"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

27.5.13


Queria que me acompanhasses 

queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

 Ana Paula Inácio 

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26.5.13


Amado meu

se as noites frias
apagarem nosso passado
saiba que ainda
há o que queimar

o fogo arde ainda
em meus olhos tardios
que anseiam os seus
tão vencidos

não desisto da falta de lirismo
na verdade a ausência
por vezes me inspira
aqui não perduram
declarações de amor

a insistência vive
apenas para buscar
o que encontramos
quando nos vestimos
de nós mesmos.

 Larissa Marques

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25.5.13


...apenas preciso de alguém que me sorria e reponha o mesmo disco sempre a tocar e escute comigo o vento nas janelas e sinta a tristeza que têm os gladíolos murchando em cima da mesa. 

  Al Berto

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24.5.13


Alma nova 

Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma altura nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!

 Irene Lisboa 

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23.5.13


Este choro que arranha e lava 

 Tirava os quadros da parede. Voltava a pendurá-los. Olhava. Mas quem lhe diz que visse. Repetia a mesma faixa do disco. Escutava. Mas quem lhe diz que ouvisse. Queria chegar a uma conclusão, isto podemos afirmar sem dúvida. Mas quem lhe diz que houvesse. E quem lhe diz que fizesse diferença haver ou não haver. E quem lhe diz que todo o caminho não fosse exatamente não chegar. Ninguém lhe diz. De fato, ninguém lhe diz. 

 Toda a vida tentara entender a vida, vivê-la como ideia que pudesse pensar. Só agora percebia que a vida era outra realidade. Uma brisa inesperada na face. Uma areia encravada sob a pálpebra. Nada que alguma vez tivesse pensado. Esta lágrima. Este choro que arranha e lava. 

  Jorge Roque 

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22.5.13


Canção

Se estou só, queres tu saber:
Pois bem, sim, estou só, 
como o avião que voa só e horizontal,
fixado no feixe de rádio, 
e atravessa as Montanhas Rochosas,
visando os corredores orlados de azul
de um qualquer aeroporto no oceano.

Se estou só, queres perguntar:
Bem, é claro, só
como uma mulher que atravessa de automóvel o país, 
dia após dia, deixando atrás de si,
milha após milha,
cidadezinhas onde podia ter parado
e vivido e morrido em solidão.

Se estou só,
deve ser a solidão
de ser a primeira a despertar, de respirar
o primeiro sopro frio da manhã sobre a cidade,
de ser a única acordada
numa casa envolta em sono.

Se estou só,
é com o barco a remos bloqueado na margem pelo gelo
na derradeira luz vermelha do ano,
e que sabe o que é, que sabe não ser
gelo, nem lama, nem luz de Inverno,
mas madeira, dotada para arder.

 Adrienne Rich

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21.5.13


Amanhã vou pintar o cabelo, decide. Porque no amanhã de certos dias pinta sempre o cabelo ou compra um batom diferente, mais claro, mais escuro, incolor, pinta os olhos ou ignora-os, usa ou não óculos escuros. Há ocasiões em que a encontram, hesitam, será ela?, devem pensar. “Meu Deus, estás diferente, que te aconteceu, mulher?” Apetece-lhe responder que morreu e ressuscitou, que estava na idade dos peixes e houve um cataclismo e se encontra agora na dos lagartos, mas ninguém iria compreender as suas palavras. Nem ela própria. Porque além da cor do cabelo, ou do lápis com que pintou os olhos, tudo está absolutamente igual. 

  Maria Judite de Carvalho

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20.5.13


Rubro 

na sagrada mesa a taça de rubro vinho
que sorverei num momento
o sabor em tormento teu
o fervor, lamento meu
na sagrada mesa
a taça que
sorverei
momento
teu.
o fervor,
lamento
meu.

 Mirze Souza 

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19.5.13


Assim passam os anos

Passam os anos,
e mesmo que a vida me acuse de imobilidade,
também eu viajei.
Como uma partícula de pó
percorri a casa e e prendi-me aos livros.
Como um insecto repousei na borda dos açudes,
ou simplesmente fui uma mulher que de tarde em tarde
olhou para o mar
procurando barcos esquecidos pela neblina
e que voltam à memória
sem esperança diferente da noite.

