"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Last blues, to be read someday
Foi só um flirt
e sabias, claro –
alguém foi ferido
há muito tempo.
Mas nada mudou
o tempo passou –
um dia chegaste
um dia morrerás.
Alguém morreu
há muito tempo –
alguém que queria
mas não sabia.
Cesare Pavesi
(foto Gloria Grahame)
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Sensualidade
Ser sensual é se mostrar bem devagar
de dentro para fora,
o corpo será um mero detalhe.
Gemária Sampaio
(foto Sophia Loren)
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De Ler e Andar
Há dias em que há
mais sentido nas ruas
do que nos livros.
Nesses dias se deve
de casa sair
e, dentro de si,
caminhar à escuta
da vida.
Há dias,
porém, em que mais
sentido há nos livros.
É preciso então
trancar-se em leituras
e, numa entrega de sonho
misturar-se ao mundo.
Alcides Buss
(foto Marilyn Monroe)
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Minudências
Ser feliz
é ter o coração livre
e a consciência tranquila;
é receber a brisa
e falar de legria!
É vestir
o agasalho da saúde
a camisa do sonho
e os sapatos do amor!
É cantarolar no silêncio
brindar a paz
e então
sair de si
estender seu coração
e dizer:
estou pronto
o sofrimento é canto!
Luiz José Maia
(foto Anita Ekberg)
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Olhava-me nos olhos, com aquela maneira que ela tinha de olhar e levava a pensar se na verdade ela via alguma coisa com os seus próprios olhos. Olhos capazes de olhar e tornar a olhar, mesmo depois de quantos outros olhos no mundo terem deixado de olhar. Olhava como se nada houvesse na Terra que ela não fosse capaz de olhar assim, quando a verdade é que tinha medo de tantas coisas.
Ernest Hemingway
(foto Bette Davis)
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Tratam-me como se fosse uma daquelas bonecas baratas, que se recebem de duas em duas semanas quando a nossa tia favorita nos vem visitar. Aquelas em que pegamos, achamos graça e brincamos com elas, até nos fartarmos e querermos outra. Aquelas que, depois de perderem a graça, não passam de mais uma na nossa enorme colecção de figuras imóveis. Não percebem o sofrimento dos que são condenados a ser bonecas sem o quererem. Porque mesmo eu, boneca que sou agora, tenho sentimentos [ou pelo menos o que resta deles]
E bonecas também choram, nem que sejam lágrimas de plástico...
Inês
(foto Alice White)
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Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio via-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
António Ramos Rosa
(foto Vivien Light)
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Felinus
A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.
Inês Lourenço
(foto Kim Novak)
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Promessa
Pois eu digo que vou arregaçar esses punhos de linho bordado e procurar cada uma das pérolas desse meu colar desfeito.
Antes que o seu brilho volte a ser mero carbonato de cálcio com areia, no meio dos escombros.
Bruna Pereira
(foto Muriel Finley)
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Tormentas de Um Passado que É (ra)
Necessito novas meias, novos livros, velhos sambas, novos goles, novos cheiros, velhos abraços, novos beijos, novos choros, velhos risos, novas camas, velhos amores, velhos vinhos, novos acasos, novas paixões, novos corpos, velhos corações, novos arranhões, velhas declarações... Novos motivos para ressuscitar minha vida e ter alguma graça. Necessito você.
Marcos Ubaldino
(foto Carol Lynley)
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O de número 2015...
E a menina estava indócil
subia e descia no banquinho
para olhar pela janela
Quando chegaria o ano novo?
O que ele traria pra ela?
Quem era ele?
E nada...
E nada...
Todos os dias eram uma eternidade
Brincava, cantava e olhava para fora
Até que em uma noite
um pouquinho antes de adormecer
ela espiou pela frestinha da janela
já meio desacreditada de tudo
e viu um cortejo
de Anjos
de asas de todos os tamanhos
descendo dos céus
e cada um carregava no coração
um Anjinho bem pequenino
que começou a ser entregue
a cada pessoa que por eles cruzavam
Ela ficou encantada com o que viu
e mais ainda ao escutar
a música que chegava do Alto
onde uma harpa suave era dedilhada
pelo Anjo-mor, que sentado
em cima de maior e mais linda
nuvem branca
que ela jamais tinha visto
abria-lhe um sorriso que
carregava todo o amor do mundo!
Na mesma hora um Anjo
aproximou-se dela
e lhe entregou seu Anjinho pequeno
dizendo: este é o teu Ano Novo!
