"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

4.5.11


Parada dentro de ti

estou parada dentro de ti
parada e desfalecida
porque o ar me foi roubado
pela tua boca
e o meu corpo permanece aprisionado
na memória das tuas mãos de nuvens claras
mãos que romperam os véus negros
que me escondiam de mim
e onde a paixão existia
adormecida

estou parada no movimento
perpétuo das marés
onde o mar do teu corpo
se desfaz nas areias escaldantes
do meu querer

estou parada nos céus
infinitos dos teus olhos
que me arrastam
para o abismo azulado
inolvidável
que se revela
na tua presença

mesmo que a ausência
me atormente
ficarei sempre parada
dentro de ti

MT-Teresa

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3.5.11


Intimidades

aprendemos a linguagem do desejo
no soletrar dos corpos

entro pelo teu corpo
em busca de uma morte mais íntima
(assim te arranco do tempo)

ahcravo

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2.5.11


... sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

Al Berto

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1.5.11



Quase-Nada

Suplicantes,
nuas,
duas mãos em prece
aguardando o milagre,
que acontece.
Uma coisa que não,
um quase-nada,
e os sonhos voltarão,
de madrugada...

Manuela Oracy

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30.4.11



Os girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

José Tolentino Mendonça

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29.4.11



Auto-retrato

Para onde quer que vá
já lá estive
o que quer que faça
não posso decidir
quem quer que eu ame
é uma parte
por muito que morra
fico com vida

Eva Christina Zeller
(trad. de Maria Teresa Dias Furtado)

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28.4.11



A quem...

Não sei a quem o tempo obedece mas certamente não é a mim.
Todas as noites, à janela, espero.
Saio, entram pensamentos, volto, entram palavras.
Músicas tocam.
Não chegas, não vens.
Dia, dia e meio, pretérito.
E antes, a ausência.
Impressões, nostalgias, cumplicidades.
Fatigada, busco o tédio à perfeição.
E o seguinte dia, também espera.
Trocar as diferenças, colorir nuances, lapidar facetas.
Dia esse, outro também.
Vem, vou desarrumar-te.
Todo, todas às vezes.
Saudade.
Saudades.

Maria Odila

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27.4.11

mais uma vez desce as escadas
para falar de ausências

tem medo e em dias curtos decide
envelhecer no interior da casa

ao sono conhece-o como fuga ao silêncio

um dia escreveu (era domingo) sobre os vestígios
da respiração nos pequenos nadas

anos depois refugia-se no outono como
quem vê a vida toda nas folhas

Maria Sousa

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26.4.11



Estou cansada.
Cansada de lutar contra esta corrente.
Mas eu não quero ir. Deixem-me aqui. A esperar...

Luto por algo que nem eu bem o quê.... talvez contra mim...
Não quero amar, não quero que me amem . Tenho medo...
Mas a verdade é que a solidão me destrói aos poucos.
Nunca quis esta vida para mim, no entanto, é mesmo isto que tenho. Uma vida vazia.

Nunca quis tornar-me nisto, fria.... distante... sozinha... amargurada... Todos dizem-me que tudo isto vai passar... dizem-me para não ser parva, dizem-me que sabem como é, que compreendem... Compreender?!?... como podem comprender o que nunca viveram?... espero que nunca vivam!...

Vitó

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25.4.11



unmade bed

um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa
sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa
pode ter
uma mulher pode refazer a cada dia
o seu homem
e deitá-lo
sentá-lo
aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana
entre as linhas de coser e
as cortininhas de chita que o tempo
embolorece. há um homem
a dormir nesta cama
muito depois de o homem
partir.

Marta Caldeira

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24.4.11


Pensamentos quânticos II

Hoje decidi não sentir saudade... Olhei dentro de mim pra encontrá-la e expulsá-la... mas ela fugiu e ocultou-se... Corri, busquei mas não a achei dentro. Então decidi sair fora, sair de mim, olhar o mundo buscar nele...

O primeiro que veio à minha cabeça foste tu meu amor, foi o muito que eu sinto esta distância, e aí nesse instante senti como a saudade se coava para dentro de mim, ocupando-me completamente...

Aí eu compreendi a nossa dança:
quando eu saio ela entra.

Concha Rousia

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23.4.11


A Tua Morte em Mim

A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

Adolfo Casais Monteiro

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22.4.11



Histórias Improváveis

Deixa-me entrar na tua casa, sentar no teu sofá e chorar dias seguidos, sem parar, sem ter que parar, sem limpar as lágrimas, alguém pode ver, sem disfarçar a dor, sem medo de ficar com os olhos inchados, o rosto disforme. Não tens que compreender nem te afligir. Sou só eu a ser aquilo que sou em certos dias da vida – inconsolável. Não quero o teu lenço, obrigada, nem o teu ombro, nem água, apenas chorar sentada no teu sofá, chorar no teu cenário, manchar a tua normalidade, gritar dentro dela, fazê-la tremer um pouco. Chorar também por ti que não choras e é preciso de vez em quando. Nem te emocionas, apenas te ris e te preocupas e és malevolamente bom.

Ângela Leite

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21.4.11

queria morrer contigo
não queria morrer de ti

prendi o amor nos meus braços
mas uma chuva de areia negra
cospe o meu sangue onde o coração

queria morrer contigo
contra o corpo limite do dia
arder praias onde o tempo acabava
começar Deus onde era o fim
não queria morrer de ti

a noite toda tem a espessura da perda
a boca beija o batimento da terra
o medo abraça-me

e ainda é tão tarde para que morramos os dois

Pedro Sena-Lino

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20.4.11


Esvaziamento


Por onde andou você, nessa madrugada fria?
Quando me fiz silêncio, por que não me agasalhaste?
Adormeço só, entre a precariedade da minha existência
e as agonias do meu ser.
Moldo-me, entre as plumas do meu travesseiro.

Beth Almeida

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19.4.11


As fotografias

As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.

As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.

As fotografias não amarelecem, queima,
não se enchem de pó mas de granizo.

As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.

Pedro Mexia

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18.4.11


Aos poucos a vida nas gavetas

Arrumar aos poucos
a vida nas gavetas:
blusas de cetim
vestidos de musselina
sobre postais bilhetes fotografias

- e um ligeiro aroma a sândalo.

Confiar os pequenos adereços
aos seus lugares de esquecimento
e guardar com eles a complexa
indefinição da memória,

como se todos os refúgios
fossem um tempo subtraído à vida.

Sara Felício

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