"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Somos as pontas de uma mesma fita
e acordamos atados de manhã num
nó que ainda demora a desfazer. Ao
levantar-me, arrasto-te comigo, mas
no resto da vida é ao contrário - e eu
nem me importo que me leves atrás
se o laço for contigo, e apertado. Mas,
quando calha, é mais comprida a fita; e
eu - inquieta, sem saber onde estás - fico
a contar os metros, aflita, e a magicar em
franzido se embaraços. Eis se não quando
tu pareces amarrotado de cansaço e nos
meus braços logo te desfias. Vencido
o susto, passa-se a fita a ferro - para
se enredar de novo num nó cego que
de manhã vai ser um custo desatar.
Maria do Rosário Pedreira
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Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Dizem que me sinto sozinha.
Na verdade acho que as pessoas confundem, uma pessoa sentir-se sozinha é não estar bem consigo, é sentir a falta de alguma coisa que lhe preencha um qualquer vazio que sente.
Eu não me sinto sozinha, não sinto a necessidade de algo que não sei o que é, não estou mal estando só comigo. Não. O que eu sinto é a falta de uma pessoa, uma pessoa que sei quem é, que sei que não pertence a um qualquer vazio não identificado. Sinto falta dele. Se me sentisse apenas sozinha já podia ter arranjado companhia, para preencher aquilo a que poderiam chamar de vazio, para fazer uma serie de coisas que faço bem sozinha. Posso jantar sozinha, ver filmes sozinha, ir a festas e afins sozinha, não me faz confusão. Já arranjar uma companhia que é só outra versão mais numerosa da solidão, já faz.
O que eu penso é que poderia fazer todas essas coisas e mais, mas muito melhor, com alguém que me faz falta. Aquele alguém, não outro. Aquele cuja companhia traz sempre um sorriso mais rasgado em todos os momentos, um coração mais cheio e a sensação de que não falta nada. Não uma companhia, para em vez de um serem dois, é para ser um par com o meu par. Ou aquele que queria que fosse. É tão diferente, e não percebo como se confundem coisas tão, mas tão, diferentes.
Eva
(do blog Eva com a maçã)
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Analfabeto
Conheço um homem
que lê todas as inscrições em pedras antigas
e que sabe
as gramáticas de todas as línguas, mortas ou vivas,
mas que não consegue ler
os olhos de uma mulher
que ele pensa que ama
Shadab Vajdi
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Procuro...
Nas linhas de vento um sorriso rasgado
Uma alma branca que dance nas nuvens
Um olhar inquieto que desvele paixões
A nudez da sombra que ilumina o mistério
As palavras dum vento azul sonhado.
Cecília Vilas Boas
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Á você
Quando me ligou não pude atender. Estava no quintal jogando fora um pouco de mim. Se achar, passe ao largo. Não pretendo ser encontrada. Mas se insistir em me descobrir, devolva-me a terra. Quero eu mesma me desfazer. Atinar deve fazer parte de mim. Portanto. Novamente peço. Se passar por mim, não aporte.
Maria Odila
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Arinque
Carrego no peito um coração-âncora. Que escapa por entre minhas mãos. Afunda nas águas que me cercam. E, no fundo, repousa. Velho e pesado.
Carrego no peito esse coração-âncora. Que me ata sem amarra. Que me prende – com seu peso de ser – a um lugar onde não sei mais pertencer.
João Célio Caneschi
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Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.
José Gomes Ferreira
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Espero-te
Mas conto apenas até dois
Receio o depois
Dizer três
E não chegares
Perder-te de vez.
José Gabriel Duarte
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não há uma forma fácil de dizer isto, por isso vou dizê-lo sem rodeios: conheci uma pessoa. foi um acidente, não estava à procura disto. uma autêntica tempestade. ela disse qualquer coisa, eu respondi. depois lembro-me de querer passar o resto da minha vida dentro daquela conversa. talvez ela seja a mulher da minha vida. pelo menos é completamente louca e está sempre a fazer-me rir.(...) essa pessoa és tu.(...) não sei o que nos vai acontecer e não sei por que deves depositar alguma esperança em mim. mas... tu cheiras tão bem, como cheiram as casas, e fazes um café delicioso. isto tem de significar alguma coisa, certo?
in Californication
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A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
Miguel Sousa Tavares
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fragmentos de uma canção esquecida
os acordes da vida
acordaram-me...
tarde demais!
a orquestra
atrasou o ritmo
sem dó(r)
ré(abriu) a ferida
dentro de mi(m)
sem fá(ces)
sol(ta) meus medos
e lá(nça)-me
no si(nal) fechado
sinfonia partida
na partitura
sem con(c)(s)erto
ydeo oga
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comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos
Miriam Reyes
(trad. Maria Sousa)
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A quermesse
Foi numa tarde de quermesse
depois de rezar treis prece
pra que nóis dois se queresse
pra que nóis dois se gostasse
entonce eu disse préla:
Mariazinha, se eu te pedisse um beijo
tu me dasse?
Ela respondeu: Doce!
(adaptação de José de Araújo
do poema de Olegário Mariano)
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Varal
depois do amor
nossas intimidades
repousam
silenciosas no varal.
ah, se falassem...
Ricardo Mainieri
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Bordadeira
Passa horas
no quarto de costura
bulindo no cesto letras.
Em silêncio
alinhava sílabas
costura versos
borda palavras.
Valentina Diadory
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Céu cinzento
Hoje meu céu está cinzento
Haverá um amanhã de cores
Mas, hoje, eu vivo as cinzas
Leslie Holanda
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