"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

22.4.14


Sem impressão, sem marca 

Habita-me a dor da tua ausência, nada mais.

E as manchas escuras que buscas em meus olhos
acusam a vigília das horas sem te ver,
a ausência da tua chama,
os séculos que passam sem nada saber de ti.
Sem marca, sem impressão, sem nada corpóreo
a que agarrar-me,
que falta que me fazes até à angústia.

Uma carícia bastava
e o sol de Abril já teria sentido.

Paco Moral 
(trad. Albino M.)

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21.4.14


A última flor do outono 

Sou a última flor do outono.
Embalaram-me no berço do verão,
puseram-me de sentinela ao vento do norte,
chamas vermelhas floresceram
na minha face branca.
Sou a última flor do outono.
Sou a mais jovem semente da primavera morta,
é tão fácil ser a última a morrer:
vi o mar tão fabuloso e azul,
ouvi palpitar o coração do verão morto,
o meu cálice contém apenas a semente da morte.
Sou a última flor do outono.
Vi as profundas galáxias do outono,
contemplei a luz de cálidas casas longínquas,
é tão fácil percorrer o mesmo caminho,
vou fechar as portas da morte.
Sou a última flor do outono.

  Edith Södergran
(trad. Amadeu Baptista) 

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20.4.14



Vontade de voltar, 
de ir, 
de não ficar aqui 
e talvez nem lá. 
Vontade de sair 
desse mesmo lugar, 
custe 
que 
custar. 
Desejo incontrolável 
de seguir 
sem saber a direção, 
a localização 
ou o idioma que se fala 
onde eu, 
enfim, 
parar. 
Quero andar até cansar, 
depois correr 
até  (me) perder 
as forças, 
a memória. 
Quero chegar no desconhecido, 
um lugar 
que nem sei onde fica 
e que 
talvez 
seja aqui dentro mesmo. 
Eu só preciso 
ter coragem de 
p a r t i r...
 
Sabrina Davanzo

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19.4.14


Secreto 

Antes eu não sabia
porque é que se deve
- dia após dia –

andar sempre em frente
até como se diz
o corpo aguentar.

Agora sei.
Se vieres comigo
digo-te.

José Agustin Goytisolo

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18.4.14


Caleidoscópio 

As vezes é preciso
olhar bem
de perto
para ver o que há
dentro
porque há em mim muitas vozes com
rostos inumeráveis.

 Alexandre Magno 

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17.4.14


Poema das três cores 

Quando os meus olhos ávidos de Luz
Forem luzes azuis e verdes,
 
Quando os meus olhos ávidos de Céu
Forem céus azuis e verdes,
 
Quando os meus olhos ávidos de Mar
Forem mares azuis e verdes,
 
Quando os meus olhos ávidos de Vida
Forem vidas azuis e verdes,
 
Quando os meus olhos ávidos de Tudo
Forem todos azuis e verdes,
 
...  Então que venha o Sonho cor de rosa!

  Carlos Macedo 

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16.4.14


Decepção à regra

Sentar-me e ver os outros passar é o 
meu exercício favorito. Entretém. 
Não  esgota. 
É gratuito. Neste meu jogo-do-não 
são os outros que passam
 (é aos outros que reservo a tarefa 
de passar).  Lavo daí os pés. 
Escrevo de dentro da vida. 
Pode até parecer que assim não
 chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
 ao sítio dos outros? 

  João Luís Barreto Guimarães

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15.4.14


Para os anos dele 
  
Sei qual é cor em que prefere calçar-se.
Sei qual é a cor em que prefere vestir-se.

Porém, caminhar não é o mesmo que dormir
e usar não é o mesmo que acordar.

Portanto perguntei-lhe: qual é a tua cor preferida para dormir, qual é a tua cor preferida para acordar?

A cor dos teus olhos, respondeu-me. A cor da tua pele.
Não fui à procura. Não necessito de andar à procura para saber que

não existe nenhuma loja que venda edredons nessas cores. Não há outra solução a não ser dormir

com ele para sempre.

  Tjiske Jansen 
(trad. Maria Leonor Raven-Gomes) 

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14.4.14


Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo. 

  Fabrício Carpinejar

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13.4.14


Se fosses vivo hoje seria o teu aniversário - e todas as árvores chamariam o teu nome neste dia de abril em que os pássaros não voltam - talvez por teres morrido já nem abril é o mesmo. já não há sol e as nuvens aquecem os olhos - faz anos que não te abraço. nem me dizes baixinho ao ouvido que tudo vai ficar bem. como pode ficar tudo bem sem a tua pele tão velha a ensinar à minha como construir vida - já o mês acabou e até o dia mas a tua memória permanece a bater-me no coração.

Margarete Silva 

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12.4.14


Inventei a dança para me disfarçar. 
Ébria de solidão eu quis viver. 
E cobri de gestos a nudez da minha alma 
Porque eu era semelhante às paisagens esperando 
E ninguém me podia entender. 

  Sophia de Mello Breyner Andresen

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9.4.14


paix... 

 tem certos momentos na vida da gente em que a única coisa que nos apetece é um pouquinho mais de paz pousando suavemente em nossos ombros... 

  flávia vida

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8.4.14


A Adiada Enchente 

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

  Mia Couto

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7.4.14


Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o texto bíblico, e  o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar, ou cálice, ou manhã, não o questionaria. 

  Filipa Leal 

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6.4.14


Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a história, a verdade. 

  Afonso Cruz

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5.4.14


Insisto num rosto efémero 

Do outro lado do disfarce,
insisto num rosto efémero.
A que punhal ou perigo me insinuo?
Sou o encontro adiado,
neste prenúncio de muros
ou de mãos indomáveis.
Quero, no reverso da névoa,
onde não dancei os sonhos,
um teatro de papel.
Diante da muralha da noite
ensaio as sombras sob as pálpebras
e altero o nome das cantigas
que me circulam no sangue, em sobressalto.

  Graça Pires

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4.4.14


Então um dia você acorda decidida. Levanta, troca os lençóis, toma um bom banho, corta e pinta o cabelo, faz as unhas, lava as roupas e pratos acumulados, arruma a casa, coloca tudo em seu devido lugar. Faz uma arrumação no armário, doa boa parte das roupas, customiza outras tantas, muda de estilo, se arruma e sai de casa. Vai à praça que gosta, deita na grama, olha o tempo passar, respira o cheiro da natureza e observa com alegria a chuva anunciada. Chega em casa ensopada, toma banho, coloca o pijama favorito, deita, dorme e no dia seguinte continua deitada... E no outro... E no outro... E no outro... 

  Malka Lima 

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