"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Se...
Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.
Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.
Luísa Dacosta
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Reticências...
Adoro reticências… Aqueles três pontos intermitentes que insistem em dizer que nada está fechado, que nada acabou, que algo está por vir! A vida se faz assim! Nada pronto, nada definido. Tudo sempre em construção. Tudo ainda por se dizer… Nascendo… Brotando… Sublimando… Vivo assim… Numa eterna reticência… Para que colocar ponto final? O que seria de nós sem a expectativa de continuação?
Nilson Furtado
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Azul
Estranho como os dias estão se tornando azuis.
Procuro pelo cheiro de chuva na brisa que passa e morro de rir deste meu coração viciado, procurando por nuvens escuras na leve claridade de que é tecida a minha alma.
Nada na vida mudou. A realidade é impiedosamente a mesma, mas a música que me corre nas veias cria irrealidades que me sustentam. Vivo diariamente em muitos países, em planetas diversos, experimento amores distantes e impossíveis. Vivencio a mim em todos os tons e nuances. Tudo o que era em meu redor ainda é. Tudo o que eu sou em mim, retornou. Mas o que vejo agora está em meu olhar. O que sinto é meu. O que temo, o que sonho, o que amo. Nada mais de mim, em ombros alheios
Ainda passam por aqui as tristezas, as dores, a escuridão de sempre. Passam e se vão.
Enquanto os dias vão se tornando estranhamente azuis.
Claudia Regina Barros
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Um minuto
- Alô, Mãe?
- Oi, Lia. Como você tá, minha filha?
- Tô indo.
- Indo? Indo pro trabalho?
- Não, Mãe. Não tô. Na verdade... ah, vou contar logo antes que a coragem evapore. Eu pedi demissão. Pedi, pedi mesmo. E antes mandei aquela Lúcia, do meu departamento, mandei ela tomar lá onde é mão única. Mentira. Eu sei Mãe, eu sei que você disse pra eu ter paciência. Juro que tentei. Até tomei uns remédios tarja preta pra conseguir dormir, me acalmar, mas não funcionou. Aí Mãe, ai, me desculpa, mas eu fumei maconha mesmo. Mas eu não comprei não. Plantei, viu? Mais ecológico, menos arriscado. O Arnaldo, sabe? O namorado que você adorava tanto, ele meio que tinha uns contatos, que tinham uma estufa e, ah, deixa pra lá. Eu terminei com ele mesmo. Quer dizer, ele me pegou com o Júlio, pronto falei, Mãe. Pegou a gente lá, fazendo um movimento. O pior é que minha menstruação não veio. Enfim, Mãe, é isso aí. Não sou virgem, não sou santa, posso estar grávida do Arnaldo, ou do Júlio, gosto de maconha e tô desempregada.
- Alô? Alô?
- Mãe?
- Oi, Lia. A ligação sumiu. Você disse alguma coisa?
- ... disse que tá tudo ótimo e que fim de semana que vem vou visitar você, tá?
- Ótimo. Traz o Arnaldo, viu? Um beijo. Juízo.
Elisa Quadros e Valeria Semeraro
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Solidão
Se me afasto dois dias
os pombos que bicam
na minha sacada
começam a se agitar
seguindo as instruções corporativas.
Ao meu regresso a ordem se refaz
com suplemento de migalhas
e para desapontamento do melro que faz a naveta
entre o respeitado vizinho de frente e eu.
A tão pouco se reduziu minha família.
E há quem tenha uma ou duas,
que esbanjamento meu Deus!
Eugenio Montale
(trad. Geraldo Holanda Cavalcanti)
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Em cada cem pessoas:
sabendo de tudo mais do que os outros:
- cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
- quase todas as outras,
prontas a ajudar
desde que isso não lhes tome muito tempo:
- quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:
- quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
- dezoito,
induzidas em erro
por uma juventude afinal tão efémera:
- mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
- quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas
em relação a alguém ou a qualquer coisa
- setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
- no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas
mas selvagens quando em multidão:
- isso, o melhor é não tentar saber nem mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
- não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
- trinta, mas preferia estar enganada,
encurvadas, sofridas,
sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas
- mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas
- pelo menos trinta e cinco, o que já não é nada mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender
- três,
dignas de compaixão:
- noventa e nove,
mortais:
- cem por cento,
número que, de momento, não é possível alterar.
