"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

14.12.10


Paisagem com frutas

Duas peras sobre a mesa
esperam a tua fome.
O dia é verde
e o vento tem cores provisórias.
Sobre o muro
um pássaro mudo
de olhar escuro
perscruta a tua sombra
Ele sabe
que ninguém sabe
em que azul
ocultas
teu absurdo.

Maria Esther Maciel

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13.12.10


Dúvida

Eu corro atrás da memória
De certas coisas passadas
Como de um conto de fadas,
De uma velha, velha história...

Tão longe do que hoje sou
Que nem sei se quem recorda
Foi aquele que as passou,
Ou se apenas as sonhou
E agora, súbito, acorda.

Francisco Bugalho

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12.12.10


Resumo

Hoje
não choveu estrelas
nem
pétalas de prosa,
hoje
fez-se brisa
onde era brasa
e restou
uma poesia rasa,
hoje
eu esqueci as asas
(...) em casa.

Múcio Góes

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11.12.10


Tarde sangrada

Era
uma flauta tocando
ave-Marias na tarde,

um gesto pincelado
em forma de saudade,

Mar sangrado
em secretos movimentos

Um desejo navegado
pelas margens do teu corpo

Era
um vazio ou um grito
ou
um insondável encanto

ou
um cristal de pranto
pelo abraço não dado

Luiza Caetano

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10.12.10


Sobre pontes que voam

Vagu
ei s
obre
águ
as
perd
idas,

e des
cobri
que
já tinh
am s
ido

as p
artes
que
sem
pre
bus
que
i

qu
ando
ando
busc
ando
o in
teiro

desc
ubro

o quan
to me
frag
men
tei
.
.
.

Mauro Veras

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9.12.10


Pedaços

Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

Vera Lúcia Oliveira

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8.12.10


abismo...

nunca falamos muito. (acho que nunca falamos nada) e não sinto necessidade de começar agora. o que poderia dizer? existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos do silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras...

Antonio Lobo Antunes

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7.12.10


na saliva no papel
no eclipse em todas as linhas
em todas as cores em todas as jarras
no meu peito fora, dentro
no tinteiro na dificuldade de escrever na maravilha dos meus olhos, nas últimas luas do sol (mas o sol não tem luas) em tudo e dizer em tudo é estúpido e magnífico Diego na minha urina Diego na minha boca no meu coração na minha loucura no meu sonho no mata-borrão na ponta da caneta nos lápis nas paisagens na alimentação no metal na imaginação nas doenças nas montras nas suas astúcias nos seus olhos na sua boca nas suas mentiras.

frida kahlo

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6.12.10


Gasto-me à espera
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sobre os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

Luiza Neto Jorge

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5.12.10


Ausência em mármore

Ausências sonâmbulas
madrigais que se acendem
como carícias de mar.

Respirações amarfinadas
submersas em lago marmóreo
como superfícies gélidas.

Semblantes ausentes
como aurora interrompida
pelas venezianas da janela.

Segredos em sangue
como corpos estendidos,
como sílabas de fogo.

Pássaros disformes, teu olhar
como presenças quebradas,
como algo que se acende
E apaga.

Karoline Serpa

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4.12.10


Orquídea em flor

Pra que lado sopra o vento?
Importa saber?
Sei apenas
Que sopra em meu rosto

É uma brisa,
arejado frescor
de orquídea em flor

Não posso mudar
o sentido do amor
que pulsa em meu peito
em todos os pulsos
de minhas veias
e me dão impulso
pra rasgar as teias

E eu gosto
desse gosto
de agosto
em outubro, novembro, fevereiro
o ano todo resumido
num só momento, por inteiro.

Helio Jenné

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3.12.10


Canção da moça de dezembro

A moça dança comigo
nessa noite de dezembro.
Na sala onde giramos
se alguém mais há não me lembro.

O ondear da moça ondeia
uma melodia ainda
mais doce que a da vitrola
— e uma alegria vinda

dessa doçura me envolve.
Cabe bem no meu abraço
esse perfume com que
vou girando e em que me abraso

em meus quinze anos (a moça
terá, talvez, dezessete
ou dezoito). Como a valsa,
a vida o melhor promete.

E já oferta: esse corpo
a cada instante mais perto.
Ao qual responde meu corpo,
como nunca antes desperto.

E a moça vai-me queimando
em seu hálito, afogando-me
nos cabelos, e nos olhos
luminosos siderando-me!

E eis que, dançando, saímos
além da sala e do tempo.
E dançando prosseguimos
sempre que sopra dezembro,

nos mesmos giros suaves,
nos mesmos ledos enganos:
eu, o antigo rapaz,
e a moça, morta há treze anos.

Ruy Espinheira Filho

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2.12.10


Nantucket

Flores na janela roxo
- Claro e amarelas

alteradas por cortinas brancas
— Cheiro a limpo

— Sol do entardecer —
Na bandeja de vidro

um jarro de vidro, o copo
voltado para baixo, e junto ao copo

uma chave

— E o branco leito imaculado

William Carlos Williams
(trad. de José Agostinho Baptista)

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1.12.10


Queima o sangue um fogo de desejo,
de desejo a alma é ferida,
dá-me os teus lábios, o teu beijo
é o meu vinho e minha mirra.

Reclina para mim a cabeça
ternamente, faz que eu durma
sereno até que sopre um dia alegre
e se dissipe a névoa nocturna.

A. Púchkin

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30.11.10


se sentes que não existes

se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca

se tu não existes,
a tua solidão muito menos

Brenda Ascoz

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29.11.10


Livro de gravuras

A manhã acordou fresca
como a boca de um cântaro poroso.

Como as mulheres de perfil harmonioso
dão à paisagem uma nota pitoresca
com o seu cântaro poroso,
com o seu cântico choroso,
com a sua alma zingaresca!

Onestaldo de Pennafort

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28.11.10


Voz

Não do corpo mais do vulto
vem a voz que tudo evoca

Numa hora e dez minutos
mil e uma noites ocorrem

Não da boca mais do fundo
a voz que tudo convoca

Numa hora e dez minutos
mil e uma noites ocorrem

David Mourão Ferreira

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