"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

7.8.14


O menino que não fez falta 

 “Letraerrada” sumiu naquele dia. Nem perceberam sua ausência. O menino era o oitavo irmão de Anacleto, Berenice, Cleusiane, Doralice, Erivaldo, Francisco e Gervásio. Ele seria a letra H. A mãe queria Hércules, por causa das fotonovelas e filmes antigos que vira em preto e branco. Seria um herói, pensava a mãe nas horas vagas. O pai levou o nome ao moço do cartório. Não era lá tão versado em letras e o registro no cartório saiu como Ércules. Logo o menino ganhou o apelido: o “Letraerrada”. “Letraerrada” era magrelo, mesmo no auge de seus dez anos. Era franzino, com uma pele amarronzada carcomida pelos piolhos. Era pouco desenvolvido. De corpo e de cabeça. Era burro, como dizia seu pai. “Letraerrada” não sorria, não chorava, não pedia nem reclamava. Sempre vítima das maldades infantis dos irmãos e irmãs, tinha medo de tudo, ou quase tudo. Só não temia a solidão. Na pobreza em que viviam “Letraerrada” não brincava, não corria, nada fazia. Vivia sujo pelos cantos observando a natureza. A casa onde morava ficava isolada no meio do sertão de meu Deus. Poeira e desalento eram os únicos vizinhos. Naquele dia “Letraerrada” ouviu de longe uma música alegre. Seus pobres ouvidos desacostumados com as cores da vida não reconheceu o som de um caminhão de circo. Mas lá de longe chegava o tal caminhão, carregando a trupe toda que logo montaria lona próximo à cidade. “Alô amigos, não percam o espetáculo do palhaço Seu Zé e o amigo Chulé, amanhã no novo circo que está chegando”. Assim começava o discurso do som alto que saia do caminhão. “Letraerrada” se encantou. Saiu correndo em direção à música. Parou na beira da estrada e o caminhão passou por ele. O menino não se segurou e saiu correndo atrás do velho carro colorido. Primeiro perdeu o chinelo do pé esquerdo. Deixou pelo caminho, sem arrependimentos. Depois caiu de joelhos na estrada de areia. O sangue logo apareceu, mas ele nem ligou. Levantou e correu novamente. Correu como nunca antes tinha corrido na vida. Correu sem medo, livre, como se deixasse pra trás toda e qualquer tristeza, como se arrancasse do peito toda a angústia e o peso de uma existência sem sentido. Nos lábios algo que poderia ser um sorriso se desenhou. As lágrimas tomaram o rosto de Ércules e ele correu, correu até tropeçar e cair de novo. Dessa vez bateu a cabeça numa pedra. O caminhão foi embora sem tomar conhecimento da perseguição. Ércules caiu sem respirar. Caiu olhando para o céu. Não sentiu nada, como não sentira nada antes na vida. O ensaio de um pequeno sorriso congelou no rosto do menino que não fez a menor falta naquele dia. Ércules foi encontrado no dia seguinte por Berenice e Doralice, meio por acaso, quando saiam para ir à cidade. “Letraerrada” foi enterrado ao lado da casa dos pais. 
Sem música e sem circo.

  Andrea Carvalho

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6.8.14


Madura 

Quando eu fecho os olhos
que não enxergam além das cercas do meu jardim
tenho a impressão que o dia se faz noite
e um vento frio atravessa meu corpo banhado
provocando um arrepio comprido
que começa na nuca
e eu nem sei onde termina.

Muitos anos atrás eu me achava madura
mas não fazia idéia do que era estar pronta.
Agora eu estou.

Ou quase.

  Lilian Dalledone

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5.8.14


 saiu para a rua.
embrenhou-se na espessura da noite,
amou e traiu,
seduziu e deixou-se seduzir,
morreu um pouco todas as manhãs
e nunca mais regressou ao que tinha sido.

 Al Berto

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4.8.14


O Áugure 

Sou um prisma às avessas
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos

A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis

Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone

  Hélio Pellegrino

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3.8.14


domingo à tarde, os olhos secam com o ar seco, o calor intenso e o fumo dos incêndios. é agosto. a cidade deserta. o gato à porta a queixar-se da sombra. Chris Hooson canta "i still think of you". faz-se tarde. sim, faz-se sempre tarde. Chris Hooson canta. acendo um cigarro. ou finjo. tanto faz quando é tarde. arranco o relógio do pulso e ponho o coração à venda. 

