"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

6.3.11


Devagar

Enquanto ela se vai, eu ainda sinto seus lábios na minha pele. O sabor deles. Fico ali só olhando, até ela dobrar a esquina no final da rua. Um pouquinho antes de ela dobrar, ela sabe que fiquei lá parado e se vira para acenar.
Levanto a mão para responder, e então ela se vai.
Devagar.
Às vezes dolorosamente.
A Audrey me mata.

Ed Kennedy
(personagem de Markus Zusak)

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5.3.11


Março

... e estes marços doendo
como pedras nos rins,
charadas que não invento
e nem sei de memória
se há memória
além de um domingo de março
azul, perfeito.
Todas as areias rolaram sobre
de todas as possíveis clepsidras
só o olho-farol, olho brilhante
antigo, a me guiar nas trevas
do regresso. Não haverá,
não haverá, porto, viajante,
nenhuma ítaca te espera,
nenhuma colchida, nem mesmo os arrecifes
no cais de tua infância.
Apenas a morte suave de olhos triste
tão rápida e indolor, tão limpa guilhotina.

... e estas tardes de março
viageias. Sei o peso da ausência.
Sei a dor das lembranças tatuadas
na carne, coladas e desfolhadas
como pele queimada que se arranca.
nenhuma presença é mais real
que a falta. Corpo de solidão
deslizando entre móveis, marfins,
folhas soltas de um livro,
marca da prata, desenhos no tapete,
cavalos, leão de pedra, lembranças
que se acendem em faróis iluminando
o outro lado do abismo,
o precipício, o vazio, onde tudo acaba.

Myrian Fraga

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4.3.11


Não te procuro entre meus bordados de renda, meus brocados de seda, meus perdidos em gavetas. Não te procuro, cada vez mais não te procuro, e cada vez mais te encontro decalcado em todas as impressões do dia, tatuado em cada centímetro do corpo, embrenhado insólito em meus sinais vitais.

Patricia Antoniete

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3.3.11


A casa

Pedra sobre pedra
Construí esta casa:
Tijolo, sonho e argila.

Custaram-me os alicerces
A metade da asa
direita,
A outra metade,
Serviu de escora
Às traves que a sustentaram.

A asa esquerda perdeu-se
Na argamassa.

Esta casa, para fazer,
Levou-me anos
De solidão e fomes
Aplacadas.

Uma casa tão clara,
Aberta aos ventos,
E a cada dia sempre
Renovada.

Aqui plantei minha vida,
Nos esquadros
E soleira das portas.
Ancoradouro e barco,
Minha casa.

Daqui se ouvia o mar
E o canto das sereias,
Se nostálgico das janelas
O olhar se alongava.

Mas o perfume do incenso
Rolava nos altares, deuses lares,
E eu ficava e fui sempre
A guardiã da casa.

Pássaro do abismo,
Mensageiro da desgraça,
Meus olhos marinheiros
Pressentiram o desastre.

Ventos do sul sopraram
Sobre a casa. Marés de março
Enormes, com suas vagas,
Submergiram e arrasaram
Da soleira aos telhados.

Olho de furacão,
Espiral de sargaços,
Conheci o sumidouro,
A fúria da voragem.

Sobrevivente do escarcéu
Hoje, náufraga, na casa,
Sei que as paredes permanecem
Intactas, com suas marcas,

E novamente, aos poucos,
Com meus dedos quebrados,
Vou recompondo lentamente
A cumeeira arrasada.

Myrian Fraga

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2.3.11


Personagem

Deixava que o olhar seguisse
meio perdido meio assente
em pormenores do terreno sem que os visse

era frio: e no entanto aquilo por que ia sempre fora

matéria ardente,
miragem de uma atenção alucinada

ainda não sei hoje que nome dar àquilo
o amor não é tão duro

Maria Andresen de Sousa

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1.3.11


basta
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras basta
meu coração é esplêndido como a palavra

meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
de manhã cedo é um passarinho
e depois é teu nome

teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração"

Juan Gelman
(trad. de Antonio Miranda)

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28.2.11


Um dia vais pela rua como quem
já não deseja nada deste mundo:
olhas pro céu, reparas no inferno
e todas as pessoas são iguais,
inocentes obstáculos povoando
a memória indelével. Continuas,
atravessas o parque e de repente
encontras o regresso já perdido
no dia do juízo. Fica aqui,
coisa inútil que alguém deixou arder,
resto de prata acesa em mil estilhaços
e espera pelo último semáforo,
pela última canção perto da noite
até que o vento seja o teu destino.

Fernando Pinto do Amaral

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27.2.11


Madrugada

E de dentro dela
abraçada
ao silêncio das horas
eu devaneio
de alma exaltada!

