"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

3.1.11


Parto hoje à tarde na carreira 10
está decidido. Sem olhar para trás
sem me despedir sequer da minha rua.

Parto hoje à tarde na caligrafia firme
do recado que deixo na porta do quarto
à espera de dizer-te o que já sabes.

Vou procurar-me.
Talvez um dia volte para jantar.

Rui de Morais

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2.1.11


Soneto Dominical

Já não me aflige mais a pasmaceira
do domingo. Meus filhos mundo afora
e eu em casa pensando. A vida inteira
ensina-me a ser só. Não é agora
que eu hei-de reclamar. Segunda-feira
há de chegar. Há de chegar a hora
em que se apague a chama derradeira;
em que a vida me diga: vá-se embora.

Tudo tão natural. A árvore morta
já não abriga pássaros nos ramos
que pouco a pouco, vão caindo ao chão.
Amei mal as mulheres. Mais amamos
nós mesmos, nosso ofício. Pouco importa
a vida; este domingo; a solidão.

Ildásio Tavares

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1.1.11


O vestido azul

Demorou a preparar-se. Banho, cremes, maquilhagem. Ia olhando o vestido azul pousado na cama. Não resistira. Chamava por ela na montra da loja. Olhou-o de todos os ângulos, pegou-lhe com cuidado e vestiu-o. Perfeito no seu corpo. Como se uma costureira o tivesse feito por medida.
Olhou-se no espelho. Gastara quase todo o dinheiro que tinha mas estava pronta para a sua grande noite. Sentou-se e esperou. Ainda não era a hora certa. Esperou mais e mais. O relógio, por fim, marcou a meia-noite.
Pôs a música a tocar, foi buscar o champanhe e dançou, dançou, dançou. Abriu prendas que comprara e fez a festa até adormecer, linda no seu vestido azul.
Estava só naquele quarto minúsculo, numa cidade estranha. Tinha vinte anos.

Alice Daniel

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31.12.10


Às vezes penso que não é o tempo que passa, somos nós que invadimos calendários e arrancamos dias, somos nós que construímos relógios e giramos os seus ponteiros enrugados, somos nós que inventamos minutos e carregamos horas dilaceradas em nossos bolsos vazios.

Às vezes me ocorre que não é o tempo que passa, somos nós que caminhamos para trás.

Thomas G. Marasco

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30.12.10


Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.

Amadeu Baptista

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29.12.10


faz hoje oito dias passei a tarde no quarto
arrumando sentimentos (telefonemas
demorados caixotes de canto cheiíssimos)

o que trouxe a chave de casa as portas
do primeiro beijo. no outono caem as
folhas da estante e os livros ficam nus

solto uma fotografia entre o armário e
a parede investindo na surpresa de te
encontrar por acaso na próxima arrumação
do quarto. traço círculos a vermelho

no calendário de parede (sem pressa
de consultar os riscos dentro da mão)
os gatos sempre se deitam sobre o papel
mais necessário

João Luís Barreto Guimarães

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28.12.10


Sonhando...

Tarde deliciosamente fresca...
Iluminada em azul-clarinho, como um presente.

Tarde com gosto de tempo, onde lembranças afloram.

Tarde onde se pode, num devaneio louco,
olhar as nuvens passeando,
olhar a vida escorrendo pela ladeira.

Tarde onde tarde arde a alma,
onde tudo aflora, onde a canção da vida chora,
onde tudo implora, onde sua lembrança me namora.

Tarde onde nunca se faz tarde, onde o momento é agora.

Será realmente tarde dentro de mim essa hora?

Matilda Penna

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27.12.10


Da meia-idade

A rapariga na casa de chá
não é tão bonita como era,
o agosto já a gastara.
Já não sobe as escadas tão depressa;
sim, também ela se aproxima da meia-idade,
e o brilho da juventude que ela espalhava sobre nós
quando nos trazia os bolos secos
já não se espalhará mais sobre nós.
Também ela se aproxima da meia-idade

Ezra Pound
(trad. de José Palla e Carmo)

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26.12.10


Ela gostava de tudo aquilo: da mesa da cozinha, dos pequenos bancos de madeira, das árvores que conseguia ver da janela, de uma certa pureza do ar que a obrigava a renunciar aos prazeres de adulto: aquele tempo tinha uma marca infantil. Crescera naquela casa. Mas agora acabou: estava já crescida. Como uma investigação que termina, ela sentia que chegara ao fim. Já não cresço, murmura. Não havia necessidade de não ser sincera: estava sozinha, podia dizer a verdade.

