"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

6.7.13


Um lugar na minha alma 

Agora que não nos vemos
e as nossas vidas correm pelos dias
cada vez mais longínquas,
sinto, às vezes, uma vontade enorme
de te ver uma tarde, tomar café
contigo, saber como vais…

Agora que não nos vemos
e nos perdemos aos dois,
não penses que esqueci as tuas coisas.
Guardo boas lembranças, e poemas
que te escrevi (lembras-te?); guardo
cartas e fotografias…
E um lugar
na minha alma, onde, se quiseres,
sempre, sempre podes estar.

 Abel Feu
(trad. Joaquim Manuel Magalhães)

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4.7.13


As coisas caem dos meus bolsos e da minha memória: perco chaves, canetas, dinheiro, documentos, nomes, caras, palavras... Eu ando de perda em perda, perco o que encontro, não encontro o que busco, e sinto medo de que numa dessas distrações acabe deixando a vida cair. 

  Eduardo Galeano

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3.7.13


Até onde a vista alcança 

Não percam essa mulher de vista;
Traz tanta dor dentro de seus olhos
Que um dia certamente se abrirá em flor.

Não percam essa mulher de vista;
Traz tanta flor dentro de sua alma
Que um dia certamente se abrirá em dor.

Não percam essa mulher de vista;
Traz tanta flor e tanta dor dentro de si
Que um dia certamente me abrirá em amor.

 Oswaldo Antônio Begiato 

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2.7.13


Constatação 

 O problema não é a vida sem ti. Já tive uma vida assim e eram dias que faziam todo o sentido. Difícil é uma vida depois de ti. O depois não acaba nunca.

  Sofia

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30.6.13


O Silêncio do Piano 

Na espera do encontro
no eco da distância
na mudez do filme
no salto da personagem
na vedação do jardim
no banco da impaciência
na raiz dos sustenidos
no bolso das fisgas
na sombra dos bemóis
no dédalo das árvores
na brincadeira dos meninos
no favor das circunstâncias
na paixão dos cativos
no espelho das notas naturais

o piano do silêncio
o silêncio do piano

o piano

o silêncio

 Carlos Alberto Silva - Edison Woods

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29.6.13


Risos 

 A gaiola esteve fechada por tanto tempo
que um pássaro nasceu lá dentro.

o pássaro ficou imóvel por tanto tempo
que a gaiola
corroída pelo silêncio,
se abriu.

o silêncio durou tanto
que por trás das barras negras
risos e mais risos ecoaram.

 Tadeu Rozewicz

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28.6.13


Demissão

Hoje
pela primeira vez
envelheci.
Hoje
pela primeira vez senti
que já não era a primeira vez.
Hoje
pela primeira vez
a criança morreu-me nos braços
e a canção na garganta.
Hoje
pela primeira vez ambicionei
estabilidade e fixação de planta.
Hoje
pela primeira vez
criei laços com a minha estátua.

 Rita Olivais

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27.6.13


 Há dias em que escorrego
pra dentro de mim
lenta e densa
como leite condensado

E lá eu fico
enquanto dura o tempo
de minha tristeza

 Célia Maciel

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26.6.13


 Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Antonio Cicero 

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25.6.13


Confissão

Sim, 
visto que me encontro hoje em desalento
numa dor de não sei o quê,
num tom de impropriedades

São dias raros esses
Incomunicáveis

Não fosse o poema 
não saberia nem por onde começar.

Leila Andrade 

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24.6.13


Ausência 

Estive todo o dia
Onde o fogo consome o ar.
Esperei em vão,
Até ao limite do oxigénio,
Como peixe respirando
Sobre a pedra na ausência.
Feneci: com a ansiedade
De te ter tão perto,
Mas ao mesmo tempo tão distante.

Agora sou cinza, espalhada pelo grito
No sortilégio de me saber lume.

Joaquim Monteiro

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23.6.13


Saiba, pois, que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obedeçam; sou também um pouco altiva, às vezes caprichosa, e por cima de tudo isso tenho um coração exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto! 

  Machado de Assis

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22.6.13


 Desejei um dia que um poeta me amasse.

Agora doem-me os poemas no corpo,
algo de mim que nele se reconhece até
quebrar a imagem de tudo quanto fui.

Agora desejo que me amasse tanto que deixasse
de amar-me e suas palavras fossem neve
que o sol de Junho fundisse no meu peito,
ali onde o seu hálito teima em acalmar
esta tristeza antiga que sempre me acompanha.

 Chantal Maillard

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21.6.13


planisfério 

ao me olhar no espelho
plano
há uma imagem – minha –
que flutua
que não se pensa:
plana
leve como pluma
há uma dimensão – minha –
não refletida
que me absorve e me
adivinha
plena

Adrianna Coelho

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20.6.13


luto tenaz 

 é claro que penso em ti todos os dias. todos. penso com raiva, penso com uma revolta transtornada, e depois, depois penso com uma tristeza que me invade inteira, qualquer coisa que me derruba, que me mata, e que esquecendo-me te esquece. até ao dia seguinte, é claro. 

  Sarah Adamopoulos

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19.6.13


Reencontro 

Hoje revi livros
de páginas amareladas
amassadas pelo tempo
pelo uso e usufruto...
Reavivei conceitos que
ficaram nos caminhos...
Reabasteci-me com idéias
e sonhos que não realizei
e descobri mensagens
guardadas nas entrelinhas...
Desarrumei o pensamento
para reconstruí-lo
e encontrei mil formas
de pensar melhor...
O livro era velho,
guardado, esquecido
mas renovei-me nele,
nas letras (quase) perdidas...

Lucia Vieira 

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18.6.13


O sal das memórias

As suas mãos, pousando-se na harpa,
paravam-se no arco da memória.
Ausente de rugidos.
Os gemidos do tempo percorrendo
em sal outros gemidos.
É que a casa era branca e muito ampla,
de tectos recortados.
Só saber-lhe a presença
lhe bastava.
Que sim, ela assentira,
defronte a poliedros
de mil
lados.

Ana Luísa Amaral 

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