"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Promessa
Pois eu digo que vou arregaçar esses punhos de linho bordado e procurar cada uma das pérolas desse meu colar desfeito.
Antes que o seu brilho volte a ser mero carbonato de cálcio com areia, no meio dos escombros.
Bruna Pereira
(foto Muriel Finley)
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Tormentas de Um Passado que É (ra)
Necessito novas meias, novos livros, velhos sambas, novos goles, novos cheiros, velhos abraços, novos beijos, novos choros, velhos risos, novas camas, velhos amores, velhos vinhos, novos acasos, novas paixões, novos corpos, velhos corações, novos arranhões, velhas declarações... Novos motivos para ressuscitar minha vida e ter alguma graça. Necessito você.
Marcos Ubaldino
(foto Carol Lynley)
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O de número 2015...
E a menina estava indócil
subia e descia no banquinho
para olhar pela janela
Quando chegaria o ano novo?
O que ele traria pra ela?
Quem era ele?
E nada...
E nada...
Todos os dias eram uma eternidade
Brincava, cantava e olhava para fora
Até que em uma noite
um pouquinho antes de adormecer
ela espiou pela frestinha da janela
já meio desacreditada de tudo
e viu um cortejo
de Anjos
de asas de todos os tamanhos
descendo dos céus
e cada um carregava no coração
um Anjinho bem pequenino
que começou a ser entregue
a cada pessoa que por eles cruzavam
Ela ficou encantada com o que viu
e mais ainda ao escutar
a música que chegava do Alto
onde uma harpa suave era dedilhada
pelo Anjo-mor, que sentado
em cima de maior e mais linda
nuvem branca
que ela jamais tinha visto
abria-lhe um sorriso que
carregava todo o amor do mundo!
Na mesma hora um Anjo
aproximou-se dela
e lhe entregou seu Anjinho pequeno
dizendo: este é o teu Ano Novo!
O Anjinho de número 2015
que te entrego para tomares conta
cuida dele com todo carinho
que puderes, pois ele saberá
retribuir-te regiamente
Multiplica todo o amor
Que ganharás dele,
Pois quanto mais repartires
mais receberás de volta
Pega ele pela mão
bem firme e não solta
que nunca errarás o caminho!
Vai, agora segue com ele...
Wania Victoria
(foto Shirley Temple)
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vem aí alguém
disseram-me que foste visto, agora mesmo, numas escadas quaisquer, de uma rua qualquer, a fumar um cigarro e a olhar para o céu. esperas alguém? uma voz? uma estrela? uma gota de chuva? um foguete fora de hora? um balão vadio? ah! não, já sei... esperas que o ano acabe, e não queres dar nem mais um passo. esse cigarro é o último do maço, é o sabor que queres ter na boca, é o silêncio com que me recebes, é a espera em si.
meia-noite: cheguei. podes apagá-lo sem o terminar. dá-me a mão, o mundo espera-nos, o novo ano também.
Josephine
Feliz Ano Novo, amigos e visitantes!
Que os anjos do Criador cerquem suas vidas de paz, esperança, amor, saúde e alegrias.
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Sou lunar de duas sombrias luas
Eu não penso, nem me queixo,
nem discuto,
nem durmo.
Não desejo nem sol,
nem lua, nem mar,
nem barco.
Não penso no calor que faz entre estas
paredes,
nem como o jardim está verde;
e esse presente, que tanto desejei,
já não o espero.
Não me anima nem a manhã, nem
o eléctrico
o seu tilintar alegre,
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo,
o ano e a hora.
Sobre uma corda estragada,
eu danço – pobre dançarina.
Sou a sombra de uma sombra. Sou lunar
de duas sombrias luas.
Marina Tsvétaïeva
(trad. António Mega Ferreira)
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connect the dots
acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum.
um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão.
eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.
(desconheço autoria)
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Devo dizer, para ser franca, que já várias vezes tinha acedido a sair com ele. Não para ir ao baile. Ele dizia que não gostava de dançar. Na realidade, não sabia. Mas não me impedia que o fizesse. Eu também não gostava por aí além de dançar(...) Preferia ir até ao campo com ele. Ora me levava a Saint-Germain, ora a Fontainebleau, ora à beira do Sena ou do Marne. Alugávamos um barco. Ele remava. Eu ficava sentada à sua frente sem dizer nada. Ele também não dizia palavra. Olhava para mim enquanto remava e de vez em quando sorria-me. Eu então também sorria para ele. À volta, tomávamos um “panaché”, com umas batatas fritas, numa tasquinha lá do sítio e voltávamos de comboio, ou numa camioneta à pinha, com os braços atafulhados de flores do campo. Flores que cheiravam bem. De regresso a Paris, quase me sentia asfixiar. Gostaria de ter lá ficado, em Athis-Mons ou em Gagny, uma semana inteira deitada na relva ao pé dele, a olhar para o céu.
Raymond Guérin
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Sonhos de Natal
Aquele velhinho sempre povoou os meus sonhos!
Ao acordar, eu olhava e não o via...
O saco de brinquedos era minha adoração!
Ao acordar, eu procurava e não o encontrava.
O sapato, na janela, continuava vazio...
Em cada aniversário dele, eu sonhava e buscava.
E os sinos repicando na torre da Igreja
Blém-blom... blém-blom... blém-blom
Pareciam me dizer: desilusão... desilusão... desilusão...
