"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

9.9.14


Dentro da gente

Mas acredite nisto que eu lhe digo, as pessoas aguentam muita coisa. Somos capazes de suportar tanta coisa, até quando achamos que não vamos conseguir, depois acontece a vida continua mesmo que dentro da gente tenha morrido qualquer coisa. Estou sempre a dizer isto, a dor também faz parte da vida. Não há nada a fazer. Podemos lutar contra isso, claro, mas depois acabamos por perceber, a certa altura, que a vida foi inútil! Gastaram-se forças que podiam ter sido mais úteis noutras coisas. 

  Rainer Werner Fassbinder

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8.9.14


De pernas para o ar

Esta é a história de Amanda Júlia. Arquiteta bem sucedida, dona de um corpo escultural, bonita e charmosa, sem mencionar o fantástico senso de humor. E não termina por aí. Para completar sua lista particular de desejos realizados, vive um tórrido romance com um homem incrível. Cenário quase perfeito. Sim. Quase. Afinal não poderia agradar gregos e troianos. Neste caso, principalmente certas troianas. Algumas amigas reclamavam de que ela sempre fora ausente. E, depois do novo amor, não queria mais saber de nada, nem de ninguém. Um dia, cansada das críticas (ou seria inveja?), Amanda Júlia pediu ao namorado que a fotografasse com as pernas para o ar. E enviou, para as amigas, a imagem com a legenda espirituosa: "Só assim as varizes me dão sossego". 

  Dolce Vita 

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7.9.14


Se eu pudesse recomeçar a vida, eu procuraria fazer meus sonhos ainda mais grandiosos; por que a vida é infinitamente mais bela e maior do que eu pensava, mesmo em sonho. 

  Georges Bernanos

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6.9.14


Janela 

 "Estás cada vez mais cínica", disse ele, depois daquele breve silêncio que acontece quando já não há mais nada a argumentar. Ela levantou-se, aproximou-se da janela, abriu-a, acendeu o cigarro que já tinha entre os lábios, e depois de lançar a primeira baforada de fumo, respondeu-lhe "não, estou cada vez mais velha". Enquanto o cigarro durou, manteve o olhar o mais longe possível, vagueando entre constelações cujo nome nunca conseguira decorar. Desejava que aquele cigarro ardesse a noite toda, queria perder-se nessas estrelas longínquas. Ele levantou-se do sofá, ficou de pé alguns segundos, como se esperasse que o seu movimento a trouxesse de novo para dentro da sala, para dentro da conversa, para dentro do que sobrava dos dois."Vou-me deitar", disse ele, por fim; ela acenou a cabeça sem se voltar, anuiu com a mão num gesto leve e continuou perdida entre as estrelas, as lágrimas a torná-las ainda mais brilhantes. 

  Natália Cardoso 

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5.9.14


Sinto que este corpo não é meu e que essas idéias que me atormentam não são minhas. Só que quando me olho no espelho é o mesmo rosto daquela menina, um pouco mais velho, é o mesmo sorriso, mas com um pouco de dor, mas ainda é o mesmo. Também são os mesmos olhos com um olhar diferente, que mostra a confusão em minha mente e a dor que sinto em minha alma.

  Brenda Bloonq

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4.9.14


Todos sabemos acender um fósforo 
a quem nos pede lume. 

 Talvez fosse uma conversa 
possível até ao fim. Mas o mais vulgar 
é ficarmos onde estamos 
com o fósforo aceso à beira do rosto 

 — e antes de haver tempo 
a chama queima os dedos. 

  Carlos Poças Falcão 

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3.9.14


A palhaça não ri 

Então a vida de uma palhaça
De repente, fez-se sombria, 
Alma desnuda e estilhaça
A lágrima escorre vazia. 

Trapezista salta sem rede
Saudade é fera enjaulada
Picadeiro oculta sua sede 
E o circo estanca sua risada.

Tristeza invade inclemente
Não fala, não ri, não mente
Sua cólera é cor de vinho
Verdade borra o caminho.