Ouço vozes
entre luzes coloridas
... há paisagens vigilantes
nessas madrugadas esquecidas!

Sinto que sou flor
sob as carícias do orvalho:
ele surpreendeu-me viçosa
... são seus
todos os meus beijos de amor!

Vejo
melancolia saudosa
a cantarolar seus prantos...
A aurora aconteceu...
é toda voluptuosa!

Dá-me a mão,
ó madrugada!

Agasalha-me nos teus encantos!

Alvina Tzovenos

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26.2.11


Nua na janela

Estou nua na janela…
de alma e de corpo despida
apenas um esboço numa tela
um rasgo de cor, pedaço de vida.
Nos meus olhos a chuva cai
desliza por meu peito até ao chão
então calmamente a tristeza vai
e cada lágrima lava a solidão.

Estou nua na janela…
ofereci o meu corpo ao luar
minha alma é apenas luz de vela
que vento nenhum vai apagar.

Sandra Nunes

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25.2.11


Todas as manhãs, entre o enfiar
do sapato esquerdo e do sapato direito
ela vê a vida desfilar-lhe diante dos olhos.

Por vezes só a custo consegue
calçar o sapato direito.

Judith Herzberg
(trad. Ana Maria Carvalho)

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24.2.11


A canção do amor
será possível sob o vinho da verdade,
sob a morte da lagarta
e, sobretudo,
sob as metáforas de paz e de
guerras.

Seremos entre as vagas e espumas
flores rubras,
pássaro ferido e lagartos
(estranhezas)
palavras sem contornos,
serpentes entre algas de viver
- tão só indagação
silencioso pensar.

Eulália Maria Radtke

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23.2.11


Negra bílis

Há meses que vivo rodeada
por uma substância negra e pegajosa
que invadiu a minha casa. As paredes,
o chão, as janelas e os móveis,
a comida, os livros e a roupa,
o teclado do computador, as plantas,
o telefone… Está tudo impregnado
com esta pez escura, a mesma que respiro
e que me mata pouco a pouco.
Dizem que os venturosos e os néscios
chamam melancolia a esta porcaria
que apodrece o coração e asfixia a alma.

Amalia Bautista

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22.2.11


Ressonância

Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.

Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...

Jairo De Britto

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21.2.11


Medo...

Hoje eu tive medo da morte
da minha falta de sorte
de perder meu consorte
de ficar sem um norte.

Hoje eu tive medo da vida
de me sentir perdida
de ficar esquecida
de não suportar a ferida.

Hoje eu tive medo do dia
de não ter fantasia
de perder a alegria
de não fazer folia.

Hoje eu tive medo da verdade
da minha fragilidade
da minha enfermidade
de não ter felicidade.

Hoje eu tive medo da dor
de não viver um amor
de ter algum dissabor
de não enxergar uma cor.

Hoje eu tive medo de mim
de não me aceitar assim
de não entender um fim
de não querer viver, enfim!

Andrea Lucia

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20.2.11


Esquina de um tempo

Parada à esquina do tempo
Esperei por ti
E não voltaste!
Sentada a um canto da vida
Esperei por ti
E não chegaste!

Entao fui sede de esperança,
Gaivota pousada em terra.
Fui mar que não tem bonança,
Da minha paz, eu fiz guerra.
Fiz da tristeza guarida,
Bordei lençois de saudade.
Fui pássaro de asa ferida,
Fui velha sem ter idade.

Senti fome de te ver,
E mordeu tanto o desejo,
Que à noite, mesmo sem querer,
A sonhar pedi-te um beijo.

E então fiquei
Parada a esquina do tempo
E não voltaste
E então esperei
Sentada à esquina da vida
E não chegaste!

Maria Luisa Baptista

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19.2.11


Mesmo na porta da igreja aqueles pensamentos ainda insistiam: e das vezes em que esperei tua presença; das vezes em que quis teu colo; das vezes em que apenas te quis...?

Nem ao menos as flores reconciliadoras eu recebi.

Mandei que entregassem o buquê ao noivo, dei meia-volta
e parti sem olhar para trás.

Elise

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18.2.11


Ela perguntou-lhe a cor dos seus pés.

Ele respondeu silenciosamente que eram da cor da pedra.

Ela percebeu e sorriu.

Ela gostava de andar descalça, de esfolar os pés e de os gastar,
gostava de tocar o chão rugoso com as suas palmas
e de sentir o caminho de uma outra forma, muito avessa.

Ela gostava de pés que se podiam usar, vestir e calçar,
disse-lhe depois de o seu silêncio terminar.

Ele respingou que os seus pés sabiam amar e podiam ser bebidos como água fresca. Que os seus pés tinham asas escondidas e segredos doridos.

Ela apaixonou-se...

Agripina Roxo

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