"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

2.8.14


E eu fiquei! 

 Já me tiraram tanta coisa – e eu fiquei! Numa tarde de chuva levaram meu sonho – e eu fiquei! Sem licença levaram o resto de coragem que eu tinha – e eu fiquei! Acabaram com minhas preces, enganaram minha fé, romperam as novenas – e eu fiquei! Levaram o dinheiro, documentos, certificados, digital – e eu fiquei! Agora que sou o que restou, me tiraram o amor – e eu fiquei!

  Maria Clara de Claro Lira

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1.8.14


 ficar no banho
até os dedos murcharem
vai pelo ralo
toda tristeza
do dia

 Alice

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31.7.14


Escuto a vida. É inevitável a solidão. Vou caminhando a senti-la, a querer sentir-me nessa solidão; é essa, agora, a minha viagem - saber estar só, repousar, nessa planura longa, silenciosa e branca. 

  Maria João Saraiva

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29.7.14


Por favor, 
respeita o meu silêncio. 
O silêncio é a minha melhor arma.
 
 Escutaste as minhas palavras 
quando fiquei silencioso? 

 Sentiste a beleza do que disse 
quando não disse nada? 

  Nizar Qabanni
(trad. Jorge de Souza Braga)

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27.7.14


pequeno poema dos dons 

aos que não conseguem 
meditar:
as saudades e os jasmins

aos que não conseguem
imantar:
os silêncios e os gerânios

aos que não conseguem
flertar:
os mistérios e as violetas

aos que não conseguem
perseverar:
as palavras e as angélicas

aos que não conseguem
acorrentar:
o infinito e as orquídeas

  Assis Freitas

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26.7.14


Procura-se 

Artesão da pele

que mergulhe o meu corpo no mar
borde com conchas meu dorso
pincele de areia os meus cabelos

sopre a poesia e me dê vida

Flor de Sal

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20.7.14


 Eu vou espantar os automóveis da minha janela
e vou instalar uma tomada direto no Sol.
Vou ligar as torneiras no bojo das nuvens,
vou me carregar de arrepios
e ligar o botão da árvore fazedora de sombra.
Vou construir paredes de vento,
cortinas de cachoeiras,
e cobrir tudo com um telhado de estrelas azuis,
e depois, eu vou reger uma grande orquestra 
de passarinhos
e dar corda nos beija-flores,
para que eles me despertem quando tudo estiver 
terminado.

 Hélio Ribeiro

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9.7.14


um colar de lembranças para contar

guardava no compartimento esquerdo 
 uma mala com histórias, lembranças, sorrisos, olhares. 
 era com ela que fazia uma espécie de pescaria do tempo:  cada vez que lançava o anzol recuperava uma nova pérola. 

  renata carneiro

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8.7.14


Chá para as borboletas 

Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

  Bárbara Lia

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4.7.14


quando a casa se cala 
de repente aprendo a ter medo 
e fui eu que pedi este silêncio 

 ainda tenho o sabor a quente das palavras 

 abro e fecho armários e gavetas 
queria um lugar fechado para guardar memórias 

 depois 

 fico ali sentada à espera que algo aconteça 

  maria sousa

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3.7.14


Bolinhos de manteiga de amendoim

Se tivessem se conhecido no passado, se tivessem sido adultos na década de 40, talvez pudessem ter sido uma família como as das ilustrações de Norman Rockwell. Haveria um pequeno cão preto, um filho mais velho, uma filha do meio e um bebé bochechudo sentado nos joelhos do avô. Festejariam o aniversário do filho, a avó trazia para a mesa uma tarte de morango, o cão corria excitadamente ao encontro dela, seriam todos rechonchudos e corados. Uma toalha de mesa branca a roçar o chão, um presente por abrir, uma terrina de legumes sobre a mesa. Bolinhos de manteiga de amendoim. 

  Ann Beattie
(trad. Maria Sousa) 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.7.14


Chamada geral 

avisam-se todas as polícias
fugiu um homem

atenção
supõe-se que é perigoso

sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços

uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência

todo cuidado é pouco

  Mário Henrique Leiria

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30.6.14


Embeiçados

Ela tem boca torta
Nariz grande
Cabelo mal cortado
Rói as unhas
Usa cunhas
Mas eu estou apaixonado

Ele tem as suas sardas
Pontos negros
Uma boca exagerada
Desafina e desatina
Mas eu estou apaixonada

Ela é ciumenta, rabugenta
Embirrenta e tagarela
intriguista e moralista
Mas eu estou louco por ela

Ele faz cenas gagas, altas fitas
Não tem confiança em mim
faz-se caro, faz-me trombas
Mas eu gosto dele assim

Diz-se que o amor é cego
Deforma tudo a seu jeito
Mas eu acho que o amor descobre
O lado melhor do que parece defeito

Porque eu gosto, gosto dele
E ela gosta, gosta de gostar de mim

  Clã

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.6.14


aquela mulher

sempre invejou as mulheres de atenas. sentia pena, muita pena, das amélias. nunca se mirou naquelas [helenas], que "não têm gosto, só têm vontades; nem defeito, nem qualidade", cozinham, bordam, geram, [des]esperam... ademais, não lhe eram espelho. nem exemplo. não eram deusas do olimpo. não eram nada que qualquer outra mortal também não fosse, exercendo seu papel de fêmea. soube que morreu por elas [estátuas gregas] de pura inveja: moravam com iolanda, carolina, terezinha e tantas delas na canção de chico. apenas isso. 

  valéria tarelho

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27.6.14


Rapariga andando a cavalo num campo de girassóis

Postura perfeitamente direita,
satisfeita e pensativa,
ela prende numa mão,
não segura, as rédeas do Verão:

o verde das árvores e dos arbustos;
o azul da água do lago;
o vermelho da jaqueta
e do colarinho aberto; o castanho
do seu cabelo, preso ao alto,
e do cavalo, bem no meio
do amarelo dos girassóis.

Quando ela pára para descansar,
o Verão descansa.
Quando ela decide partir,
assim se vai o Verão
para além do horizonte.

 David Allan Evans

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26.6.14


Divagações 

 Florence reparara numa ou outra excentricidade nela mesma ultimamente, que podiam muito bem ser o resultado de trabalho árduo, ou da idade, ou de viver sozinha. Quando a correspondência chegava, por exemplo, dava muitas vezes por ela a perder tempo a olhar para os carimbos dos correios e a interrogar-se de quem poderiam ser, ao invés de as abrir, o mais sensato, e descobri-lo de imediato. 

  Penelope Fitzgerald 
(trad. Maria Sousa) 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.6.14


Helena

A lua azul roubou a cena daquele céu negro e frio
 Ela trouxe o sonho e uma verdade serena 
A lua azul trouxe Helena 
- cantilena triste de uma vida inteira. 

  Paulo Francisco

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