"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

28.4.13


Continuar sem ele era começar de novo, de outro chão, como se acabasse de descer do carrinho depois de uma volta assustadora na montanha-russa. De repente, o que era rápido e intenso parou num segundo. Na minha cabeça, tudo continuou rodando. O perigo maior não estava no movimento do brinquedo. O perigo maior era seguir tonta, no silêncio, com o mundo balançando em volta. 

  Cris Guerra

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.4.13


Parte de mim...

Parte considerável de mim
Quer ser a parte que perdi
Parte de mim uma estrada
Invisível por onde ando
Parte considerável de mim
Procura incessante outro caminho
Parte quer achar o ninho
Resoluta parte do destino
E quer apagar a solidão 
Parte considerável de mim
Quer chorar e sorrir
Parte de mim, uma parte que não fui
Parte espera há longos anos
Há tantos anos quantos sonhos
Parte de tantas parte um fio
Que me une e me impulsiona
A esta parte indissolúvel
Indescritível, indestrutível
De todas as partes que se foram
Partes ficaram e se aglutinam
Se amontoam e se refazem
Nesta parte a que eu mesmo
Não sabia pertencer
Nesta metamorfose
Sabe-se lá que parte acordará amanhã
E vai querer repartir meu destino
Espero pacientemente em parte...
Sem repartir as horas
Sem apagar os sonhos
Sem despedir ilusões
Sem cometer o afobo de partir 
Sem a parte que acordará em mim.

Carlos Gildemar Pontes

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.4.13


Oração de Clara ao seu jardim 

Meu espírito clama pelos poderes cicatrizantes do amor. 

Neles penso, enquanto escurece ou chove torrencialmente na ravina obscura que atravesso. 

Vi levantar-se a ilusão da alegria perene como dádiva. 

Que dardo cravas em mim, que assim entenebreço, que nervuras tão densas me crias, se em ti me perco?

Maria Gabriela Llansol 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.4.13


[Pela terceira vez...] 

Pela terceira vez
saio à tua procura.

Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.

Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.

Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.

Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.

Jon Benito

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.4.13


 Penso em ti como um desejo interrompido 
que se teceu na minha memória.
E sonho-te mais do que te recordo.
Seleciono. Invento-te um nome, um rosto. 
Reconstruo. Reconstruo-te.
Peça a peça.
Minuciosamente – real ou irreal,
- Assim te lembro.

 Amélia Pais

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.4.13


Por detrás do vidro

Há no retrato a penumbra
a sombra de uma presença
miragem sem tempo
espelho sem retorno nem alegoria

Um rosto esculpido uma memória antiga

 Helena Monteiro 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.4.13


Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demônios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.4.13


Com o perdão dos pássaros 

Escrevo estas palavras
sobre a antiga pele das migrações.

Que me perdoe o bosque

Uma sombra de pássaro
há na alma desta página
uma sombra de pássaro.

Perdoem-me
se não voo.

Gustavo Tatis Guerra

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.4.13


O limiar e as janelas fechadas

O que é certo é que gostei de ti.
O resto não: se exististe,
e se assim foi, qual a cor dos olhos, ora verdes
ora cinzentos, deles levantou-se uma vez
um bando de andorinhas. Quais. As rápidas,
as que não andam, as que se amam no ar.
Como foi. Ficaste doente
ou coisa assim, levaram-te, muito se passou,
acho que ia ter outro filho e esqueci-me de ti
até ouvir-te, esta noite, a horas impossíveis,
vem comigo, é tempo. Larga tudo e sai,
espero por ti ao pé da cancela.
Mas cheguei lá e o trinco
estava solto, batia ao vento
contra o poste, fechei-o, voltei para trás,
a pensar em ti, que estiveste lá,
sabe-o Deus, que abriste a cancela,
que gostei de ti e também
que a porta não encaixava bem.

