"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

13.4.14


Se fosses vivo hoje seria o teu aniversário - e todas as árvores chamariam o teu nome neste dia de abril em que os pássaros não voltam - talvez por teres morrido já nem abril é o mesmo. já não há sol e as nuvens aquecem os olhos - faz anos que não te abraço. nem me dizes baixinho ao ouvido que tudo vai ficar bem. como pode ficar tudo bem sem a tua pele tão velha a ensinar à minha como construir vida - já o mês acabou e até o dia mas a tua memória permanece a bater-me no coração.

Margarete Silva 

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12.4.14


Inventei a dança para me disfarçar. 
Ébria de solidão eu quis viver. 
E cobri de gestos a nudez da minha alma 
Porque eu era semelhante às paisagens esperando 
E ninguém me podia entender. 

  Sophia de Mello Breyner Andresen

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9.4.14


paix... 

 tem certos momentos na vida da gente em que a única coisa que nos apetece é um pouquinho mais de paz pousando suavemente em nossos ombros... 

  flávia vida

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8.4.14


A Adiada Enchente 

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

  Mia Couto

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7.4.14


Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o texto bíblico, e  o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar, ou cálice, ou manhã, não o questionaria. 

  Filipa Leal 

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6.4.14


Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele. Não era um futuro, que é uma coisa incerta, mas um passado, que é isso que têm dois velhos depois de passarem uma vida juntos. Quando disse que queria ter um passado com alguém, queria dizer tudo. Não desejava uma incerteza, mas a história, a verdade. 

  Afonso Cruz

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5.4.14


Insisto num rosto efémero 

Do outro lado do disfarce,
insisto num rosto efémero.
A que punhal ou perigo me insinuo?
Sou o encontro adiado,
neste prenúncio de muros
ou de mãos indomáveis.
Quero, no reverso da névoa,
onde não dancei os sonhos,
um teatro de papel.
Diante da muralha da noite
ensaio as sombras sob as pálpebras
e altero o nome das cantigas
que me circulam no sangue, em sobressalto.

  Graça Pires

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4.4.14


Então um dia você acorda decidida. Levanta, troca os lençóis, toma um bom banho, corta e pinta o cabelo, faz as unhas, lava as roupas e pratos acumulados, arruma a casa, coloca tudo em seu devido lugar. Faz uma arrumação no armário, doa boa parte das roupas, customiza outras tantas, muda de estilo, se arruma e sai de casa. Vai à praça que gosta, deita na grama, olha o tempo passar, respira o cheiro da natureza e observa com alegria a chuva anunciada. Chega em casa ensopada, toma banho, coloca o pijama favorito, deita, dorme e no dia seguinte continua deitada... E no outro... E no outro... E no outro... 

  Malka Lima 

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3.4.14


Algodão doce 

 Todas as noites, antes de me deitar, eu fico nua e passo uma folha de alfazema pelo corpo. Separo o dedal, as agulhas, os fios e o cetim e começo a remendar os vestidos que vou usar para você. É vestimenta antiga, vem de lá longe, meu tempo de mocinha. Em alguns eu já trabalhei tanto que eles até parecem novos. Tudo pra te fazer feliz. Todas as noites, depois do perfume, eu abro a porta do quarto. Você entra de mansinho, aponta para um daqueles vestidos, eu fico bem bonita, nós saímos de mãos dadas e vamos comer algodão doce na frente da igreja do Bom Jesus. Todas as noites eu faço de conta que você não me deixou. Então pára tudo, pára o relógio, a respiração, o coração. Até o tempo pára, meu amor, esperando que, se um dia voltar, você não note que essas roupas escondem tantos buracos dentro e fora de mim. 