Wislawa Szymborska
(trad. Maria Sousa)
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Havia uma senhora simples
que fazia limpeza
nas escadas do meu prédio
um dia descobri que lia poemas
e em vez de pegadas
comecei a deixar-lhe letras
nos degraus.
sophiarui
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Previsão do tempo
Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
meteorológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
profundamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.
Ricardo Marques
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Estou aprendendo a conviver comigo mesma, sem querer agradar ninguém. Faço só o que o meu coração mandar, não tenho pressa de chegar, nem medo de ficar. O presente e o futuro eu vivo agora. A minha luz sou eu, no meu caminho só a minha sombra.
Vera Queiroz
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Pontuação subjetiva
Não me defino
pois quando
não estou entre parênteses
estou entre aspas
exclamação perene
interrogação absoluta
atolada em reticências...
adjetivada entre vírgulas
levito nas entrelinhas
até me reduzir ao ponto final
ou não...
Úrsula Avner
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Meninas
As meninas são todas como eu:
a guardar astros que serão bordados,
a recolher os olhos deslumbrados
depois de uma viagem pelo Céu.
E vestem blusas para esperar a tarde
que há-de surgir ao fundo da vereda
e crispam dedos de sonhar a seda
que a tarde trouxe e na cantiga arde.
Fincam braços no chão do parapeito
e debruçam o corpo para a lua
e temem vultos negros para a rua
e sentem fogo a iluminar-lhe o peito.
E deitam-se nas camas encantadas
e olham luar correndo nas campinas
e são felizes porque são meninas
e porque a vida as vai fazer mudadas.
Natércia Freire
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
exercícios para endurecimento de lágrimas
chegas de novo a casa
e guardas do tempo a fuga
marcas outra vez os dias
para abrir feridas
como se viesse dos pássaros a acusação
de não saberes medir esquecimentos
respiras até à dor para não sentires mais nada
maria sousa
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Criança desconhecida
Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar à minha porta.
Alberto Caieiro
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Respiração
às vezes
conhecemos alguém
que nos deixa sem respiração
e
temos medo
de voltar a respirar
sabendo
que ao fazê-lo
tudo pode mudar
e
queremos ficar presos
para sempre
a esse momento
em que tudo
parece tão perfeito
e certo
mas
não temos alternativa
a não ser
respirar de novo
e fazê-lo outra vez
até
que chegue o dia em que
já não o conseguimos fazer
e
podemos ter a esperança de que
entre esses momentos
a pessoa
que em tempos nos roubou a respiração
volte a fazê-lo
uma e outra vez
prometendo
sempre devolver-no-la
embora
planeando sempre
roubá-la
mais uma vez.
Thomas Brown
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Cada vez vejo mais gente
Cada vez mais, vejo gente
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.
Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda
voltaram a colocar correctamente.
Antonio Orihuela
(trad. Manuel A. Domingos)
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Lá está. Viu? Atrás daquele monte de compromissos, ao lado das caixas de expectativas não atendidas, bem ali! Em frente à prateleira das desculpas, perto do armário dos medos e suas gavetas de culpas, isso, achou! Bem ali, bem ali tem uma mulher sorrindo.
Repara como ela sorri bonito. Lindo, né? É uma moça que escreve, também. Sim, ela escreve. Como? Escreve o quê? Ah, claro. Escreve cartas. Para quem? Para ela mesma, para os outros, para ninguém. Porque tudo o que a gente escreve na vida são cartas, né? Certo é que elas ganham outros nomes por aí, no meio do caminho. Mensagens, recados, missivas, canções, literatura, peças de teatro, receitas médicas. Mas são sempre cartas. E essa mulher que sorri também escreve cartas para o mundo. Nem sempre chegam a seus destinatários, nem sempre têm quem as receba. Mas a moça que sorri a beleza nunca deixa de escrevê-las.(...)
Bem ali, entre um problema e outro, intocada e verdadeira, tem uma mulher sorrindo. Repara. Repara como ela sorri bonito.
André J. Gomes
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Manhã
Abriu as venezianas. Pendurou os lençóis no peitoril.
Mirou o dia.
Um pássaro fixou-a nos olhos. Estou só, murmurou.
Estou viva. Entrou no quarto. O espelho é também uma janela.
Se saltar dele, cairei nos meus próprios braços.
Yannis Ritsos
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