  Contraluz

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2.8.14


E eu fiquei! 

 Já me tiraram tanta coisa – e eu fiquei! Numa tarde de chuva levaram meu sonho – e eu fiquei! Sem licença levaram o resto de coragem que eu tinha – e eu fiquei! Acabaram com minhas preces, enganaram minha fé, romperam as novenas – e eu fiquei! Levaram o dinheiro, documentos, certificados, digital – e eu fiquei! Agora que sou o que restou, me tiraram o amor – e eu fiquei!

  Maria Clara de Claro Lira

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1.8.14


 ficar no banho
até os dedos murcharem
vai pelo ralo
toda tristeza
do dia

 Alice

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31.7.14


Escuto a vida. É inevitável a solidão. Vou caminhando a senti-la, a querer sentir-me nessa solidão; é essa, agora, a minha viagem - saber estar só, repousar, nessa planura longa, silenciosa e branca. 

  Maria João Saraiva

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29.7.14


Por favor, 
respeita o meu silêncio. 
O silêncio é a minha melhor arma.
 
 Escutaste as minhas palavras 
quando fiquei silencioso? 

 Sentiste a beleza do que disse 
quando não disse nada? 

  Nizar Qabanni
(trad. Jorge de Souza Braga)

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27.7.14


pequeno poema dos dons 

aos que não conseguem 
meditar:
as saudades e os jasmins

aos que não conseguem
imantar:
os silêncios e os gerânios

aos que não conseguem
flertar:
os mistérios e as violetas

aos que não conseguem
perseverar:
as palavras e as angélicas

aos que não conseguem
acorrentar:
o infinito e as orquídeas

  Assis Freitas

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26.7.14


Procura-se 

Artesão da pele

que mergulhe o meu corpo no mar
borde com conchas meu dorso
pincele de areia os meus cabelos

sopre a poesia e me dê vida

Flor de Sal

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20.7.14


 Eu vou espantar os automóveis da minha janela
e vou instalar uma tomada direto no Sol.
Vou ligar as torneiras no bojo das nuvens,
vou me carregar de arrepios
e ligar o botão da árvore fazedora de sombra.
Vou construir paredes de vento,
cortinas de cachoeiras,
e cobrir tudo com um telhado de estrelas azuis,
e depois, eu vou reger uma grande orquestra 
de passarinhos
e dar corda nos beija-flores,
para que eles me despertem quando tudo estiver 
terminado.

 Hélio Ribeiro

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9.7.14


um colar de lembranças para contar

guardava no compartimento esquerdo 
 uma mala com histórias, lembranças, sorrisos, olhares. 
 era com ela que fazia uma espécie de pescaria do tempo:  cada vez que lançava o anzol recuperava uma nova pérola. 

  renata carneiro

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8.7.14


Chá para as borboletas 

Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

  Bárbara Lia

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4.7.14


quando a casa se cala 
de repente aprendo a ter medo 
e fui eu que pedi este silêncio 

 ainda tenho o sabor a quente das palavras 

 abro e fecho armários e gavetas 
queria um lugar fechado para guardar memórias 

 depois 

 fico ali sentada à espera que algo aconteça 

  maria sousa

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3.7.14


Bolinhos de manteiga de amendoim

Se tivessem se conhecido no passado, se tivessem sido adultos na década de 40, talvez pudessem ter sido uma família como as das ilustrações de Norman Rockwell. Haveria um pequeno cão preto, um filho mais velho, uma filha do meio e um bebé bochechudo sentado nos joelhos do avô. Festejariam o aniversário do filho, a avó trazia para a mesa uma tarte de morango, o cão corria excitadamente ao encontro dela, seriam todos rechonchudos e corados. Uma toalha de mesa branca a roçar o chão, um presente por abrir, uma terrina de legumes sobre a mesa. Bolinhos de manteiga de amendoim. 

  Ann Beattie
(trad. Maria Sousa) 

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2.7.14


Chamada geral 

avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

todo cuidado é pouco

  Mário Henrique Leiria

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