"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Chá para as borboletas
Janela - espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.
Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.
Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.
Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto
onde eu servia chá às borboletas.
Bárbara Lia
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quando a casa se cala
de repente aprendo a ter medo
e fui eu que pedi este silêncio
ainda tenho o sabor a quente das palavras
abro e fecho armários e gavetas
queria um lugar fechado para guardar memórias
depois
fico ali sentada à espera que algo aconteça
maria sousa
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Bolinhos de manteiga de amendoim
Se tivessem se conhecido no passado, se tivessem sido adultos na década de 40, talvez pudessem ter sido uma família como as das ilustrações de Norman Rockwell. Haveria um pequeno cão preto, um filho mais velho, uma filha do meio e um bebé bochechudo sentado nos joelhos do avô. Festejariam o aniversário do filho, a avó trazia para a mesa uma tarte de morango, o cão corria excitadamente ao encontro dela, seriam todos rechonchudos e corados. Uma toalha de mesa branca a roçar o chão, um presente por abrir, uma terrina de legumes sobre a mesa. Bolinhos de manteiga de amendoim.
Ann Beattie
(trad. Maria Sousa)
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Chamada geral
avisam-se todas as polícias
fugiu um homem
atenção
supõe-se que é perigoso
sinais particulares:
baixa-se com frequência
para fazer festas a um gato
apanha folhas caídas
antes que o varredor as leve
gosta de tremoços
uma informação
da máxima importância
relatórios afirmam
que frequentemente
sorri com extrema virulência
todo cuidado é pouco
Mário Henrique Leiria
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Embeiçados
Ela tem boca torta
Nariz grande
Cabelo mal cortado
Rói as unhas
Usa cunhas
Mas eu estou apaixonado
Ele tem as suas sardas
Pontos negros
Uma boca exagerada
Desafina e desatina
Mas eu estou apaixonada
Ela é ciumenta, rabugenta
Embirrenta e tagarela
intriguista e moralista
Mas eu estou louco por ela
Ele faz cenas gagas, altas fitas
Não tem confiança em mim
faz-se caro, faz-me trombas
Mas eu gosto dele assim
Diz-se que o amor é cego
Deforma tudo a seu jeito
Mas eu acho que o amor descobre
O lado melhor do que parece defeito
Porque eu gosto, gosto dele
E ela gosta, gosta de gostar de mim
Clã
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aquela mulher
sempre invejou as mulheres de atenas. sentia pena, muita pena, das amélias.
nunca se mirou naquelas [helenas], que "não têm gosto, só têm vontades; nem defeito, nem qualidade", cozinham, bordam, geram, [des]esperam...
ademais, não lhe eram espelho. nem exemplo. não eram deusas do olimpo. não eram nada que qualquer outra mortal também não fosse, exercendo seu papel de fêmea.
soube que morreu por elas [estátuas gregas] de pura inveja: moravam com iolanda, carolina, terezinha e tantas delas na canção de chico.
apenas isso.
valéria tarelho
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Rapariga andando a cavalo num campo de girassóis
Postura perfeitamente direita,
satisfeita e pensativa,
ela prende numa mão,
não segura, as rédeas do Verão:
o verde das árvores e dos arbustos;
o azul da água do lago;
o vermelho da jaqueta
e do colarinho aberto; o castanho
do seu cabelo, preso ao alto,
e do cavalo, bem no meio
do amarelo dos girassóis.
Quando ela pára para descansar,
o Verão descansa.
Quando ela decide partir,
assim se vai o Verão
para além do horizonte.
David Allan Evans
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Divagações
Florence reparara numa ou outra excentricidade nela mesma ultimamente, que podiam muito bem ser o resultado de trabalho árduo, ou da idade, ou de viver sozinha. Quando a correspondência chegava, por exemplo, dava muitas vezes por ela a perder tempo a olhar para os carimbos dos correios e a interrogar-se de quem poderiam ser, ao invés de as abrir, o mais sensato, e descobri-lo de imediato.
Penelope Fitzgerald
(trad. Maria Sousa)
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Helena
A lua azul roubou a cena daquele céu negro e frio
Ela trouxe o sonho e uma verdade serena
A lua azul trouxe Helena
- cantilena triste de uma vida inteira.
Paulo Francisco
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Meu refúgio
em teu ombro
eu repouso
meu cansaço
e em ti
das dores
me refaço
meu descanso
meu remanso
de ternura
de brandura
em teu amor
me encontro
ritual de passagem.
Ianê Mello
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há
na esquina da rua
um piano que toca
notas esparsas
em lá menor
nunca vi
o rosto de quem
se esconde por trás
de acordes sustenidos
e que desfila dedos no teclado
com a leveza de quem
sustenta passarinhos
no ar.
Alice Sant'Anna
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Você prometeu que estaria no outro trapézio quando eu soltasse o meu, não prometeu? Por isso eu balançava de olhos fechados. Sem medo. Por isso eu ficava de cabeça pra baixo nesse pedaço de madeira suspenso por duas cordas. Você garantiu que me seguraria pelos dois punhos e me levaria para o outro lado. Que haveria alguém no fim do meu salto. Você juntou os pés e jurou que não me deixaria cair nesse número sem rede. Com a cara no picadeiro. Foi por acreditar em você que gasto mais uma das minhas vidas. Morro mais uma vez pela sua ausência.
Eduardo Baszczyn
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Sobre as rosas
Não sou mulher de rosas. Já disse de saída, no primeiro encontro, nem recordo a razão (...) Eu não queria ser mais uma na sua cama, por isso disse não gostar de rosas, tampouco das vermelhas, pra me afastar da obviedade do amor. Não sabia como, mas queria que você me notasse diferente de todas as outras.
Gabito Nunes
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Pernas para o ar
Que ela venha de manhã
se aconchegue perto de mim
encoste caso quiser
me abrace se assim desejar
Que venha à tarde
e deixe que pingue a chuva que não cai
que os vizinhos escutem o que quiserem
que minha alma saia de mim
e sua boca entre em mim.
Que fique à noite
a dois
emparedados
emolados
abobalhados
afônicos
em total descontrole,
e com pernas para o ar.
Lúcio Alves de Barros
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Não leio palavras nos teus olhos
mas vejo com a sua luz
um tempo de céu
um paraíso
um mar que me seduz
Não leio palavras nos teus olhos
leio a prata dos silêncios
e o barulho dos sentidos
Edgardo Xavier
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Já me vesti de preto e dancei um tango atrevido
e até já valsei vestida de branco e rosa
mas esta noite em que o meu corpo
estava de azul vestido
fui uma Duncan provocadora e livre
rodopiando á tua volta
Maria Teresa
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Estudo sobre a solidão
Casa velha, morada antiga essa minha, esse corpo meu.
Já não me lembro quantos aqui passaram, as vezes que aqui invadiram e tiraram o sono, a paz.
Quantas e quantas vezes bagunçaram o quarto, mudaram os móveis de lugar, trocaram o gosto da pasta de dentes. Já não me lembro quantas vezes abri as portas e janelas e os vi partir.
Hoje, com o encanamento ressecado, cansado e escorrendo passado por todos os cômodos, respiro fundo e permito que aquele apertando a campainha, entre.
Abro as portas e janelas, eu permito.
Sempre penso: Pode ser o encanador!
Larissa Minghin
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