"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

21.1.15


Last blues, to be read someday

Foi só um flirt
e sabias, claro –
alguém foi ferido
há muito tempo.

Mas nada mudou
o tempo passou –
um dia chegaste
um dia morrerás.

Alguém morreu
há muito tempo –
alguém que queria
mas não sabia.

Cesare Pavesi 
 (foto Gloria Grahame)

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20.1.15


Sensualidade  

 Ser sensual é se mostrar bem devagar 
 de dentro para fora, 
 o corpo será um mero detalhe. 

  Gemária Sampaio
(foto Sophia Loren) 

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19.1.15


De Ler e Andar 

Há dias em que há
mais sentido nas ruas
do que nos livros.
Nesses dias se deve
de casa sair
e, dentro de si,
caminhar à escuta
da vida.
Há dias,
porém, em que mais
sentido há nos livros.
É preciso então
trancar-se em leituras
e, numa entrega de sonho
misturar-se ao mundo.

Alcides Buss
(foto Marilyn Monroe)

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18.1.15


Minudências 

Ser feliz
é ter o coração livre
e a consciência tranquila;
é receber a brisa
e falar de legria!
É vestir
o agasalho da saúde
a camisa do sonho
e os sapatos do amor!
É cantarolar no silêncio
brindar a paz
e então
sair de si
estender seu coração
e dizer:
estou pronto
o sofrimento é canto!

 Luiz José Maia
(foto Anita Ekberg)

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15.1.15


Olhava-me nos olhos, com aquela maneira que ela tinha de olhar e levava a pensar se na verdade ela via alguma coisa com os seus próprios olhos. Olhos capazes de olhar e tornar a olhar, mesmo depois de quantos outros olhos no mundo terem deixado de olhar. Olhava como se nada houvesse na Terra que ela não fosse capaz de olhar assim, quando a verdade é que tinha medo de tantas coisas.

  Ernest Hemingway
(foto Bette Davis)

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14.1.15


Tratam-me como se fosse uma daquelas bonecas baratas, que se recebem de duas em duas semanas quando a nossa tia favorita nos vem visitar. Aquelas em que pegamos, achamos graça e brincamos com elas, até nos fartarmos e querermos outra. Aquelas que, depois de perderem a graça, não passam de mais uma na nossa enorme colecção de figuras imóveis. Não percebem o sofrimento dos que são condenados a ser bonecas sem o quererem. Porque mesmo eu, boneca que sou agora, tenho sentimentos [ou pelo menos o que resta deles] 

 E bonecas também choram, nem que sejam lágrimas de plástico... 

  Inês
(foto Alice White)

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13.1.15


Nuvens 

 Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo 
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.

Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.

Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.

  António Ramos Rosa
(foto Vivien Light)

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11.1.15


Felinus

A Maria Tobias era preta 
e branca. Na parte branca era 
Tobias e era Maria na preta. Morou 
connosco cinco anos. No sexto, numa 
quinta-feira santa pôs-se a dormir 
depois de um longo jejum. Ficaram-nos 
nas mãos festas desabitadas e os poucos 
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro, 
que não logramos enviar 
para a nova morada.

  Inês Lourenço
(foto Kim Novak)

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10.1.15


Promessa

Pois eu digo que vou arregaçar esses punhos de linho bordado e procurar cada uma das pérolas desse meu colar desfeito. Antes que o seu brilho volte a ser mero carbonato de cálcio com areia, no meio dos escombros. 

  Bruna Pereira
(foto Muriel Finley)

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6.1.15


Tormentas de Um Passado que É (ra)

Necessito novas meias, novos livros, velhos sambas, novos goles, novos cheiros, velhos abraços, novos beijos, novos choros, velhos risos, novas camas, velhos amores, velhos vinhos, novos acasos, novas paixões, novos corpos, velhos corações, novos arranhões, velhas declarações...  Novos motivos para ressuscitar minha vida e ter alguma graça. Necessito você. 

  Marcos Ubaldino
(foto Carol Lynley)

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1.1.15


O de número 2015...

E a menina estava indócil 
subia e descia no banquinho 
para olhar pela janela 
Quando chegaria o ano novo? 
O que ele traria pra ela? 
Quem era ele? 
E nada... 
E nada... 
Todos os dias eram uma eternidade 
Brincava, cantava e olhava para fora 
Até que em uma noite 
um pouquinho antes de adormecer 
ela espiou pela frestinha da janela
 já meio desacreditada de tudo
 e viu um cortejo 
de Anjos de asas de todos os tamanhos 
descendo dos céus 
e cada um carregava no coração 
um Anjinho bem pequenino 
que começou a ser entregue
 a cada pessoa que por eles cruzavam
 Ela ficou encantada com o que viu 
e mais ainda ao escutar 
a música que chegava do Alto 
onde uma harpa suave era dedilhada
 pelo Anjo-mor, que sentado 
em cima de maior e mais linda 
nuvem branca 
que ela jamais tinha visto 
abria-lhe um sorriso que 
carregava todo o amor do mundo! 
Na mesma hora um Anjo 
aproximou-se dela 
e lhe entregou seu Anjinho pequeno
 dizendo: este é o teu Ano Novo! 
O Anjinho de número 2015
 que te entrego para tomares conta 
cuida dele com todo carinho 
que puderes, pois ele saberá 
retribuir-te regiamente 
Multiplica todo o amor 
Que ganharás dele, 
Pois quanto mais repartires 
mais receberás de volta 
Pega ele pela mão 
bem firme e não solta
 que nunca errarás o caminho! 
Vai, agora segue com ele...

