"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
O Silêncio do Piano
Na espera do encontro
no eco da distância
na mudez do filme
no salto da personagem
na vedação do jardim
no banco da impaciência
na raiz dos sustenidos
no bolso das fisgas
na sombra dos bemóis
no dédalo das árvores
na brincadeira dos meninos
no favor das circunstâncias
na paixão dos cativos
no espelho das notas naturais
o piano do silêncio
o silêncio do piano
o piano
o silêncio
Carlos Alberto Silva - Edison Woods
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Risos
A gaiola esteve fechada por tanto tempo
que um pássaro nasceu lá dentro.
o pássaro ficou imóvel por tanto tempo
que a gaiola
corroída pelo silêncio,
se abriu.
o silêncio durou tanto
que por trás das barras negras
risos e mais risos ecoaram.
Tadeu Rozewicz
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Demissão
Hoje
pela primeira vez
envelheci.
Hoje
pela primeira vez senti
que já não era a primeira vez.
Hoje
pela primeira vez
a criança morreu-me nos braços
e a canção na garganta.
Hoje
pela primeira vez ambicionei
estabilidade e fixação de planta.
Hoje
pela primeira vez
criei laços com a minha estátua.
Rita Olivais
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Há dias em que escorrego
pra dentro de mim
lenta e densa
como leite condensado
E lá eu fico
enquanto dura o tempo
de minha tristeza
Célia Maciel
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Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.
Antonio Cicero
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Confissão
Sim,
visto que me encontro hoje em desalento
numa dor de não sei o quê,
num tom de impropriedades
São dias raros esses
Incomunicáveis
Não fosse o poema
não saberia nem por onde começar.
Leila Andrade
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Ausência
Estive todo o dia
Onde o fogo consome o ar.
Esperei em vão,
Até ao limite do oxigénio,
Como peixe respirando
Sobre a pedra na ausência.
Feneci: com a ansiedade
De te ter tão perto,
Mas ao mesmo tempo tão distante.
Agora sou cinza, espalhada pelo grito
No sortilégio de me saber lume.
Joaquim Monteiro
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Saiba, pois, que sou muito senhora da minha vontade, mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obedeçam; sou também um pouco altiva, às vezes caprichosa, e por cima de tudo isso tenho um coração exigente. Veja se é possível encontrar tanto defeito junto!
Machado de Assis
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Desejei um dia que um poeta me amasse.
Agora doem-me os poemas no corpo,
algo de mim que nele se reconhece até
quebrar a imagem de tudo quanto fui.
Agora desejo que me amasse tanto que deixasse
de amar-me e suas palavras fossem neve
que o sol de Junho fundisse no meu peito,
ali onde o seu hálito teima em acalmar
esta tristeza antiga que sempre me acompanha.
Chantal Maillard
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planisfério
ao me olhar no espelho
plano
há uma imagem – minha –
que flutua
que não se pensa:
plana
leve como pluma
há uma dimensão – minha –
não refletida
que me absorve e me
adivinha
plena
Adrianna Coelho
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luto tenaz
é claro que penso em ti todos os dias. todos. penso com raiva, penso com uma revolta transtornada, e depois, depois penso com uma tristeza que me invade inteira, qualquer coisa que me derruba, que me mata, e que esquecendo-me te esquece. até ao dia seguinte, é claro.
Sarah Adamopoulos
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Reencontro
Hoje revi livros
de páginas amareladas
amassadas pelo tempo
pelo uso e usufruto...
Reavivei conceitos que
ficaram nos caminhos...
Reabasteci-me com idéias
e sonhos que não realizei
e descobri mensagens
guardadas nas entrelinhas...
Desarrumei o pensamento
para reconstruí-lo
e encontrei mil formas
de pensar melhor...
O livro era velho,
guardado, esquecido
mas renovei-me nele,
nas letras (quase) perdidas...
Lucia Vieira
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O sal das memórias
As suas mãos, pousando-se na harpa,
paravam-se no arco da memória.
Ausente de rugidos.
Os gemidos do tempo percorrendo
em sal outros gemidos.
É que a casa era branca e muito ampla,
de tectos recortados.
Só saber-lhe a presença
lhe bastava.
Que sim, ela assentira,
defronte a poliedros
de mil
lados.
Ana Luísa Amaral
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amanhã
serei a memória
de uma sombra atada
nos olhos ofuscados de um peregrino
e…
se as mãos abrem segredos
os dias escondem o caminho
(desconheço autoria)
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Lembrança alada
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
Em alguma ave fui vida.
Mia Couto
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Sou de barro
Não ache que você consegue me entender
com meia hora de prosa.
Sou tal qual moringa d’água.
Simples à primeira vista, como uma boa cerâmica,
mas quem me vê assim, só querendo matar a sede, só de
passagem, não faz ideia da trajetória do meu barro,
nem das tantas vezes que desejei mudar o meu destino.
Não ache que olhos que só têm sede vão me ganhar.
Sou de quem me decifra.
E não sou uma só.
Sou tantas....
Solange Maia
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A fonte
Secou... era uma fonte...
É uma fonte... mas não é mais uma fonte...
Já não tem água... secou!
Como ela...
Mulher... era uma mulher...
É uma mulher... mas não é mais uma mulher...
Já não tem amor... perdeu-se
Algures no tempo,
Nas desventuras,
No passado,
Na solidão,
No crer em vão!
BlueShell
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