O tempo foi passando, a dor eu acalentando,
Até que entendi que o brinquedo era simbólico
Que o velhinho não existia
Que aquele, era o dia da Salvação!
Que Maria deu seu filho Jesus
para a nossa Redenção!
Com alegria percebi
que os sinos mudaram o som
que em mim agora ecoava
a palavra coração... coração... coração...
E o espírito do Natal, eu comecei a viver!
(Desconheço autoria)
Feliz Natal, amigos e visitantes!
Que vocês possam ter a alegria de viver o espírito natalino em sua plenitude!
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Percentagens
Sou 100%.
5% de lágrimas,
5% de sensatez,
1% de prudência,
2% de dúvidas,
4% de ilusão,
3% de calma,
15% de expectativas,
25% de ansiedade,
20% de loucura,
20% confiança.
Isso basta?
Não.
Algo falta...
Quem sabe uma pitada
De 150% de imaginação?
Gisa
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Dentro da caixa
Ao abrir...
Reparo sempre que ela própria não consegue dar à corda a sua própria manivela de bailarina de caixinha-de-música.
Reparo sempre que as mãos não chegam às costas, estão sempre na mesma posição: levantadas para o tecto, como as pontas dos pés e dos cabelos.
Reparo sempre que é um corpo esticado em "i" que roda com as notas musicais e faz rimas de coisas que ouve da boca de quem abre a caixa: sonho, senha, ranho, lenha, canto, acanto... - Que são folhas de acanto? Pensará ela, mas nunca me diz nada, só se olha ao espelho da tampa da caixinha que a engole no escuro sempre que ninguém lhe dá à corda.
Reparo sempre que é uma cariátide no vazio, sem nada que segurar para além da imensidão do nada quadrado duma caixa que a melodia do xilofone martela.
Reparo sempre que é um corpo rotativo de pés presos onde só a cabeça e o coração voam em sonhos.
Ao fechar...
Reparo sempre que me pareço a ela e por isso volto a abrir a caixa e faço-lhe companhia.
Bruna Pereira
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Usos repetidos
Olho
pelo vidro
da janela
o passar intermitente
da vida
Pausado
mas contínuo
o ritmo do ritual
avança incessante
em busca do amanhã
que depressa
será ontem
E pergunto
à sabida janela
o porquê
de tantos usos
repetidos
O vidro
não responde
com palavras
mas incha
e embacia de rotinas
que me respondem
Baixo a persiana
para esconder o óbvio
Francisco J. Picón
(trad. Albino M.)
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O rosto (...) apresentava uma imobilidade semelhante a uma máscara, característica da maquilagem perfeita e discreta. Entrou no quarto protegida pelo manto da perfeição artificial com que as mulheres que já são bonitas costumam se armar contra o mundo.
Josephine Hart
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Mas, afinal, quem sou eu, esta pessoa que se encosta ao portão e observa o nariz do cão que a acompanha? Às vezes penso (ainda não cheguei aos vinte) que não sou uma mulher, mas antes a luz que incide neste portão, no solo. Por vezes, penso ser as estações do ano, Janeiro, Maio, Novembro; a lama, o nevoeiro, a alvorada. Não posso ser empurrada para o meio dos outros sem me misturar com eles. Contudo, apoiada ao portão, sinto um peso que se formou junto a mim e me acompanha.
Virginia Woolf
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Vamos ser felizes por um tempo, vida minha,
embora não haja razão para sê-lo, e o mundo
seja um balão de gás letal, e nossa história
um filme B de bruxas, zumbis e vampiros.
Felizes porque sim, para que um dia gravem
em nossa sepultura o seguinte epitáfio:
“Aqui descansam os ossos de uma mulher e de um homem
que, não se sabe como, conseguiram ser felizes
dez minutos seguidos”
Fabiano Calixto
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Um amém de santo...
Que o palco nosso de cada dia nos dê hoje
alimento aos sonhos e fome aos medos,
verdade aos pés e beijo à boca,
maciez aos olhos e mágoa pouca,
um Amor com histórias,
um aroma às memórias,
doces vinhos e glórias,
e certeza aos amanhãs,
o saber do tempo,
o sabor do intenso,
o calar do vento,
o calor do outro,
celebrar o pranto
de um milagre pronto,
festejar o encontro
com qualquer imenso.
E um amém de santo.
Guilherme Antunes
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Procuro
Procuro saber como flutuar. Saber como se lêem as ruas plenas de trânsito quando o que queria era só ... [como colocar os pés nos caminhos que ...] saber como respirar. Saber como silenciar a sofreguidão [como silenciar o silêncio] ... como parar de doer. Como ... procuro uma viagem que não termine antes do seu fim. Uma árvore que fale dos ventos que lhe mudam a direcção [ainda não a conheci] ... procuro ser simples e fazer parar o tempo. Só. [ser simples] ... Procuro à noite as cores e não me importo de adoecer em ti. Procuro o meu coração.
Francisco Vieira
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O gosto das almas
Gosto de xícaras
Gosto de xícaras brancas
Com beiradas bordadas de jasmim
Que abrigam o chá de almas
Fluído das lágrimas, mares de sal.
Xícaras brancas com beiradas de rosas
Que envolvem o conteúdo
Do calor de almas que se abraçam
Gosto do silêncio das xícaras brancas
E do calor saltam dançarinas
O bordado de jasmim sorri.
O chá das almas exala fadas brancas, diáfanas
Que dançam no ar por segundos e morrem
Espalhando o perfume das frutas e das flores.
Luciana Montechiari
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