente. De repente um golpe de vento arranca-me o chapéu de palha erguendo-o tão alto que parecia um papagaio lançado de cima dum monte. Corro pela areia tentando apanhá-lo mas ele vai velocíssimo. Continuo a correr. A areia queima-me os pés saltam-me lágrimas dos olhos. Não posso correr mais. Não consigo continuar sem regressar. Sinto-me desesperada. Caio no chão. Vou ficar aqui morrer queimada. Depois claro o chapéu poisou simplesmente a meu lado. 

  Ana Hatherly
(foto Brigitte Bardot)

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7.2.15


Ligas-me, e eu por segundos imagino a conversa e treino a compostura, recolho um soluço que me empata o ar, carrego um canino sobre o lábio inferior, quase sangro nem noto, e fecho a boca para que por ela não me saia, disparado, o coração aflito. Ligas-me, e eu não atendo, poupo-te ao embaraço e ao inferno das explicações, aos olás de circunstância, deixo que toques e toques e que vás por fim parar às mensagens. Ligas-me, e eu espero, desejo e espero, que despejes para um gravador o teu erro, o teu tédio, o teu gozo, os pedidos, as desculpas, as incríveis novidades do mundo ou, quem sabe, a precisão dos beijos empoeirados que esqueceste e deixaste em mim.

  Sofia Vieira
(foto Kathleen Hughes)

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6.2.15


ponto final 

pelo não, pelo sim
deu tudo errado
não me venhas assim
nem assado
vá, viva sem mim
fundo falso furado

Berg A. Mota
(foto Peter Finch & Anne Bancroft)

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5.2.15


Durante anos procuramos encontrar alguém que nos compreenda, alguém que nos aceite como somos, capazes de nos oferecer a felicidade, apesar das duras provas. Apenas ontem descobri que esse mágico alguém é o rosto que vemos no espelho. 

  Richard Bach 
(foto Brigitte Bardot)

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4.2.15


A mulher que não era bonita

Talvez, porque viesse angustiado, aflito, 
Amei uma mulher que não era bonita… 

Mas eu sei que não foi. Foi amor e sincero; 
Tanto a amei, tanto a quis, que inda a amo e inda a quero… 

Capricho, coração, uma coisa qualquer, 
Porque se quer e estima e se ama uma mulher?… 

Vocês hão de dizer “Todo rapaz é assim”. 
Fecha os olhos e diz sinceramente: “Sim”. 

O amor prende, o amor cega, o amor faz o que quer. 
Fez-me, portanto, amar a primeira mulher. 

Infelizmente, nem ela própria acredita 
Que se ame uma mulher que não seja bonita. 

 Judas Isgorogota 
(foto Jean Bradin & Betty Balfour)

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3.2.15


Cruel coração 

Estranho, como são as coisas do coração! Era possível passar anos e anos habituada à perda, reconciliada com ela e, depois, num momento de fraqueza, a dor reaparecia, aguda e crua, como a de uma ferida aberta.
 
  Donna Woolfolk Cross
(foto Nina Leen) 

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2.2.15


 Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas. Isso incomodava toda a gente. Por causa do barulho…

O coração batia tão alto!

Ela tentava explicar: «É um coração de pássaro. Eu estou no corpo errado! Daí o coração bater tão rápido. Eu sou um pássaro…»

Pouco a pouco as pessoas foram-se habituando ao barulho do coração. Acabaram mesmo por esquecê-la. Ninguém se apercebeu do que se passava.

E isso era bom para ela. Também ela se habituava. Começou mesmo a gostar do seu corpo. E sentia-se cada vez mais leve.

Ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu.

E depois, um dia…

As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia.

Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim.

 Regina Pessoa
(foto Mary Pickford)

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1.2.15


Indiferença 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcanças
e meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

Guilherme de Almeida 
(foto Brigitte Bardot)

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31.1.15


Ela não sorriu. E ele descobriu que a amava. 
No sorriso dela estavam todos os motivos 
para ele próprio sorrir. Simples assim. 