  Wania Victoria 
(foto Shirley Temple)

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31.12.14


vem aí alguém 

 disseram-me que foste visto, agora mesmo, numas escadas quaisquer, de uma rua qualquer, a fumar um cigarro e a olhar para o céu. esperas alguém? uma voz? uma estrela? uma gota de chuva? um foguete fora de hora? um balão vadio? ah! não, já sei... esperas que o ano acabe, e não queres dar nem mais um passo. esse cigarro é o último do maço, é o sabor que queres ter na boca, é o silêncio com que me recebes, é a espera em si. 

 meia-noite: cheguei. podes apagá-lo sem o terminar. dá-me a mão, o mundo espera-nos, o novo ano também. 

  Josephine

Feliz Ano Novo, amigos e visitantes!
Que os anjos do Criador cerquem suas vidas de paz, esperança, amor, saúde e alegrias.

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30.12.14


Sou lunar de duas sombrias luas 

 Eu não penso, nem me queixo, 
nem discuto, nem durmo. 
Não desejo nem sol, 
nem lua, nem mar, nem barco. 

 Não penso no calor que faz entre estas 
paredes, 
nem como o jardim está verde; 
e esse presente, que tanto desejei,
 já não o espero. 

 Não me anima nem a manhã, nem
 o eléctrico o seu tilintar alegre, 
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo, 
o ano e a hora. 

 Sobre uma corda estragada, 
eu danço – pobre dançarina. 
Sou a sombra de uma sombra. Sou lunar 
de duas sombrias luas. 

  Marina Tsvétaïeva 
(trad. António Mega Ferreira)

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28.12.14


connect the dots 

 acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum. um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão. eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.
 
(desconheço autoria)

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27.12.14


Devo dizer, para ser franca, que já várias vezes tinha acedido a sair com ele. Não para ir ao baile. Ele dizia que não gostava de dançar. Na realidade, não sabia. Mas não me impedia que o fizesse. Eu também não gostava por aí além de dançar(...) Preferia ir até ao campo com ele. Ora me levava a Saint-Germain, ora a Fontainebleau, ora à beira do Sena ou do Marne. Alugávamos um barco. Ele remava. Eu ficava sentada à sua frente sem dizer nada. Ele também não dizia palavra. Olhava para mim enquanto remava e de vez em quando sorria-me. Eu então também sorria para ele. À volta, tomávamos um “panaché”, com umas batatas fritas, numa tasquinha lá do sítio e voltávamos de comboio, ou numa camioneta à pinha, com os braços atafulhados de flores do campo. Flores que cheiravam bem. De regresso a Paris, quase me sentia asfixiar. Gostaria de ter lá ficado, em Athis-Mons ou em Gagny, uma semana inteira deitada na relva ao pé dele, a olhar para o céu. 

  Raymond Guérin

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24.12.14


Sonhos de Natal 

 Aquele velhinho sempre povoou os meus sonhos! 
Ao acordar, eu olhava e não o via... 
O saco de brinquedos era minha adoração! 
Ao acordar, eu procurava e não o encontrava. 
O sapato, na janela, continuava vazio... 

Em cada aniversário dele, eu sonhava e buscava. 
E os sinos repicando na torre da Igreja 
Blém-blom... blém-blom... blém-blom 
Pareciam me dizer: desilusão... desilusão... desilusão... 

O tempo foi passando, a dor eu acalentando, 
Até que entendi que o brinquedo era simbólico 
Que o velhinho não existia
 Que aquele, era o dia da Salvação! 
Que Maria deu seu filho Jesus 
para a nossa Redenção! 

Com alegria percebi 
que os sinos mudaram o som 
que em mim agora ecoava 
a palavra coração... coração... coração... 

E o espírito do Natal, eu comecei a viver! 

  (Desconheço autoria) 

Feliz Natal, amigos e visitantes! 
Que vocês possam ter a alegria de viver o espírito natalino em sua plenitude!

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21.12.14


Percentagens 

 Sou 100%. 
5% de lágrimas, 
5% de sensatez, 
1% de prudência, 
2% de dúvidas, 
4% de ilusão, 
3% de calma, 
15% de expectativas, 
25% de ansiedade, 
20% de loucura, 
20% confiança. 
Isso basta? 
Não. 
Algo falta... 
Quem sabe uma pitada 
 De 150% de imaginação? 

  Gisa

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