 Lauren Mendinueta 

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18.5.13


Trago, em algum lugar dentro de mim, a certeza de que nos encontraremos de novo. Isto está muito claro prá mim. Vamos nos encontrar nos mesmos lugares onde estivemos. Vamos rever pessoas, paisagens, sentir de novo o gosto do café expresso, da água de coco. Além de reviver tudo, vamos recuperar o tempo que passamos separados. Sim, pois tudo foi aprendizado. Já não erraremos mais do mesmo modo. Não cometeremos as mesmas faltas, não padeceremos das mesmas solidões e nem nos imputaremos as mesmas indelicadezas. Este tempo de agora nos fortalecerá... é como um caminho de exílio, no qual amadurecemos. Por enquanto limito-me a fechar os olhos e pensar em você. Mas aqui dentro, em algum lugar que só enxergo de olhos fechados, sei que nos encontraremos de novo.

 (Sabe aquele banco lá no parque? Aquele, que um dia vimos um casal de velhinhos sentados, de mãos dadas? Lembra o que você disse? “Somos nós, daqui a mais alguns anos...” 

 Não chegamos a ser. Mas o banco ainda está lá, e eu passo por ele todos os dias. 

  mdalva 

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17.5.13


Em preto e branco
 
 Insisto que um dia partirei de trem; nunca, nunca de avião, nunca de ônibus, nunca de táxi. Partirei como nos filmes antigos: na estação ferroviária, em pleno inverno, com sobretudo e chapéu de plumas. Entrarei na minha cabine e fumarei um cigarro, enquanto espero o cavaleiro à minha frente. Sonharei forte, como só se sonha na década de 50, com o trem apitando em preto e branco. 

  Aeronauta

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16.5.13


A dor é uma coisa muito esquisita; ficamos tão desamparados diante dela. É como uma janela que simplesmente se abre conforme seu próprio capricho. O aposento fica frio e nada podemos fazer senão tremer. Mas abre-se menos cada vez, e menos ainda. E um dia nos espantamos porque ela se foi.

  Arthur Golden

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15.5.13


Despedindo-se do passado

Ela vai no banco de trás do carro, com as mãos no rosto, pois não quer ver para onde vai. Deixou tudo para trás e está indo para onde a vida quiser levá-la. Está querendo encontrar uma saída para se livrar de tudo o que está acontecendo em sua vida. Todos foram embora e a deixaram. É a vez dela ir embora e deixar tudo para trás. 

  Vanessa Carvalho 

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14.5.13


 

há traços no rosto
traços de pensamentos,
abarcados à saudade.

há um olhar baço
de um quadro com tons verdejantes,
reste-as de tempos passados.

há  vozes que se perderam,
um verbo por conjugar,
no cansaço que quem amou e chorou.

há abraços desabitados,
lamentos diluídos…
no âmago da existência.

há o canto num peito naufragado
em caminhos divergentes…

Helena Maltez

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13.5.13


Retratos

Retratos molhados de pranto
Desnudam com propriedades
Amores que a vida descartou
Nas estradas abandonadas

Empoeirados em um canto
Deteriorados pelo tempo
Mostram risos tristonhos
Restos dos muitos sonhos

Como confetes espalhados
Cada qual foi para um lado
Sobraram apenas imagens
Angustiantes paisagens

Sobre antigos aparadores
Pranteiam rostos perdidos
Existenciais desencontros
Escombros na dor vencidos.

 Ana Maria Stoppa

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12.5.13


Relíquia 

Era de minha mãe: é um pobre xale,
que tem p'ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
deixo os meus dedos p'ra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-la como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.

António Patrício

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11.5.13


Momentos 

Finjo que estás
presente... e me habitas,
como quem sente
esta saudade
em mim...

Finjo que me
abraças... e me envolves,
como quem sonha
um arco-iris
distante...

Finjo que não sei,
o que já sei,
só não finjo
esta saudade
que me habita e me envolve!

Luz Lopes 

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