Gonçalo M. Tavares

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25.12.10


Sotão

Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.

Fiama Hasse Pais Brandão

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24.12.10


Sempre oscilando... eternas ondulações

Alma em carne, carne em alma.
Luz opaca; cor-de-terra; vento nordeste; por-do-sol; muitas vidas em uma só.
Nada que possa ser de grandes feitos; mas nada que possa passar desapercebido.
A simplicidade de uma bordadeira nordestina e uma tela de Modigliani.
Um livro de cordel e um poema de Cecília Meireles.
Um deserto silencioso e o eco dos buburinhos infantis.
Uma lenda e uma dura realidade.
Um pé nas nuvens e outro na terra firme.
Da fantasia e o dia-a-dia ordenado.
Da doçura juvenil e aos momentos de um mar revolto.
Sempre oscilando... eternas ondulações.

Bernadete Soriano

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23.12.10


(...) Dormes na minha insónia como o aroma
entre os tendões da madeira fria.
És uma faca cravada na minha vida secreta.
E como estrelas duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.

Herberto Helder

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22.12.10


A Música

A música
acorda
os instantes
amordaçados
pelo silêncio.

A música
ressuscita
teus antepassados
presos
encarcerados
em pedregosa
ausência.

Os avós
de teu anonimato
os pais
de teu desterro
despertam
a vertigem
de astros
alucinantes
a embriaguez
de ocasos inéditos.

O canto
perpetua
a sina
de teu sangue:
memória
esbatida
pelo tropel
das cinzas.

Alexandre Bonafim

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21.12.10


Velhice

Chega o vento
e leva tudo;
tudo vai tristonho e mudo
como a água vai pro mar...

Passa o vento
passa o tempo
e as lembranças do passado
vão ficando
vão mofando
no seu armário fechado...

Leva, vento
leva tudo, sem lamento:
-flores secas, cartas relidas
livros e fotografias
cartões e outros achados,
velhos sonhos desta vida
que já estão amarelados.

Chega o vento e leva tudo
tudo que já não pode ficar...
vai tudo tristonho e mudo
como a água vai pro mar!

Zoraida H. Guimarães

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20.12.10


Alegria pura e tranquila

Como todos os anos, tudo se cobre de neve,
E eu, bêbada, ponho flores de ameixeira nos cabelos.
E as despetalo, uma a uma, e nada me sossega,
Já ganhei, sobre meu vestido, lágrimas claras!

Este ano, neste canto perdido entre o céu e a terra,
Já meus cabelos embranquecem nas têmporas. Tristeza!
Vi a destruição que o vento causou durante a noite:
Difícil encontrar, agora, flores de ameixa ainda belas!

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli e Wu Di)

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19.12.10


Coloral

Quando ele foi embora, ela tratou logo de tirar todas as flores e cores da casa. Pintou todas as paredes de bege.
Aquelas flores só faziam cheirar a cemitério. Ficavam sobre o aparador, estáticas e cabisbaixas, velando toda a energia que, com ele, tinha se esvaído.
A casa ficava sóbria assim, pálida. Ao contrário dela, entregue às alucinações, às pontas de viagens inacabadas e a um alcoolismo anestesiador.

Coisas muito coloridas têm cara de criança, ou de prostituta.
O estranho era que, mesmo com tudo bege tão discreto, longe dele ela estava se sentindo um pouco dos dois.

Samantha Abreu

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18.12.10



Tu, Leitor

Pergunto-me como te vais sentir
quando descobrires
que fui eu que escrevi isto em vez de ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede com heras,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, dá a volta,
morde o lábio e arranca a página,
mas, escuta - era só uma questão de tempo

até que um de nós casualmente
reparasse nas velas apagadas
no relógio murmurando na parede.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora –

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo –

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostado algures na entrada de uma casa
junto a umas hortênsias azuis lendo isto.

Billy Collins
(trad. de João Luís Barreto Guimarães)

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