"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

14.1.11


Vesperal

Se eu te pintasse, posta na tardinha,
pintava-te num fundo cor de olaia,
- na mão suspensa, nessa mão que é minha,
o lenço fino acompanhando a saia!

Vejo-te assim, ó asa de andorinha,
em ar de infanta que perdeu a aia,
envolta numa luz que te acarinha,
- na luz que desfalece e que desmaia!

Com teu encanto os dias me adamasques,
linda menina ingénua de Velázquez,
a flutuar num mar de seda e renda!

Deixa cair dos lábios de medronho
a perfumada voz do nosso sonho,
mas tão baixinho que só eu entenda!

António Maria de Sousa Sardinha

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13.1.11


Sonhar de sonhar

Gostaria de sair caminhando
por aí,
entre notas musicais,
sozinha, olhos, fechados, sonhando...
em sonhar cada vez mais!...
Gostaria de, no meio da escala,
encontrar-te assim, de repente,
e que as notas
te dissessem tudo o que sente
essa caixa de rimas sem jeito,
da forma precisa de um coração,
que me bate louca dentro do peito!
E que, depois de tudo te falar,
cantasse, numa linda canção,
todo esse acorde de amores
que guardei para te dar!...

Mariza Fontes de Almeida

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12.1.11


O dia inteiro a chuva não me deixa.
Vai embora, eu lhe digo asperamente.
Ela dá dois passos para trás, depois, devota,
em silêncio me segue como uma menina.

Bella Akhátovna Akhmadúlina
(trad. de Lauro Machado Coelho)

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11.1.11


Sol de Janeiro

Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na luz do sol de Janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A luz
do sol em Janeiro.

Assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei
tanto que o vento lhe desse oportunidade)

O nosso amor é Janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que está sempre lá.

João Luís Barreto Guimarães

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10.1.11


Visita

Criado-mudo:
Bíblia e
rosário de contas.

Na cama, ao lado
a nudez
sem nome.

Virna Teixeira

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9.1.11


ando para escrever poemas da minha infância,
de quando eu tinha um dígito de idade e as
coisas eram tão grandes que os meus pés não
alcançavam o chão. lembro-me de um baloiço
na casa dos meus avós e de uma pedra que
guardava os meus segredos no monte. a minha
irmã sentava-se à chinês e contava um a um
os dias. hoje, nesses lugares, estão os muros,
os prédios, as portas com fechaduras magnéticas,
barreiras que o tempo construiu, de tal ordem que
se não fosse o coração existir, eu nunca tinha
sido pequenina. faz-me falta a inocência,
mas faz mais não pensar nela.

alice macedo campos

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8.1.11


Despida

Olho por sobre o muro
cinza esverdeado
sei do perigo imediato
e ainda assim
mantenho a postura
nenhuma fé
ou candura
nenhuma sina
ou rima
tudo tão pobre
podre
amargo e doce
olho a parede envelhecida
sei da transformação
corpo coberto de penas
sinto murcharem as mãos
olho por entre as asas
a sensação de alívio
já não sou fêmea
sou ave
disposta a qualquer
desafio
olho o V que se forma
vejo as garras afiadas
esqueço os pés
pernas e braços
sou livre agora

voo no espaço.

Dhênova

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7.1.11


Minha Maria também chovia

Tem horas que viro água.
E eu que já me sabia Maria,
descubro-me agora chuvosíssima.
Tudo em mim escoa...
Medos, cansaço, susto
e o que mais da vida for
vira correnteza desesperada,
irrepresável.
Feito um rio que outra coisa não pode ser
além de violentas águas correndo pro mar.

