"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

13.4.11

Em nome da tua ausência

Gosto tanto de estar contigo e às vezes quero tanto estar sozinho. Às vezes preciso tanto de ti e outras vezes preciso só de mim. Às vezes quero que estejas aqui em casa e outras vezes não. E às vezes esse querer dura apenas alguns minutos ou segundos. Mas há dias em que a solidão e o frio me invadem e eu sinto-me pequeno e só e triste. E acho que amar devia dar um pouco mais de calor...
Na verdade tenho saudades tuas. Mas saudades mesmo. Daquelas que provocam um peso no estômago e fazem doer. E é nestes dias que tenho mais dificuldade em sair da cama. E chego a ficar assim, congelado, como se apenas a tua presença ao meu lado me trouxesse algum conforto.
Em nome da tua ausência arrasto os olhos de rosto em rosto, buscando a tua face. Em nome da tua ausência perco horas na cidade a percorrer os teus caminhos, sonhando com os teus passos. Em nome da tua ausência gasto os dias em angustias, em lágrimas, em solidão. Em nome da tua ausência deixei de sentir.
Na verdade tenho saudades tuas.
É tempo de aceitar que te perdi de vez.

Pedro Rapoula

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.4.11


Entre o sempre e o nunca

Entre o sempre e o nunca
é que as coisas acontecem
um segundo sem fôlego
quando menos se espera
o mundo transforma-se

afundado em si próprio
sete corações abaixo
é que de repente se imagina
uma época em que as pedras
começam a sangrar.

Pia Tafdrup

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.4.11


Le dé

Sempre gostei que decidissem por mim. Com B. havia uma regra de jogo: nos dias pares era ele quem tomava as decisões, nos dias ímpares era eu. Quando ele partiu para a América ofereceu-me um dado para o substituir. Um dia, por ocasião de uma “vernissage”, um homem aproximou-se de mim e apresentou-se. Usava o mesmo apelido de B. Exprimi a minha surpresa perante a coincidência que se revelava pouco comum, entre as letras do seu nome e as do nome do meu amante. A sua resposta foi galante: dois homens com nomes idênticos amavam-me. No dia seguinte, convidou-me a partilhar a sua cama. Decidi confiar a minha decisão ao dado. Por intermédio da sua prenda, B. aprovou o seu sucessor.

Sophie Calle

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.4.11

ontem a morte passou por mim na rua
vestida de preto
cambaleante e desmazelada
com um carrinho sem rodas que arrastava
deixando marcas no pavimento

ontem de arrepio
acendi uma vela
vermelha. pingava, pingava
como se chorasse

ontem mais uma vez o de sempre
a morte à frente
e tu ali estendido sem nada poder fazer

(quanto tempo mais vou ter que te ver morrer?)

sophiarui

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.4.11


Fugir

Sempre esta vontade de fugir. De quê, não sei. De mim própria, provavelmente. Partir simplesmente sem destino nem limite.

A palavra é essa. Partir. Quebrar amarras,
deixar lugares, sem adeus, sem despedidas.

Sentir a falta das pessoas em vez de me desiludir delas todos os dias. Mas fico. E com razões que (me) dou, me engano, sabendo-o. Talvez a viagem seja ilusão. Porque, na bagagem, comigo levaria a vontade de fugir.

Alice Daniel

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.4.11


Lágrimas

Lágrimas de pedra,
sonhos de cristal
destroçados pelo frio e cortante
vento da madrugada.
Pedras que destroem,
aniquilam.
Arrancadas do coração
com dor, amor e ódio
pelo sonho não mais sonhado,
porém profundamente guardado.
Melancolia, depressão...
Soluços sufocam,
as lágrimas matam...
E eu... apenas disfarço.

Débora Linden Hübner

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.4.11


Aquele dia

Acabou o arraial,
folhas e bandeiras já sem cor,
tal qual aquele dia em que chegaste.
Tal qual aquele dia meu amor.
P'ra quê cantar
se longe já não ouves?
O nosso canto ainda está na fonte,
o nosso sonho nas estrelas do horizonte.
Ainda nasce a lua nos moinhos,
ainda nasce o dia sobre os montes,
ainda vejo a curva do caminho,
ainda os mesmos sons as mesma fontes.
Tu sabes meu amor não estou sozinho
pelas salas do silêncio em que te escuto.
Abro janelas ainda cheira a rosmaninho,
vejo-me ao espelho ainda vejo luto.

