"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

11.2.11


Mulher de véu

Embaixo deste véu, caldeira fria.
Por cima dos meus olhos,
doce agonia, escondida na aderência
do momento mágico que desnudo
com olhos de gato pardo perdido.
Penso, o que me faz tão ausente?
Desejo incandescente de mulher-andorinha
acostumada sempre a fazer verão.

Cláudia Villela de Andrade

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10.2.11


Balada de Chang-Kan

Arrastavas os pés quando te foste.
Cresce musgo agora, sobre os traços dos teus pés,
tão profundo que não se pode arrancar.
Antes do tempo, caem às folhas neste outono ventoso.
Pares de borboletas salpicam de amarelo o jardim ocidental.
Entristecem-me. A minha pele perde o tom rosado.

Se regressares através da Garganta do Rio Azul,
por favor, não te esqueças de me avisar.
Para que eu possa ir ao teu encontro.
Tal é a minha ânsia de te abraçar,
que não me metem medo o vento de areia,
nem a distância.

Li Bai

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9.2.11


Às vezes paro à porta com o olhar perdido e habituado ao silêncio, há mais desertos ainda, dias e morte noutros olhos. Com a garganta habituada à sede,com os pés às feridas, saio para a rua e já não há umbrais. Ando um dia, passo outro, acabo uma semana de vidros partidos e tosse mais velha. Hoje parece que sempre choveu sobre mim, e não me importa se a chuva já não se parece ao esquecimento e apenas deixa charcos, paredes mais sujas e fuligem e tristeza nos olhos de rímel, ainda tenho sede e não me importa voltar às coisas más e aos velhos tugúrios à procura de algo que não encontro nem recordo, que costuma principiar por um encontro, talvez por outra palavra e corre o perigo de crispar-se até à forma da folha da faca. Às vezes tudo é tão estranho que não basta continuar a andar.

Alfonso Barrocal
(trad. de Joaquim Manuel Magalhães)

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8.2.11


como caber-te na pele?

coleciono janelas com flores. pétalas. dedos que crescem ao sol, que despontam na primavera. outrora florias. e a tua pele era veludo na minha língua. guardava-te em beijos. os lençóis eram terra. a saliva, húmus. dou-te os meus olhos. hoje. nesta primavera de sol ausente. as mãos vazias de outras mãos. não te preocupes. não vou dizer nada que não tenha já sido dito.não vou rasgar as cartas que deixaste de me escrever.não vou riscar o teu nome das superfícies onde o gravei. o vidro embaciado, a areia da praia, o muro do jardim, o guardanapo, o banco de igreja. a pele. a derme. a epiderme. passavam poucos minutos das dez quando te conheci. agora é um pouco mais tarde. mas cedo ainda para dizer que te esqueci.

contraluz
(desconheço o nome do poeta)

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7.2.11


Completo

Eu gosto dos pecadores, dos alagados e dos intensos.
Dos que respiram o que bebem e dos que amam o que são.
Eu gosto dos que em silêncio devoram o mundo.
Dos que traduzem para a língua do amor os detalhes casuais.
Eu gosto dos que se apaixonam, dos que sentem e dos que vivem.
Eu gosto desses: dos incontrolavelmente emocionais.

Gabriele Fidalgo

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6.2.11


as mãos podem segurar o voo

as mãos podem segurar
as asas um impulso uma queda

as mãos podem rever os poros
e deslizar na pele

s mãos podem revelar o fogo
como se um anjo tocasse a matéria

as mãos podem ser o voo

Gisela Ramos Rosa

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5.2.11


Em minha voz, um veleiro traçou um rito de espantos,
um itinerário de espumas em despedida. Nas origens
do mundo, o vento batizou o meu nome, imprimiu,
em minha pele, um sol sem margens, um dia sem muros.
Na manhã em que nasci, um bando de garças
iluminou o profundo silêncio dos milagres.

Alexandre Bonafim

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4.2.11


Casa vazia

Essa casa, onde atrás de cada porta fechada
me descobrias parques, jardins, nascentes...
um imenso espaço risonho aberto à floração da luz,
essa casa onde eu era contigo um curso de água
ou um desejo de vôo,
essa casa está vazia.