  Almir Feijó

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2.4.14


Preparativos de viagem 

 Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao dicionário e tiro as palavras que me servirão de passaporte: o equador, uma linha de horizonte, a altitude e a latitude, um lugar de passageiro insistente. Dizem-me que não preciso de mais nada; mas continuo a encher a mala. Um pôr-do-sol para que a noite não caia tão depressa, o toque dos teus cabelos para que a minha mão os não esqueça, e aquele pássaro num jardim que nasceu nas traseiras da casa, e canta sem saber porquê. E outras coisas que poderiam parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase indecisa a meio da noite, a constelação dos teus olhos quando os abres, e algumas folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência me vem ditar. E se me disserem que tenho excesso de peso, deixarei tudo isto em terra, e ficarei só com a tua imagem, a estrela de um sorriso triste, e o eco melancólico de um adeus. 

  Nuno Júdice

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1.4.14


Beija-me 

 Beija-me 
Sobre a areia fria, húmida do mar, 
No sal da espuma alada 
Que afaga de onda em onda os nossos pés, 
No cintilar das estrelas álgidas, solitárias na noite, 
Sobre os ossos lisos de corpos esfacelados e sangrentos. 
Ajuda-me a lutar, 
Envolve-me em teus braços 
E deixa-me chorar a minha solidão 
E a tua. 

  Teresa Balté

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31.3.14


A Última Fala do Palhaço 

Deixem-me ser eu
um instante, ao menos...!
Ainda vale a pena!
Deixem-me vir à cena
em primeiro lugar,
a rir ou a chorar
(a mesma coisa afinal...)

Deixem-me, antes que morra,
demolir a masmorra
que eu mesmo construí
com lágrimas e sangue
e, embora exangue,
ser só eu, tal e qual!

Saúl Dias

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30.3.14


O varal

Cheguei deixando todo o peso
toda a bagagem de anos
todo o cansaço diluindo-se
esvaziando-se
do meu corpo
tirei os sapatos
que martirizavam meus pés
lavei meu corpo
com sais, sálvia e camomilas
as crostas do tempo
foram se soltando
e eu ficando cada vez mais leve
não haveria mais de voltar
por esse caminho
outros ventos sopravam
recolhi meu corpo
e pendurei delicadamente
no varal para descansar

 Marisete Zanon

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29.3.14


 
Mais mentiras

Às vezes digo que me vou encontrar com a minha irmã no café - mesmo não tendo qualquer irmã - só porque é uma coisa linda de se dizer. Tenho pensado nisto desde que

li um romance no qual duas irmãs estavam sempre a encontrar-se em cafés. Hoje, por exemplo, caminhei sozinha pelo passeio, com as minhas botas para a chuva, esperando

que alguém me perguntasse para onde me dirigia. Comprei um bloco de notas e uma pilha para o relógio, as montras da loja estavam embaciadas. Chuva em Abril é uma espécie de promessa, e

gratuita. Levei um saco com livros para o café e pedi chá. Gosto de sítios iluminados por lâmpadas. Gosto de sítios onde se pode ouvir as pessoas a falarem de coisas sem importância,

como a diferença entre o azul-celeste e o azul-cerúleo, ou o preço das tulipas. Que está a descer. Reparei em alguém que podia ser minha irmã a entrar, e a sacudir a chuva

dos cabelos. Pensei, mesmo agora as floristas estão a encher as estantes frigoríficas com tulipas, a cinco dólares o molho. Por toda a cidade há irmãs. Qualquer uma delas poderia ser a minha.

  Karin Gottshall

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28.3.14


 O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.

Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.

 Mary Oliver

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27.3.14


Eu tive um cãozinho 
chamado Alegria, 
chorava de noite, 
ladrava de dia.  
  Eu tive um gatinho
 chamado Bonifrate, 
comia salgados 
e bebia chocolate.

  Eu tive um ratinho 
chamado Pimpolho, 
morria por queijo, 
marmelada e piolho.

  Eu tive um passarinho
 chamado Liberdade, 
faz tempo que morreu, 
ainda sinto saudade. 
 
João Manuel Ribeiro 

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26.3.14


Riem-se. Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso. 

  Mia Couto

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