João Ferreira Rosa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.4.11

Encontro das Águas

Até então, eram dois Rios... distintos
Porém, pelo acaso dos cursos,
desaguaram no mesmo leito
Misturando não apenas suas águas,
como também,
toda a memória das passadas margens
Tornando-se assim, mais densos e profundos
Para então, juntos,
seguirem um só curso
Dividindo o mesmo sonho de Mar

Até então, éramos dois seres... distintos...

Marcelo Roque

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.4.11


Às vezes paro à porta
com o olhar perdido e habituado ao silêncio,
há mais desertos ainda, dias
e morte noutros olhos.
Com a garganta habituada à sede,
com os pés às feridas,
saio para a rua
e já não há umbrais.

Ando um dia, passo outro,
acabo uma semana de vidros partidos
e tosse mais velha.
Hoje parece que sempre
choveu sobre mim,
e não me importa
se a chuva já não se parece ao esquecimento
e apenas deixa charcos, paredes mais sujas
e fuligem e tristeza nos olhos de rímel,
ainda tenho sede
e não me importa
voltar às coisas más e aos velhos tugúrios
à procura de algo que não encontro nem recordo,
que costuma principiar por um encontro,
talvez por outra palavra
e corre o perigo de crispar-se
até a forma da folha da faca.

Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar.

Alfonso Barrocal

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.4.11


aos poucos
rasgo o espelho da memória.
redesenhando novos traços
esculpidos em voo livre
sob a estrela que roubei
num olhar moribundo.

aos poucos
enterro o coração de papel.
esmagando na poeira do vento
as palavras negadas.

Ana Barros

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.4.11


Vem à mim,
a cada noite que passa,
um murmúrio mudo
e replicente
que incide
em dizer-me
uma triste verdade.

Como um pássaro
que aos sussurros
diz ao pé do ouvido
que não terei nada além
de volúpia e solidão

E que o outro lado
da cama, ao alvorecer,
Sempre estará vazio...

Wagner B. Santos

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.4.11


Solidão num sábado

Estou inútil, sem você,
nesta noite de sábado que começa.

Há as horas que terão que passar, que vão passando
e que me amedrontam
como o imenso deserto ao caminhante já sem forças.

Assisto à tarde que se vai, triste, oleosa,
como se a visse quadriculada, de uma cela,
sem direito à paisagem.

E o pior é que hoje é sábado,
e antes da segunda em que te colho,
há sempre um domingo em que te perco.

JG de Araujo Jorge

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.4.11

Noite vazia

Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspensão da mágoa.
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço. E a morte espreitando a lentidão irradia baçamente a sua despedida.

Noite vazia.

As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!

Edmundo de Bettencourt

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

31.3.11


Estigma

Um de repente caótico no vazio.
A inquietude absoluta de viver a alternativa
e não mais tê-la.
A atração irresistível do egoísmo,
do silêncio prepotente,
uma galeria de gestos interrompidos...
Ah!... mal resolvida criação,
esse convívio tão aflito com a solidão.

Edmar Monteiro Filho

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.3.11

Espero o alvorecer

Espero o alvorecer que me há-de devolver todas as aves que perdi. A meu lado descansa a penumbra que alonga os seus braços ao copo vazio, sobre a velha secretária do avô. Estou sentada e penso na época das certezas mais antigas, das crenças que traçava em todos os gestos que inventava. Estou parada neste tempo, o tempo da minha casa, do meu corpo, ajustado ao espaço, às paredes nuas, ao silêncio dos gatos adormecidos. Estou sentada e olho a minha própria presença, perdida nesta ausência sossegada.

Bibi Pereira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.3.11


Five o'clock tea

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

Emanuel Felix

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.3.11


nem um rumor se insinua
na insuportável tensão das paredes
mudas testemunhas do fio das horas
só um leve raio de sol
acaricia lento a soleira da porta
e a esperança que se espreguiça
no regaço côncavo das mãos

Alice Daniel

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