Eugénia de Vasconcelos

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3.2.11


Decote

Se eu tocasse
um instrumento
saxofone
um movimento de jazz
talvez
acompanharia
coadjuvante
as variações
dos meus olhos
descendo e subindo
cabelos ombros e fendas
por isto toquei suas costas
que ouviram
da minha mão
aquele solo
que me descompôs
não sei de partituras
muito menos de cifras
mas tenho nos meus dedos
cinco notas inacabadas
um dia vou soprá-las
no seu corpo
será
a um só tempo
minha iniciação e sintonia.

Al-Chaer

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2.2.11


...quando estás frente a mim, os teus olhos falam-me das coisas, de todas as coisas que flutuam entre nós, à deriva. e eu, quando os ouço, sou como um corpo náufrago na terrível dimensão do mar onde, em cada barco afundado, há uma morte silenciosa ou o prenúncio de um amor ainda por acontecer.

(desconheço autoria)

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1.2.11


Dois mundos - e eu venho do outro

Atrás e dentro
estradas ensopadas
atrás e dentro
névoa e laceração
para lá do caos e da razão
portas minúsculas e duras cortinas de couro,
mundo selado ao mundo, compenetrado no mundo,
inenarrável desconhecido ao mundo,
pelo sopro divino
um instante suscitado,
pelo sopro divino
logo cancelado,
espera o Lume escondido, o sepulto Sol,
a portentosa Flor.

Dois mundos - eu venho do outro.
(...)

Cristina Campo

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31.1.11


Não sei como chegar à tua casa perdida,
a tua casa emaranhada nas antenas
como um trapo miserável, esquecido.

Não sei como entrar no teu bairro na tua vida,
a tua vida de puzzles e de palmeiras,
o teu bairro de lata e de armaduras.

Não sei como ir da minha vida à tua rua,
a tua rua cheia de perguntas,
a minha vida estranha sem respostas.
Mas chegarei. Porque tu me chamas.

Belén Sánchez
(trad. de Ana Teixeira)

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30.1.11


Se a noite caísse agora desenhando a sua luz

Se a noite caísse agora desenhando a sua luz
escassa / dissimulando a tristeza
das mãos / um fósforo
dançasse como um relâmpago
indiscritível no olhar / perdido
na dor do silêncio / os
pés alargassem o horizonte até à pureza
inconcebível do sofrimento / se
a boca fosse um íman
ou um archote punindo o vinco das convicções
na pele coberta de sal
as aves debicassem as infinitas
trevas do teu nome / do nome espesso
da escuridão
uma árvore, apenas uma árvore, bastaria
para te salvar.

Jorge Velhote

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29.1.11


Vendado

Rápidas mãos frias
retiram uma a uma
as vendas da sombra
Abro os olhos
Ainda estou vivo
No centro
de uma ferida ainda fresca.

Octavio Paz

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28.1.11


Cofre de silêncios

Guardo um cofre,
Nem de ouro , nem de cobre.
Um cofre.

Um relicário de silêncios que freqüento,
Que não digo, me permito a liberdade,
Um alento, calo o que no acaso sinto.
E medito, sopro e vibro, cordas que tangem,
Descortino...de verdade in-possível,
Como a saúde possível no limitado
Tempo e espaço que tenho, sou e faço
A sete chaves.
De silêncios, desatinos,
Destinação a caminho,
Tudo e todos cabem, sentem,
No possível.
Nada é fácil...
Compreensível,
Sempre...

GaiÔ

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27.1.11


Partilha de cores

As sardas imperfeitas que me pintam o rosto sem esquadria certa vão salpicar-te as formas quando me afundar em ti, neste crescente desejo de te beijar por inteiro, em jeito de flor campestre com o pólen ao vento onde só poisa quem nela vê mais do que uma cor.

cferreirapedro

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26.1.11


De cinta era fina, e no andar, um tudo-nada flexuoso, punha um dengue tão involuntário que se quedava em requebro natural, promissor de temperamento. Pertencia em suma à classe de mulheres que, a começar pelo corpo e a acabar pela alma, se tornam amantes perfeitas. Lianças com elas jamais se rompem. Quem as ama, ama-as até à morte. Quando desaparecem, deixam inextinguível braseiro. É que deram com a sua carne a beber o filtro que não perdoa, onde se concentraram meiguice e enliçamento animal, princípios sumos da voluptuosidade criadora.

Aquilino Ribeiro

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