"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

3.9.14


A palhaça não ri 

Então a vida de uma palhaça
De repente, fez-se sombria, 
Alma desnuda e estilhaça
A lágrima escorre vazia. 

Trapezista salta sem rede
Saudade é fera enjaulada
Picadeiro oculta sua sede 
E o circo estanca sua risada.

Tristeza invade inclemente
Não fala, não ri, não mente
Sua cólera é cor de vinho
Verdade borra o caminho.

Dolce Vita

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2.9.14


Olhando para trás, porque às vezes só bem mais a frente conseguimos entender certas coisas do passado, eu percebo que, em vários momentos, ainda que eu não pedisse, parece ter acontecido o que Deus sabia que era melhor para mim e não o que eu imaginava, superficialmente, saber. Percebo que em algumas circunstâncias em que cheguei a lamentar pelo insucesso de planos que eu considerava os melhores do mundo, eu estava, na verdade, sendo poupada de encrencas das grandes. 

  Ana Jácomo

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1.9.14


Setembro novamente

Há um sentimento
Que sempre em mim desponta
Nesse período em que setembro está a chegar...

Ele entra de mansinho
Ainda no mês de agosto
E vai desabrochando no meu peito
Para nascer em setembro
Tal qual como a primavera...

Sentimento prazeroso
Que produz frutos novos
A nascerem no meu peito...

Tudo em meu ser se modifica
Minha pele sente sensações
Como se estando a brotar
Com a estação das flores...

Há um sentimento setembro
Que mais uma vez chega em mim
Despontando dia a dia...

Que vai brotando
Com o cheiro do ar
Com o perfume da vida
Com essa visão tão linda
Que a natureza fica...

Meu ser
Prepara-se para a festa
O sol já reina com mais brilho
A primavera enfim regressa...

Glórinha Gaivota

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31.8.14


Pedido do dia 

 Ah dia! Clareia meus pensamentos 
mais nebulosos. 
 Refaz a minha esperança perdida. 
 Sustenta o meu ombro cansado. 
 Reduz meus atropelos. 
 Arruma meus erros. 
 Alimenta minhas certezas. 
 Multiplica minha coragem. 
 Abastece meu repertório de alegrias. 
 Seca as minhas lágrimas. 
 Respeita a minha saudade 
 e afaga meu silêncio. 

  Ita Portugal

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30.8.14


Canção da Despedida

Não ri e não cantei: 
fiquei o dia inteiro calada. 
Mais do que tudo queria estar contigo
de novo desde o começo. 
Irrefletida a primeira briga, 
absoluto e claro delírio; 
silenciosa, insensível, rápida, 
nossa última refeição. 

 Anna Akhmátova
(trad. Lauro Machado Coelho) 

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29.8.14


Celebração da Fantasia

Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, se aproximou para me pedir que lhe desse como presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava a usá-la para fazer sei lá que anotações, mas ofereci-me para desenhar um porquinho na sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente vi-me cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse nas suas mãozinhas, rachadas de sujidade e de frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão. 
 E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra no seu pulso:

 — Quem me mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima — disse ele.
 — E funciona bem? — perguntei.
— Atrasa um pouco — reconheceu. 

  Eduardo Galeano

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28.8.14


Vacilo da vocação 

Precisaria trabalhar - afundar -
- como você - saudades loucas -
nesta arte - ininterrupta -
de pintar -

A poesia não - telegráfica - ocasional -
me deixa sola - solta -
à mercê do impossível -
- do real.

 Ana Cristina César 

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27.8.14


Boneca 

A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.

Dora Ferreira da Silva

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26.8.14


Abraça 

Não importa se é amigo, conhecido ou distante.
Um abraço forte
Ampara tristezas 
Sustenta lágrimas
Cura corações
Apazigua a saudade 
Suaviza o medo.
Por angústia
Por alegria
Por tristeza
Por felicidade
Por Amor
Abraça!

Cecília Vilas Boas

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25.8.14


Corpo ausente 

 Guardei no bolso o sonho 
Porque nos olhos já não cabia! 
Era grande demais, e os olhos são pequenos... 
O bolso, é fundo e escuro 
Acomoda a eternidade do que é utópico. 