  Paulo Ras
(foto Gregory Peck & Ava Gardner)

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30.1.15


– Aonde você vai?
 – Para minha casa. 
Tenho montes de coisas a fazer e tal.
 – Como o quê? 
– Ficar longe de você é minha tarefa mais imediata.
 – Deixa de ser infantil!
 – Ok. Te ligo quando eu amadurecer. 

  Gabito Nunes 
(foto Veronica Lake)

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29.1.15


Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos 

Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.

 Charlotte Delbo
(trad. Luís Filipe Parrado)
 (foto Rita Hayworth)

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28.1.15


Para dançar um tango 

 Um tango dança-se com faca 
no olhar 
e sapatos a acolchoar o silêncio
 Um tango estilhaça
 tudo o que está perto 
o ar onde o corpo se contorce 
onde as mãos afogam
 mãos ou na cintura 
navegam como se fosse 
um rio de prata. 

  João Tomaz Parreira
(foto Fred Astaire & Chyd Charisse)

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27.1.15


Da infância

Eu me lembro de ter plantado um pé de orégano na minha horta/Eu me lembro de procurar tatu-bolinha no canteiro/Eu me lembro do pintinho que morreu de tão agasalhado no cobertor/Eu me lembro de jogar dentes de leite em cima do telhado/Eu me lembro de ter chorado quando inadvertidamente engoli a hóstia/ Eu me lembro do piso encerado com cheiro de flor de laranjeira/Eu me lembro de colecionar vagalumes na garrafa/Eu me lembro das bolinhas de gude dos moleques da minha rua/Eu me lembro da história do meu avô que começava com ‘’era uma vez uma árvore frondosa’’/Eu me lembro que nunca vim a saber o fim da história, porque adormecia no seu colo/Eu me lembro de ter sido atropelada por um carrinho de rolimã/Eu me lembro de pular amarelinha calçando conga vermelhinho/Eu me lembro do uniforme de escoteira, sempre alerta/Eu me lembro de ter visto por trás da porta que o papai Noel era o meu pai/Eu me lembro que espinafre causava náuseas/Eu me lembro da jaboticaba no ultimo galho do pé/Eu me lembro da indicação médica de tomar sorvete depois da operação de garganta/ Eu me lembro que existiam ciganos em profusão, e tínhamos medo/Eu me lembro de jogar queimada na rua, com bola de meias usadas, dos pais da gente/Eu me lembro das matinês de carnaval, das fantasias de melindrosa, e dos olhos atentos maternos/Eu me lembro de ter sido criança... 

  Geórgia de Albuquerque e Alcântara
(foto Shirley Temple & Baby LeRoy)

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26.1.15


 
Todas as manhãs, entre o enfiar
do sapato esquerdo e do sapato direito
ela vê a vida desfilar-lhe diante dos olhos.

Por vezes só a custo
consegue calçar o sapato direito.

  Judith Herzberg 
(trad. Ana Maria Carvalho)
 (Audrey Hepburn in Roman Holiday)

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25.1.15


Máscaras

É por trás de máscaras
Que escondo meus alumbramentos;
É por trás da alegria
Que escondo meus desalentos; 
É por trás da tristeza
Que escondo meus arrebatamentos;
É por trás dos sonhos
Que escondo minhas máscaras.

Só não consigo mesmo
É esconder de mim 
E de minhas máscaras,
Os meus olhos.

Pelo efêmero brilho deles
Minha alma escapa de meu corpo
E vai a cata de outras fantasias.

Das máscaras cuido eu,
Mas quem cuidará
De minha alma?

Sempre há para elas, almas,
Um perigoso jogo de fantasias,
Um perigoso baile de máscaras.

 Oswaldo Antônio Begiato
(foto Brigitte Bardot)

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