Eva Gerlach 

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.4.13


Vê como a boca é triste 
quando sorri a distância; 

quando o inverno das asas 
já atravessa os espaços e 
cava na terra a sombra de uma 
ausência.

Prova difícil é crermos no azul.

Luísa Freire 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.4.13


Faz-me falta

És agora apenas uma fotografia ao lado da minha insónia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu. 

Neste fotografia te esqueço. 

Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te. 

Tudo em ti tem asas agora - o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que recordo de ti há um restolhar de penas. 

E deslizo para esta solidão demasiado humana de não poder voltar a ser sozinho, como era quando tu existias, nesta mesma cidade, e eu já nem sequer pensava em ti.

 Inês Pedrosa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.4.13


 deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.

 Ana Paula Inácio

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.4.13


por acaso

hoje venta,
nem forte, nem leve...
o sopro de Deus parece
feliz...
inda que breve,

pois que brinca de avoar
com a passarada
que abusa do gáudio do ar e

convida as folhas vivas
à dança e
aviva as mortas aos pés das cruzes
vivas-mortas-vivas,

beija tudo o que abraça,

revolve-se
por todos os lados
qual e tal uma criança borboleta, 
e,

por acaso,
ala
meus olhos d’água

Janet Zimmermann

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.4.13


 piso o caminho mais
íngreme
para chegar até ti

aos olhos
da pedra
toda a aresta
é flor

V. Solteiro

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.4.13


Sobre o seu retrato 

Quando a idade fizer de mim o que agora não sou;
E cada ruga me disser onde o arado
Do tempo sulcou; quando o gelo fluir
Atravessando cada veia 
e toda a minha cabeça se cobrir de neve:
Quando a morte exibir o seu frio sobre as minhas faces,
E eu, a mim mesmo o meu próprio retrato procurar,
Não encontrando o que sou, mas o que fui;
Duvidando em qual acreditar, neste ou no meu espelho;
Embora eu mude, este permanecerá o mesmo;
Tal como foi desenhado, reterá a compleição primitiva
E a tez primeira; aqui poderão ainda ver-se
Sangue nas faces e uma penugem sobre o queixo.
Aqui a testa permanecerá lisa, o olhar intenso,
O lábio rosado e o cabelo de cor jovem.
Contemplai que fragilidade podemos ver no homem,
Cuja sombra é menos do que ele propensa à mudança.

Thomas Randolph
(trad. Cecília Rego Pinheiro) 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.4.13


É tão estranha a sensação de não viver. De estar só à espera que aconteça. Olhar para trás e ver que em quase meio ano nada aconteceu. Pelo menos comigo. (...) eu estou em stand by. (...) Como os passageiros à espera de um outro destino naquelas salas de aeroporto que são onde melhor se ouve a solidão de estarmos tão perdidos assim como eu aqui, que por momentos nos transformamos em verdadeiros fantasmas, sem sombra sequer, sem nada. Até acontecer alguma coisa. Vai ter de acontecer alguma coisa. E não acontece.

  Pedro Paixão

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.4.13


Problemas de geografia pessoal 

Nunca sei despedir-me de ti,
fico sempre com o frio 
de alguma palavra que não disse, 
com um mal-entendido a recear, 
o vazio de torpe inexistência 
que às vezes, gota a gota, 
se converte em desespero. 
Nunca sei despedir-me de ti, 
porque não sou 
o que em viagem passa pela gente, 
o que vai de aeroporto em aeroporto, 
o que olha os automóveis 
em direcção contrária, 
indo para a cidade onde acabas de chegar. 
Nunca sei despedir-me, 
porque sou um cego 
que tacteia pelo túnel das tuas mãos 
e lábios quando dizem adeus, 
um cego que tropeça nos mal-entendidos 
e com essas palavras que não se sabe articular. 
Desterrado do amor, 
nunca posso afastar-me de tudo quanto és. 
Num vazio de torpe inexistência 
vou-me de mim a caminho do nada.

 Luis García Montero

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