  Cecília Vilas Boas

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24.8.14


Dançando 

Os corpos muito juntinhos
As mãos e os braços trocados
Os passos acertadinhos
Os olhares bem fixados

E temos um par a dançar
Dentro de um quadro de esperança
Que fixa os seres que deslizam
Assim, ao jeito da dança

Ritmados, ao som da música
Os corpos se vão soltando
Sem querer, deixam os sentidos
Trocarem-se assim, dançando.

  Maria Besuga

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23.8.14


Permite-me... 

Hoje, só hoje, permite-me: 

 abrir livros, 
tomar banho nas palavras, 
enfeitar-me de jóias, 
ser cor-de-rosa cheirar as flores, 
andar descalça, 
ser mimada, 
sonhar noutro tempo, 
encontrar-me em local desconhecido, 
ser lamechas. 

 Permite-me hoje, fantasias de diamante 
pois o meu coração é carvão. 

  Mar Maria 

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22.8.14


por dentro

eu me arrebentei, assim, porque o nó era fraco. frouxo. mal dado. eu afundei, em segundos, porque no meu casco havia um buraco milimétrico por onde o mar entrou, aos poucos. inteiro. eu caí com o primeiro vento porque não havia tijolos. eu era construção mal feita. erguida na pressa. madeira com pregos mal batidos. fachada. eu derreti ao sol porque era de plástico. sumi no sopro porque era pó. eu me quebrei na primeira queda porque, por dentro, não havia mais nada. eu me sentia forte, sem saber que já era oco. 

  Eduardo Baszczyn

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21.8.14


Das cadeiras com asas

É que às vezes eu sento e observo a vida.Tento entender sua beleza mas, ela vem a mim como uma obra de arte difusa e sem nexo. Percebo que é difícil compreender a arte quando não se faz parte dela. Ao estar alheio a vida, compreendê-la se torna algo monótono e confuso. Bom mesmo é entrar nessa arte e colori-la ao seu modo, deixá-la com as forma do seu sorriso, do seu amor. Surpreendente é perceber que não há explicação para o seu Sol que brilha de noite e sua Lua que enfeita o dia. Na sua fantasia você tem os pincéis, então esboce o caminho de volta ou o caminho de ida. O importante é não ficar sentado em sua cadeira vendo a vida passar, a não ser, que nela você pinte asas e atrás dos sonhos você se ponha a voar.

  Roberta Blá

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20.8.14


Mas, era precisamente à hora das refeições que ela já não podia mais, naquela salinha, do rés-do-chão, com o fogão a fumegar, a porta a ranger, as paredes salitrosas, as lajes úmidas; toda a amargura da existência lhe parecia como que servida no fundo de seu prato, e ao fumegar do cozido, saíam-lhe do fundo da alma outros sopros de tédio.

  Gustave Flaubert
(trad. de José Maria Machado)

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18.8.14


Breve encontro 

Moça por que choras?
Vejo as lágrimas 
secarem teu rosto

Não vês?
Perdeu-se de ti

Quebre seus muros
Deixe um pouco de sonhar
Não é só flutuar 
a vida

Distraia teus enganos
Tens um punhado de promessas nas mãos
O cheiro do teu perfume 
lembrando amor do passado
Deixe-o passar

De uma cor indecifrável são teus olhos
Traga a cor da tua infância
Tome um gole daquela que um dia foi.

Se te encontras ao ferir a ferida
Mergulhes no absurdo
Mas seja breve
Salve-se
Olhe para fora
saia de si.

 Milene Cristina

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17.8.14


preciso de uma coisa tão banal como sentar-me à beira dos meus gatos, pegar num livro, pensar nos amigos com quem não estou, beber um chá ao som de tindersticks ou de spain, escrever um poema, desarrumar um pouco mais a estante dos cds, depois a dos livros, desfazer a cama para dormir - em vez de deitar-me sem ter tido sequer tempo de a fazer - sair para a tarde e fotografar janelas... acordar sem esta sensação de que o dia vai chegar demasiado cedo ao fim e que nem consegui respirar-lhe a luz. 

preciso de (sobre)viver. 

  ana c. 

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