"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

17.6.13


 amanhã
serei a memória
de uma sombra atada
nos olhos ofuscados de um peregrino
e…
se as mãos abrem segredos
os dias escondem o caminho

(desconheço autoria) 

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16.6.13


Lembrança alada 

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

 Mia Couto

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15.6.13


Sou de barro

Não ache que você consegue me entender 
com meia hora de prosa.
Sou tal qual moringa d’água. 
Simples à primeira vista, como uma boa cerâmica,
mas quem me vê assim, só querendo matar a sede, só de
passagem, não faz ideia da trajetória do meu barro, 
nem das tantas vezes que desejei mudar o meu destino.

Não ache que olhos que só têm sede vão me ganhar.
Sou de quem me decifra.
E não sou uma só.
Sou tantas....

Solange Maia 

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14.6.13


A fonte 

Secou... era uma fonte...
É uma fonte... mas não é mais uma fonte...
Já não tem água... secou!
Como ela...
Mulher... era uma mulher...
É uma mulher... mas não é mais uma mulher...
Já não tem amor... perdeu-se
Algures no tempo,
Nas desventuras,
No passado,
Na solidão,
No crer em vão!

BlueShell

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13.6.13


 vou à janela
a todas as horas
deste tempo
triste

sem ti
a vida naufraga
lentamente

e é uma casa
inundada

em silêncio

 Daniel Gonçalves

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12.6.13


Era um violoncelo pousado numa casa em ruínas, no meio de uma tarde que corria em contra-luz. Uma casa ressuscitada por um violoncelo e uma voz incontida ao primeiro acorde. E depois, o despertar dos gestos e o calor que se acendeu apesar do frio e da arca vazia. Provavelmente vazia e tão cheia de histórias. E na janela maior flores inesperadas e mansas como o rio que corria perto. Ontem foi dia de dias assim. 

  Marta Vaz

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11.6.13


Os dias cinzentos 

 Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque. 

  Aasne Linnesta

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10.6.13


  Clara suspeita de luz 

 Viver a tua ausência é o que me resta agora.
Viverei cada segundo em que não estás na minha vida,
em tua honra cada segundo será vivido por mim.
Porque afinal a tua partida não me privou de ti,

se reencontro a cada momento o teu ser em mim,
se ao ver-me no espelho eu vejo o teu reflexo:
o homem que desde o início claramente tu não eras,
esse «ele» que não foste e que passou a ser «eu»

Frederico Lourenço

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9.6.13


Um dia não muito longe daqui
hei-de ser feliz
hei-de abrir as asas e deixar de ter medo de voar.
hei-de aprender a viver.
hoje, do lado de cá de mais um aniversário,
não sei sequer que fazer deste corpo
que como morto
berra, grita, reclama, proclama,
um pouco mais de afeto.

  Margarete da Silva

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8.6.13


 Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço? Como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.

  Amália Bautista

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7.6.13


Fala-se de uma raça de cavalos nobres que, quando são terrivelmente perseguidos e encurralados, arrebatam eles mesmos, por instinto, uma veia para facilitar a respiração. 

 Sinto-me assim muitas vezes e gostaria de abrir uma veia que me desse a liberdade eterna… 

  J. W. Goethe

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6.6.13


 Sacudiu o pó
tratou cuidadosamente a ferida do joelho
reuniu os bocadinhos das suas asas
colou-as com paciência
e pendurou-as na parede da sala
como recordação.

  António Pedro Pita  

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5.6.13


A meia luz 

Viver assim, sem sonhos de angústia,
com desejos justos e contados,

sem pressa de chegar a lado nenhum,
sem de nada esperar demasiado...

talvez não seja viver. Mas é a minha vida
(ou, ao menos, o que dela vai ficando).

Javier Salvago
(trad. A.M.) 

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4.6.13


Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros. 

  Clarice Lispector 

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3.6.13


 Estou só, bem sei,
nos olhos revelo a cor da solidão.
E se alguém me perguntar por meu amor
eu digo:
fugiu.

Para onde o sol me gela
e a lua ferve,
na ilusão do eterno num dia breve.

 António Branco

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2.6.13


É preciso fechar todas as portas, as gavetas, as janelas, as torneiras, desligar o fogão, acertar a dobra do lençol, prender o cabelo, tapar todas as canetas, desmarcar todos os livros, lavar as mãos, torcer o papel de todos os rebuçados. Depois, voltar a verificar tudo. Algum tempo depois deixei de dormir para o fazer. É preciso evitar atormentar, sem razão, o coração.

  Margo Pinto

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1.6.13


 Eu não sou eu.
Sou este
Que vai a meu lado sem eu vê-lo;
que, por vezes, vou ver,
e que, às vezes, esqueço.
O que se cala, sereno, quando falo,
o que perdoa, doce, quando odeio,
o que passeia por onde estou ausente,
o que ficará de pé quando eu morrer.

 Juan Ramón Jimenez

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