"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

Fica se vens para ficar
Não fales ainda. Escuta o que foi
lâmina na minha carne: cada passo, um riso ao longe,
o latir do cachorro, o bater da portada
e este comboio que não acaba de passar
sobre os meus ossos. Fica sem palavras: não há nada
a dizer. Deixa a chuva tornar a ser a chuva
e o vento esta maré sob as telhas, deixa
o cão gritar o seu nome na noite, a portada
bater, ir-se embora o desconhecido neste lugar nenhum
onde morro. Fica se vens para ficar.
Guy Goffette
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Sobre a eternidade
Perguntaste-me há quanto tempo
as folhas se levantam sem cair.
Falavas se calhar da eternidade sem querer,
da mesma forma inocente com que adormecias
ou pousavas o copo de vinho sobre a mesa.
A única forma encontrada
era a breve inocência das coisas
repousada na tua própria dúvida.
E eu tinha a certeza que não eras daqui,
como eu sou,
como ninguém é.
Verificados todos os silêncios.
António Quadros Ferro
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Eu nunca fui capaz de rezar
Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.
Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.
Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas
e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.
Edward Hirsch
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Em lilás e cinza
Minha alma, agora, é como uma janela aberta
para o infinito azul de uma hora de saudade:
Todo o imenso langor da tarde em sombra a invade,
enchendo-a de uma luz dúbia, esmaiada, incerta.
Não sei que estranhas mãos erguem véus de abandono,
num divino silêncio, entre minha alma e a vida,
para ela adormecer de distância, esquecida,
como uma flor serrôdia, às caricias do outono...
Alceu Wamosy
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O teu retrato
Recordo a tua voz
Era doce,
o teu sorriso,
feito de tons subtis,
teu perfil,
teu nariz.
Desenho sem querer
a tua boca.
Faço um retrato de ti,
a lápis de carvão.
desenho teu cheiro,
o teu abraço
Construo com uma régua,
ao milímetro a paixão.
Não ponho cores no teu retrato
Fica assim..
singelo, sem aparato.
E já sem me lembrar
porque te quis pintar
vou-te pondo à cor que tinhas.
Um leve tom púrpura rosáceo
um quê de nada ácido
um pequeno toque de ouro nas pupilas.
Mais uma linha
no teu rosto de marfim
um leve retoque nos lábios,
no teu beijo acobreado,
no teu desejo tom de carmim
E no fim...
Aí no fim...
Rasgo-te em mil pedaços
Alexandra Bello Patronilho
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Inteiros
Sei que sou
meio
previsível
meio
explícita
meio
simplória
meio
inocente
Mas
minhas outras metades
não são.
Rossana Masiero
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Vazio
Há certos dias
Que sinto em min’alma
Um vazio infinito,
Um vazio sem sentido,
Um vazio indefinível,
Vazio dos ventos e procelas,
Vazio que vem de longe
Cuja origem desconheço,
Maior,
Muito maior que a solidão...
Há certos momentos
Que sinto dentro de mim
Um vazio talvez originário das vagas,
Dos grandes mares
E que às vezes me inunda,
Quase me faz soçobrar...
Há certas horas
Que sinto dentro de mim
Um vazio que se agiganta,
Diante do qual me sinto pequenino
E comparo este vazio tão grande
Ao vazio da hora do adeus...
Mas existe,sim,
Um vazio,
Muito maior do que todos os vazios,
E que se alojam no âmago dos corações,
O vazio imenso da saudade!...
Olympiades Guimarães Corrêa
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Alinhavando versos
Vou alinhavar versos prudentemente
para um encontro muito improvável
com esta minha mente que desmente
a estrada da realidade não realizável!
Alguém quis meu destino ali traçado
no instante em que viveu a semente
germinada no colo já providenciado
naquele sublime acto tão perpetuado
fecundado num dia estéril e adubado!
Ah! No vácuo ficam as pobres letras
lavradas por tamanho vil sentimento
perecidas no mural do grande poeta!