Dolce Vita

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2.9.14


Olhando para trás, porque às vezes só bem mais a frente conseguimos entender certas coisas do passado, eu percebo que, em vários momentos, ainda que eu não pedisse, parece ter acontecido o que Deus sabia que era melhor para mim e não o que eu imaginava, superficialmente, saber. Percebo que em algumas circunstâncias em que cheguei a lamentar pelo insucesso de planos que eu considerava os melhores do mundo, eu estava, na verdade, sendo poupada de encrencas das grandes. 

  Ana Jácomo

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1.9.14


Setembro novamente

Há um sentimento
Que sempre em mim desponta
Nesse período em que setembro está a chegar...

Ele entra de mansinho
Ainda no mês de agosto
E vai desabrochando no meu peito
Para nascer em setembro
Tal qual como a primavera...

Sentimento prazeroso
Que produz frutos novos
A nascerem no meu peito...

Tudo em meu ser se modifica
Minha pele sente sensações
Como se estando a brotar
Com a estação das flores...

Há um sentimento setembro
Que mais uma vez chega em mim
Despontando dia a dia...

Que vai brotando
Com o cheiro do ar
Com o perfume da vida
Com essa visão tão linda
Que a natureza fica...

Meu ser
Prepara-se para a festa
O sol já reina com mais brilho
A primavera enfim regressa...

Glórinha Gaivota

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31.8.14


Pedido do dia 

 Ah dia! Clareia meus pensamentos 
mais nebulosos. 
 Refaz a minha esperança perdida. 
 Sustenta o meu ombro cansado. 
 Reduz meus atropelos. 
 Arruma meus erros. 
 Alimenta minhas certezas. 
 Multiplica minha coragem. 
 Abastece meu repertório de alegrias. 
 Seca as minhas lágrimas. 
 Respeita a minha saudade 
 e afaga meu silêncio. 

  Ita Portugal

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30.8.14


Canção da Despedida

Não ri e não cantei: 
fiquei o dia inteiro calada. 
Mais do que tudo queria estar contigo
de novo desde o começo. 
Irrefletida a primeira briga, 
absoluto e claro delírio; 
silenciosa, insensível, rápida, 
nossa última refeição. 

 Anna Akhmátova
(trad. Lauro Machado Coelho) 

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29.8.14


Celebração da Fantasia

Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, se aproximou para me pedir que lhe desse como presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava a usá-la para fazer sei lá que anotações, mas ofereci-me para desenhar um porquinho na sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente vi-me cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse nas suas mãozinhas, rachadas de sujidade e de frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão. 
 E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra no seu pulso:

 — Quem me mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima — disse ele.
 — E funciona bem? — perguntei.
— Atrasa um pouco — reconheceu. 

  Eduardo Galeano

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28.8.14


Vacilo da vocação 

Precisaria trabalhar - afundar -
- como você - saudades loucas -
nesta arte - ininterrupta -
de pintar -

A poesia não - telegráfica - ocasional -
me deixa sola - solta -
à mercê do impossível -
- do real.

 Ana Cristina César 

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27.8.14


Boneca 

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.

Dora Ferreira da Silva

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26.8.14


Abraça 

Não importa se é amigo, conhecido ou distante.
Um abraço forte
Ampara tristezas 
Sustenta lágrimas
Cura corações
Apazigua a saudade 
Suaviza o medo.
Por angústia
Por alegria
Por tristeza
Por felicidade
Por Amor
Abraça!

Cecília Vilas Boas

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25.8.14


Corpo ausente 

 Guardei no bolso o sonho 
Porque nos olhos já não cabia! 
Era grande demais, e os olhos são pequenos... 
O bolso, é fundo e escuro 
Acomoda a eternidade do que é utópico. 

  Cecília Vilas Boas

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24.8.14


Dançando 

Os corpos muito juntinhos
As mãos e os braços trocados
Os passos acertadinhos
Os olhares bem fixados

E temos um par a dançar
Dentro de um quadro de esperança
Que fixa os seres que deslizam
Assim, ao jeito da dança

Ritmados, ao som da música
Os corpos se vão soltando
Sem querer, deixam os sentidos
Trocarem-se assim, dançando.

  Maria Besuga

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