"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Secreto
Antes eu não sabia
porque é que se deve
- dia após dia –
andar sempre em frente
até como se diz
o corpo aguentar.
Agora sei.
Se vieres comigo
digo-te.
José Agustin Goytisolo
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Caleidoscópio
As vezes é preciso
olhar bem
de perto
para ver o que há
dentro
porque há em mim muitas vozes com
rostos inumeráveis.
Alexandre Magno
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Poema das três cores
Quando os meus olhos ávidos de Luz
Forem luzes azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Céu
Forem céus azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Mar
Forem mares azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Vida
Forem vidas azuis e verdes,
Quando os meus olhos ávidos de Tudo
Forem todos azuis e verdes,
... Então que venha o Sonho cor de rosa!
Carlos Macedo
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Decepção à regra
Sentar-me e ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?
João Luís Barreto Guimarães
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Para os anos dele
Sei qual é cor em que prefere calçar-se.
Sei qual é a cor em que prefere vestir-se.
Porém, caminhar não é o mesmo que dormir
e usar não é o mesmo que acordar.
Portanto perguntei-lhe: qual é a tua cor preferida para dormir, qual é a tua cor preferida para acordar?
A cor dos teus olhos, respondeu-me. A cor da tua pele.
Não fui à procura. Não necessito de andar à procura para saber que
não existe nenhuma loja que venda edredons nessas cores. Não há outra solução a não ser dormir
com ele para sempre.
Tjiske Jansen
(trad. Maria Leonor Raven-Gomes)
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Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo.
Fabrício Carpinejar
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Se fosses vivo hoje seria o teu aniversário - e todas as árvores chamariam o teu nome neste dia de abril em que os pássaros não voltam - talvez por teres morrido já nem abril é o mesmo. já não há sol e as nuvens aquecem os olhos - faz anos que não te abraço. nem me dizes baixinho ao ouvido que tudo vai ficar bem. como pode ficar tudo bem sem a tua pele tão velha a ensinar à minha como construir vida - já o mês acabou e até o dia mas a tua memória permanece a bater-me no coração.
Margarete Silva
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Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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paix...
tem certos momentos na vida da gente em que a única coisa que nos apetece é um pouquinho mais de paz pousando suavemente em nossos ombros...
flávia vida
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A Adiada Enchente
Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.
Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.
Mia Couto
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Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque
haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o
texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,
ou cálice, ou manhã, não o questionaria.
Filipa Leal
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Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a história, a verdade.
Afonso Cruz
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Insisto num rosto efémero
Do outro lado do disfarce,
insisto num rosto efémero.
A que punhal ou perigo me insinuo?
Sou o encontro adiado,
neste prenúncio de muros
ou de mãos indomáveis.
Quero, no reverso da névoa,
onde não dancei os sonhos,
um teatro de papel.
Diante da muralha da noite
ensaio as sombras sob as pálpebras
e altero o nome das cantigas
que me circulam no sangue, em sobressalto.
Graça Pires
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Então um dia você acorda decidida. Levanta, troca os lençóis, toma um bom banho, corta e pinta o cabelo, faz as unhas, lava as roupas e pratos acumulados, arruma a casa, coloca tudo em seu devido lugar. Faz uma arrumação no armário, doa boa parte das roupas, customiza outras tantas, muda de estilo, se arruma e sai de casa. Vai à praça que gosta, deita na grama, olha o tempo passar, respira o cheiro da natureza e observa com alegria a chuva anunciada. Chega em casa ensopada, toma banho, coloca o pijama favorito, deita, dorme e no dia seguinte continua deitada... E no outro... E no outro... E no outro...
Malka Lima
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Algodão doce
Todas as noites, antes de me deitar, eu fico nua e passo uma folha de alfazema pelo corpo. Separo o dedal, as agulhas, os fios e o cetim e começo a remendar os vestidos que vou usar para você. É vestimenta antiga, vem de lá longe, meu tempo de mocinha. Em alguns eu já trabalhei tanto que eles até parecem novos. Tudo pra te fazer feliz. Todas as noites, depois do perfume, eu abro a porta do quarto. Você entra de mansinho, aponta para um daqueles vestidos, eu fico bem bonita, nós saímos de mãos dadas e vamos comer algodão doce na frente da igreja do Bom Jesus. Todas as noites eu faço de conta que você não me deixou. Então pára tudo, pára o relógio, a respiração, o coração. Até o tempo pára, meu amor, esperando que, se um dia voltar, você não note que essas roupas escondem tantos buracos dentro e fora de mim.
Almir Feijó
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Preparativos de viagem
Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus.
Nuno Júdice
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Beija-me
Beija-me
Sobre a areia fria, húmida do mar,
No sal da espuma alada
Que afaga de onda em onda os nossos pés,
No cintilar das estrelas álgidas, solitárias na noite,
Sobre os ossos lisos de corpos esfacelados e sangrentos.
Ajuda-me a lutar,
Envolve-me em teus braços
E deixa-me chorar a minha solidão
E a tua.
Teresa Balté
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