"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

Até ao esquecimento
Cansados de inventar palavras
de dar nome ao silêncio
para afugentar tristezas
Cansados de olhar para o céu
rogando que chova
Que a água ou o vento
tragam um gesto que nos devolva a vida
Cansados de pedir aos mortos
que encham as nossas horas
que inundem com as suas vozes o nosso leito obscuro
Cansados por fim de acreditar
em labirintos
Optamos por deixar de interrogar as esquinas
por ignorar promessas
Optamos por fim por essa eternidade
que é o esquecimento.
Martha Carolina Dávila
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De noite não escrevo cartas,
qualquer que seja a luz, para onde quer que seja.
E já não me assusta o elevador
vertiginoso, desde que o sono
me habituou à queda.
Na luz do fim da tarde agora brilha
para sempre a minha varanda amarela.
Campos salgados, colinas esburacadas,
já não me assustais.
Como se fosse a minha vida,
fecho as janelas, vou comendo
pão, poupo energia.
Hans-Ulrich Treichel
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Existe no silêncio
um grito de harpas
desamparadas
como se viúvas
da música das palavras.
Porém não chores
a eternidade aprende-se
escutando o vento.
Luiza Caetano
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Pausa
Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.
A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.
Antonia Pozzi
(trad. Inês Dias)
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agora, vai
agora, vai
e não tomes muito do tempo para descansar
tens que continuar,
tão somente e apenas
continuar,
e se souberes
guarda das sombras
o idioma do homem
esse pouco de palavra que apenas procura
o que não encontra
e quando o encontra,
não se satisfaz.
Deixa-o repetir em elipse, a rota
o perpétuo movimento
inquieto verbo em fragmento, nítido
pressentimento, por vezes a saliência do espelho,
a tarefa de vasculhar, chafurdar, reescrever
continuar
e se preciso for,
como destino e momento passado
já somatórios do corpo que pressente,
[da areia em que se esculpe o passo se diz que não sabe como o guardar]
nem à escrita dum mar que adormeceu quase morto
na palavra que não tem distância,
nem à própria guarida do tempo, vai
anda,
tens que continuar.
Leonardo B.
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Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
Luís Quintais
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Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou todas as janelas do quarto;
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.
Catarina Nunes de Almeida
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Suspensos na saudade
(moldada a medo)
deslizam pelo silêncio espelhos
em tons monocromáticos
criam sonhos desconexos
em pontas dos pés
onde a morte das abelhas envelhece as sombras
e peixes vermelhos brilham na violência do vento
delírios electrificados onde a luz canta baixinho
e as imagens dançam em desordem
é difícil acordar no interior da noite
(pintada em tons de sonho)
quando a luz amadurece nos corpos adormecidos
mergulhando num abismo de abelhas e peixes
sonhos cambaleando pela dor da respiração
numa ressaca onde acordo e apago memorias
ouvindo ainda restos da tua voz
perfumando o silencio.
Maria Sousa
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Próxima de ti...
Onde estás, alimento dos meus sonhos?
Estou perdida sem saber onde te procurar...
Persisto no sonho, nesta busca eterna
Estarei perdida no caminho?
Continuo a imaginar-te nos meus sonhos
Nas asas alvas do amanhecer, sei-te próximo...
No orvalho da esperança, as rosas contam-me de ti
Irei algum dia descobrir-te nas nuvens?
Estarei na rota certa, no sonho de luz?
Se pudesse aproximar-me de ti...
E dizer-te saber, que as nuvens são azuis
Se conseguisse ver-te de novo…
Os sonhos tornar-se-iam estrelas
Serias o refúgio no céu, para onde voaríamos.
Cecília Vilas Boas
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Mosaico
Juntei meu rosto, transformado em cacos - pedaços caídos sobre o chão do quarto. juntei o meu rosto, com pá e vassoura, depois do espelho quebrado. da imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. recolhi os pedaços de mim, depois de não encontrar mais o reflexo. de não me enxergar no meio da moldura dourada - sobrevivente pregada na parede do quarto. juntei meu rosto, colei os pedaços, sem me reconhecer no estranho mosaico que acabou sendo criado.
Eduardo Baszczyn
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Perante a morte estamos sempre sozinhos.
Umas vezes de pé, desassombrados.
Outras deitados em concha, no soalho.
Umas vezes dela falamos, outras não.
Nessas fingimos ter a fala neutra e esquiva,
Como se a tristeza não enchesse o horizonte.
Sozinhos perante ela certo é que estamos.
Dobramos o riso na curva dos caminhos,
Juntamos mãos a outros gestos já traçados,
Calcamos passos sobre a terra
E beijamos, nos nossos filhos,
A memória que, nossa, não teremos.
Traço as letras. Ao traçar as letras,
Sei de que falo.
Entretanto, nunca o saberei.
****
Talvez tenha sido esse o dia (foi seguramente) em que falaste de asas, como se a noite as fizesse crescerpor delas falarmos: e houvesse, ao nosso lado, o intermitente rufar das suas penas.
****
Só ontem disseste caminhamos sozinhos,
e por isso só ontem te entendi:
o silêncio do mundo está cheio de vozes.
Helena Carvalhão Buescu
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Depois
Depois da confidência
me retirei da tarde.
O céu ficou vazio
vazio
onde era vôo de pássaros
(os pássaros estavam quietos).
Uma febre roía meus ouvidos:
voltei mais velha (exilada)
com um toque de infância entre meus dedos,
reserva de sal dentro dos olhos.
Olga Savary
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Não adormeças
Não adormeças: o vento ainda no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira
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E é este o quarto onde costumo estar nas noites assim; o quarto onde costumo estar nas noites que não são bem assim; o quarto onde costumo estar todas as noites e onde nunca nada jamais acontece a não ser o estrépito do céu caindo à vez pelos telhados.
António Gregório
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Final
Resta o passado, o meu passado... minha glória,
não por mim, mas por ti, que nele existes...
Por ti, que me povoas a memória
do coração, a memória dos sentidos,
a memória imortal do pensamento,
com as mil estátuas dos teus gestos tristes,
com teus olhos de pasmo, doloridos,
com tua voz de cântico e lamento,
écloga e litania do teu amor, que era,
sobre a frialdade do meu precoce outono,
um hálito morno de primavera.
- Resta o passado, céu de eterna claridade,
paraíso perdido, céu divino,
onde a um mando de mágoa e de abandono
estacou, como o sol da Bíblia, o meu destino...
- Resta o passado, que não foge e que não cansa...
- Resta a saudade, mais fiel, menos triste, que a esperança...
Felippe D'Oliveira
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Restos
Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.
Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.
Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.
Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.
Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.
Ildásio Tavares
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Olá meus amigos e visitantes, estou ausente por motivo de saúde. Assim que estiver recuperada estarei por aqui, firme e forte, atualizando o blog.
Em todo esse tempo de ausência, vez ou outra passei por aqui, olhei os comentários que sempre me encheram de alegrias, principalmente por ver aqueles, que nunca desistiram de me visitar, de saber da minha saúde, de todos sinto saudades, até mesmo daqueles que por aqui passaram apenas uma vez...
A todos voces deixo a ternura de um abraço e esse texto que retrata a importância das pessoas que passam por nossas vidas...
Acaso
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.
Antoine de Saint-Exupéry
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