Que reclama no estandarte do poder
destruindo castas humildes intenções
reza fel ironizado, não o soube conter!
Ser poeta não é somente ilustrar versos
mas, vesti-los com tecido de sentimento
enraizados por motivos mais dispersos!
Maria Valadas
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Se perguntarem por mim digam
- que as raízes de meus ventos dispersaram tantas quimeras
mas que os vendavais de meus dias não perderam ainda suas cores
- que o sol, o mar e as areias da praia fluem
em mim como os acordes de Debussy num fim de tarde
- que todos os azuis e os verdes, às vezes, me habitam
- que, às vezes, sou uma pobre noite sem estrelas puras
- que meus sonhos de tão vagos não encontraram
janelas e nem portas
- que minhas semeaduras se deixam queimar magras,
bem antes que o sol se ponha
- que na música de tantos dias e noites encontrei
violinos desafinados
- mas que
na chuva, de tão cinza ao cair
descobri nela
toda uma gama de coloração
de vida
rasgando estradas novas em esperança.
Se perguntarem por mim...
Alvina Nunes Tzovenos
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Reflexões
Um barco passa ao longe
Na linha do horizonte.
Passa o tempo,
uma alegria, alguns sorrisos
Muitos sonhos, algumas dores
Muitos amores, poucas verdades
Um adeus,
algumas lagrimas, recordações
como no horizonte ao pôr-do-sol
Vão se esfumando as lembranças
Que importa se desce a sombra
Se tudo já é passado.
Navega comigo,
Até que a noite desapareça.
Anna Carlini
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Destino
Um dia, quando tudo aquilo que fizemos
e tudo que conquistamos
já estiver diluido na memória
e as nossas mãos vazias
dos frutos que colhemos
for apenas mais uma parte da história
a alma despojada dos ventos e moinhos
sozinha há de encontrar a eternidade
pousada nas estrelas dos caminhos...
Mariza Alencastro
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Você nunca está só
Você nunca está só. Sempre ao seu lado
Há um pouquinho de mim pairando no ar
Você bem sabe: o pensamento é alado
Voa como uma abelha sem parar.
Veja: caiu a tarde transparente
A luz do dia se esvaiu... Morreu
Uma sombra alongou-se a seus pés mansamente...
Esta sombra sou eu.
O vento, ao pôr do sol, num balanço de rede
Agita o ramo e o ramo um traço descreveu
Este gesto do ramo na parede
Não é do ramo: é meu.
Se uma fonte a correr chora de mágoa
No silêncio da mata, esquecida de nós
Preste bem atenção nesta cantiga da água:
A voz da fonte é a minha voz.
Se no momento em que a saudade se insinua
Você nos olhos uma gota pressentiu
Esta lágrima, juro, não é sua
Foi dos meus olhos que caiu...
Olegário Mariano
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Residência da dor
Conheço a residência da dor.
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.
A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.
O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.
Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.
Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
"Quem visse, como vês, a dor, já não sofria".
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.
Cecília Meireles
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Elegia
Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...
Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.
Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.
Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.
Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.
Virei no vento...
Direi: acorda...
Rui Ribeiro Couto
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Soneto
Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.
Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.
Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.
Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.
Marquesa de Alorna
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O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
É só a amarga marca
na paisagem escura.
Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.
Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
Então por que me faz
o coração bater tão forte?
Ferreira Gullar
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Vento
O vento agitando-se entre as árvores
Traz outras agitações dentro de mim...
E eu, mergulho ventaniamente nas palavras.
Palavras feitas no vento do meu espaço in (ex)terno,
Vento macio, amando água, corpos e paixão!
Vento suave de lirismos (in)contidos
No peito do poema em gestação,
Vento refeito em nuvens brancas, como o carinho de um bem querer!
O vento ventando a vida
Varrendo saudades noutras direções
Vento vindo, voando, vago: vento...
Maria José Speglich
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