Alê

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6.1.11


há, no rosto da mulher,
um lago de água escura
com um poço de areia ao fundo.
diz o poema que,
quem beber desta água,
se perde no deserto.
a pele é um tecido fino sob os dedos.
as pessoas,
ao primeiro toque dizem que é de seda,
mas não sabem que é ouro verdadeiro,
e vão de um beijo ao outro com muita pressa.
as pessoas não sabem quase nada.
e o poema cresce como um cabelo
na zona púbica.

alice macedo campos

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5.1.11


Não te compreender não me fez te amar menos.
Completo as palavras cruzadas com a ajuda dos resultados.

Leio um livro que não é lançamento.
Roubo a cerveja separada para a visita.
Assisto a um filme no escuro.
Telefono sem pretexto.
Os bolsos do meu casaco formam meu diário.
Não sofro de pudor e desfalco minha pobreza.
Esforço-me agora para desaprender.

Fabricio Carpinejar

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4.1.11


Criancices

Só comprava picolé de limão. Mesmo preferindo o de uva. Achava que era muitomuito esperta por conseguir ver no branco-transparente-fosco, se o palito era premiado, antes de terminar de comer. Vantagem nenhuma. Porque já tinha comprado e aberto a embalagem de qualquer jeito. Mas, me sentia sabida, mesmo trocando o doce da uva pelo azedo do limão.

Briza Mulatinho

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3.1.11


Parto hoje à tarde na carreira 10
está decidido. Sem olhar para trás
sem me despedir sequer da minha rua.

Parto hoje à tarde na caligrafia firme
do recado que deixo na porta do quarto
à espera de dizer-te o que já sabes.

Vou procurar-me.
Talvez um dia volte para jantar.

Rui de Morais

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2.1.11


Soneto Dominical

Já não me aflige mais a pasmaceira
do domingo. Meus filhos mundo afora
e eu em casa pensando. A vida inteira
ensina-me a ser só. Não é agora
que eu hei-de reclamar. Segunda-feira
há de chegar. Há de chegar a hora
em que se apague a chama derradeira;
em que a vida me diga: vá-se embora.

Tudo tão natural. A árvore morta
já não abriga pássaros nos ramos
que pouco a pouco, vão caindo ao chão.
Amei mal as mulheres. Mais amamos
nós mesmos, nosso ofício. Pouco importa
a vida; este domingo; a solidão.

Ildásio Tavares

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1.1.11


O vestido azul

Demorou a preparar-se. Banho, cremes, maquilhagem. Ia olhando o vestido azul pousado na cama. Não resistira. Chamava por ela na montra da loja. Olhou-o de todos os ângulos, pegou-lhe com cuidado e vestiu-o. Perfeito no seu corpo. Como se uma costureira o tivesse feito por medida.
Olhou-se no espelho. Gastara quase todo o dinheiro que tinha mas estava pronta para a sua grande noite. Sentou-se e esperou. Ainda não era a hora certa. Esperou mais e mais. O relógio, por fim, marcou a meia-noite.
Pôs a música a tocar, foi buscar o champanhe e dançou, dançou, dançou. Abriu prendas que comprara e fez a festa até adormecer, linda no seu vestido azul.
Estava só naquele quarto minúsculo, numa cidade estranha. Tinha vinte anos.

Alice Daniel

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31.12.10


Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos nós que invadimos calendários e arrancamos dias, somos nós que construímos relógios e giramos os seus ponteiros enrugados, somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas em nossos bolsos vazios.

Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa, somos nós que caminhamos para trás.

Thomas G. Marasco

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30.12.10


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.

Amadeu Baptista

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29.12.10


faz hoje oito dias passei a tarde no quarto
arrumando sentimentos (telefonemas
demorados caixotes de canto cheiíssimos)

o que trouxe a chave de casa as portas
do primeiro beijo. no outono caem as
folhas da estante e os livros ficam nus

solto uma fotografia entre o armário e
a parede investindo na surpresa de te
encontrar por acaso na próxima arrumação
do quarto. traço círculos a vermelho

no calendário de parede (sem pressa
de consultar os riscos dentro da mão)
os gatos sempre se deitam sobre o papel
mais necessário

João Luís Barreto Guimarães

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