O Anjinho de número 2015
que te entrego para tomares conta
cuida dele com todo carinho
que puderes, pois ele saberá
retribuir-te regiamente
Multiplica todo o amor
Que ganharás dele,
Pois quanto mais repartires
mais receberás de volta
Pega ele pela mão
bem firme e não solta
que nunca errarás o caminho!
Vai, agora segue com ele...
Wania Victoria
(foto Shirley Temple)
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vem aí alguém
disseram-me que foste visto, agora mesmo, numas escadas quaisquer, de uma rua qualquer, a fumar um cigarro e a olhar para o céu. esperas alguém? uma voz? uma estrela? uma gota de chuva? um foguete fora de hora? um balão vadio? ah! não, já sei... esperas que o ano acabe, e não queres dar nem mais um passo. esse cigarro é o último do maço, é o sabor que queres ter na boca, é o silêncio com que me recebes, é a espera em si.
meia-noite: cheguei. podes apagá-lo sem o terminar. dá-me a mão, o mundo espera-nos, o novo ano também.
Josephine
Feliz Ano Novo, amigos e visitantes!
Que os anjos do Criador cerquem suas vidas de paz, esperança, amor, saúde e alegrias.
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Sou lunar de duas sombrias luas
Eu não penso, nem me queixo,
nem discuto,
nem durmo.
Não desejo nem sol,
nem lua, nem mar,
nem barco.
Não penso no calor que faz entre estas
paredes,
nem como o jardim está verde;
e esse presente, que tanto desejei,
já não o espero.
Não me anima nem a manhã, nem
o eléctrico
o seu tilintar alegre,
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo,
o ano e a hora.
Sobre uma corda estragada,
eu danço – pobre dançarina.
Sou a sombra de uma sombra. Sou lunar
de duas sombrias luas.
Marina Tsvétaïeva
(trad. António Mega Ferreira)
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connect the dots
acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum.
um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão.
eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.
(desconheço autoria)
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Devo dizer, para ser franca, que já várias vezes tinha acedido a sair com ele. Não para ir ao baile. Ele dizia que não gostava de dançar. Na realidade, não sabia. Mas não me impedia que o fizesse. Eu também não gostava por aí além de dançar(...) Preferia ir até ao campo com ele. Ora me levava a Saint-Germain, ora a Fontainebleau, ora à beira do Sena ou do Marne. Alugávamos um barco. Ele remava. Eu ficava sentada à sua frente sem dizer nada. Ele também não dizia palavra. Olhava para mim enquanto remava e de vez em quando sorria-me. Eu então também sorria para ele. À volta, tomávamos um “panaché”, com umas batatas fritas, numa tasquinha lá do sítio e voltávamos de comboio, ou numa camioneta à pinha, com os braços atafulhados de flores do campo. Flores que cheiravam bem. De regresso a Paris, quase me sentia asfixiar. Gostaria de ter lá ficado, em Athis-Mons ou em Gagny, uma semana inteira deitada na relva ao pé dele, a olhar para o céu.
Raymond Guérin
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Sonhos de Natal
Aquele velhinho sempre povoou os meus sonhos!
Ao acordar, eu olhava e não o via...
O saco de brinquedos era minha adoração!
Ao acordar, eu procurava e não o encontrava.
O sapato, na janela, continuava vazio...
Em cada aniversário dele, eu sonhava e buscava.
E os sinos repicando na torre da Igreja
Blém-blom... blém-blom... blém-blom
Pareciam me dizer: desilusão... desilusão... desilusão...
O tempo foi passando, a dor eu acalentando,
Até que entendi que o brinquedo era simbólico
Que o velhinho não existia
Que aquele, era o dia da Salvação!
Que Maria deu seu filho Jesus
para a nossa Redenção!
Com alegria percebi
que os sinos mudaram o som
que em mim agora ecoava
a palavra coração... coração... coração...
E o espírito do Natal, eu comecei a viver!
(Desconheço autoria)
Feliz Natal, amigos e visitantes!
Que vocês possam ter a alegria de viver o espírito natalino em sua plenitude!
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Percentagens
Sou 100%.
5% de lágrimas,
5% de sensatez,
1% de prudência,
2% de dúvidas,
4% de ilusão,
3% de calma,
15% de expectativas,
25% de ansiedade,
20% de loucura,
20% confiança.
Isso basta?
Não.
Algo falta...
Quem sabe uma pitada
De 150% de imaginação?
Gisa
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