"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

18.6.11



Regresso

Voltei a esse lugar
onde nunca tinha estado.
Do que não foi, nada mudado.
Sobre a mesa (de oleado
aos quadrados) meio vazio
encontrei o mesmo copo
nunca cheio. Tudo
permanece tal e qual
eu o não tinha deixado.

Giorgio Caproni
(trad. de David Mourão-Ferreira)

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17.6.11



Silenciosa
sob a transparência de véus negros...
disfarço marcas tatuadas em minha face.

Meu olhar ausente desmente a dor que vai
na minha alma!

Iracema Zanetti

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16.6.11


Plano Z&B/04

deixou a porta entreaberta
para o caso dele voltar por engano
acendeu-se à luz da varanda
derramou-se em saudade ordinária
: o seu último ato poético

alguém lá fora, quer deixar a vida passar
alguém aqui dentro, tem outros planos.

Beth Ameida

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12.6.11


Da melancolia

Alguém entrou na memória branca, na imobilidade
do coração.

Vejo uma luz debaixo da névoa e a doçura do erro
faz-me fechar os olhos.

É a ebriedade da melancolia; como aproximar
o rosto de uma rosa doente, indecisa entre o perfume e
a morte

Antonio Gamoneda

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11.6.11


dedos em fuga na impressão da sala

ela costumava andar com os dedos grandes do pé em bico
como se fosse bailarina em pontas
como se pudesse suspender a gravidade das terras e das cadeiras
e se impusesse sem lei por todo o ar
depois circularia por aí como vento
e inventaria a linguagem própria dos mantos
que nunca cobrirão os rostos de uma tez abrilhantada

as rugas a imporem-se
os restos de areia nas unhas já compridas
dedos esguios de magros
a cadeira da sala quieta na ausência dela
era já a hora que se tinha ido
nenhum som
os dedos lá

sophiarui

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9.6.11


Mulher à janela

Está afundada na sua janela contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível. Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,tal como o mar num quadro, e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões. Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste; lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse, e alguém há-de erguer a sua casa algures sobre a poeira e o fumo de outra casa.

Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.

Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite -ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-, mas ninguém o viu, ninguém sabe, nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas, os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal, embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.

Ela ouviu em cada passo a condenação. Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela, a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele, como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus, tivessem sido o verdadeiro limite, o abismo final entre uma mulher e um homem.

Olga Orozco

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7.6.11


Atravessar de novo as pontes

Quando o Sol
estende lá fora
o seu véu incendiado,
cuspimos nas mãos
para cavar no deserto
e apenas sentirmos
o que acontece dentro de nós.

Quando a neve
cai muda na língua
da fuga ao discurso
da inutilidade das palavras,
enterramos o peso
das feridas na areia
para ficarmos mais leves.

Só assim podemos
atravessar de novo as pontes
sem pensarmos
nas origens da sensatez
ou no luar que nos assombra
com a energia do cosmos.

Nilson Barcelli

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6.6.11


Quase tudo

Este adeus à tarde sem me cumprir no dia,
este instante em que tento redimir
este vício de não saber partir...
Bastava fechar os olhos à memória
e perseguir a noite. Imensa.
Quase nada. Quase tudo.
E, no entanto, se um gesto não se dobra,
se uma palavra tarda,
desfaz-se o último vestígio da paisagem.

Aurora Simões de Matos

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2.6.11



Espelho louco

Sucedem coisas novas sem cessar,
e já estás fora delas. Faço a barba,
e lembro-me de ti: lágrima larga,
e paro: dos meus fins metade, par
foste dos actos livres; oxalá
tivesses sido mais! Vivo, prossigo
dia de trabalho, e vão comigo,
p'lo caminho, lembrança doce, ávida
falta… Mas que valem lágrimas e
caminho, querida, na solidão?
Realidade, presente, estão aí!
Só teu espelho te guarda, eu, a alma,
espelho que solta as imagens, um tão
louco espelho, que crê bater-te palmas!

Szabo Leirinc
(trad. de Ernesto Rodrigues)

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31.5.11


Do tempo

Tenho saudades tuas.
Do tempo em que éramos dois mas éramos um só. Do tempo em que o primeiro telefonema do dia era para ti. Do tempo em que éramos um do outro e gostávamos disso. Do tempo em que os dias passavam devagar mas não importava porque à noite estávamos juntos. Do tempo em que os teus pés gelados procuravam os meus debaixo dos lençóis. Do tempo em que falávamos com o olhar. Do tempo em que o teu toque me arrepiava. Do tempo em que os teus abraços eram remédio para tudo. Do tempo em que o silêncio não era uma arma. Do tempo em que as discussões eram pretexto para nos amarmos. Do tempo em que me sentia amado. Do tempo em que me fazias feliz e eu a ti. Do tempo em que éramos felizes mas não sabíamos.
Tenho saudades nossas.

Pedro Rapoula

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29.5.11


De fios e sonhos

Jazem ainda
nas paredes abandonadas
doces lembranças de outrora.
Arrastadas pelo tempo
as cores se foram.
A brisa e a luz teimosas
insistem num último suspiro.
Desfiam sonhos de passado.

Naquele mundo eu fui feliz.

De partida, ainda perdida,
sentindo a brisa e a luz,
fio sonhos de futuro.

Clau Assi

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28.5.11



Ausencia

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

Jorge Luis Borges

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27.5.11



vigilia

já faz algum tempo
o sol dos seus olhos
foi embaciado
pelo nevoeiro

não vai à varanda
não abre as cortinas
e nem cantarola
na hora do banho

preciso ajudá-la
conversar um pouco
ela se esquiva
sua dor encolhe-a

permaneço alerta
sinto-me impotente
porém passarinhos
também trocam penas

sofrimentos passam
fecham-se feridas
e as cicatrizes
são apenas marcas

então calo o bico
fico na reserva
e daqui de fora
monto sentinela

líria porto

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26.5.11


há várias maneiras de começar o dia
quando acordo fumo um cigarro

coso silêncios à pele
num quarto inteiro de palavras vazias
que se repetem como rituais

durante semanas ensaiei regressos
apesar das paredes vazias
não deixo de fingir que não estou só

Maria Sousa

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25.5.11



Do medo...

Tremi… senti-me desmoronar…
Caí abaixo do futuro que julgava certo…
A natureza segue seu curso… impassível!
Mas a morte rondava perto.
Tremi… senti-me traída pela vida escrita
Em papel de rascunho, sobras de sonhos
Sem tempo de serem sonhados!
Porque a morte rondava perto.

Raiva em aberto… este meu ruir …
Este meu sentir me eleva a ti, decerto!

BlueShell

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24.5.11


Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos... Aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo: do que não ficava pra sempre.

Antônio Bivar

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21.5.11



Quantas vezes...

Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas
inteiras. Praias de cinza invadidas
pelo vento. Quantas estações quantas noites
indormidas. Embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim reparei
que sempre estiveste a meu lado. Na cal frágil
dos meus ossos. Nas hastes do mar
infiltradas no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos.

Casimiro de Brito

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