"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

13.11.10


Não quero mais

Estourei minh'alma nos corais
Queria o mar, não quero mais...

Beijos de sal em alto mar
Queria velas pra navegar

Paixões pagãs no areal
Queria o bem, queria o mal

Beber o mar em aguardente
Queria mais, tão de repente

Estourei minha vida lá no cais
Queria viver, não quero mais...

Cefas Carvalho

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12.11.10

Infelizes

o que foi feito de amália
a bela de olhos lânguidos
e de tristeza entranhada
cujos passos a levaram
para a sombra de antônio
um homem de gestos rentes
e sorriso ácido?

o que foi feito de amélia
aquela mulher desverdade
que passava suas tardes
sem dizer uma palavra
e que durante o trabalho
deixava em tudo o rastro
da sua poeira amarga?

o que foi feito de emília
da sua pálida pele
quando foi abandonada
tão quieta tão sem ânimo
até que veio um pássaro
e levou-a para o céu
para a suíte dos santos?

o que foi feito de ordália
adélia odília odete
ana

o que foi feito de ângela?

Líria Porto

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11.11.10

Antípoda

Poupem-me a transparência das coisas,
Roupa lavada, sol, danças de roda.
Prefiro reflexos, recordações,
Disfarces mortiços de camaleão.

Não estou. Nenhuma veia em mim murmura.
Vivo nas sombras, nome não conheço.
Deixem-se ressequir na invernia,
Longe das fortes bátegas do verão.

Os temporais de luz, não os suporto.
Não me olhem. Evitem-me essa dor.
Ó câmara. Imagem do bem-estar.
Quero-me antípoda desta exposição.

Gerrit Komrij
(trad. de Fernando Venâncio)

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10.11.10


de.gelo

fechei os olhos para ver
a cor dos sons que pairam
sobre a pele fria
do corpo.
há neles um incêndio inquieto
chama hesitante
onde as mãos degelam
a capa branca
da solidão.

Alice Daniel

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9.11.10

Às cinco

que se transformasse
em tarde morna
o que às cinco
não me vem de partilha

que fechasse o portão, a tramela
desligasse a luz, o gás, o fio
que virasse a página
o que de mim se vai

que empilhasse a roupa suja
renovasse o sabonete
e lavasse friamente as mãos

que deixasse com o café esfriar
o conflito soluçante do fim
e me recitasse o adeus
assim, mornamente

- deveria, mas não o fez

Beth Almeida

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8.11.10


foi só por ti que me fiz da cor do musgo
em ti me rendi -
nada ficou à sombra dos lábios.
foste o flanco o bordo o sentido das nuvens
a ondulação do grito.
em ti fiz a tempestade - devolve-me o abrigo.

Isabel Mendes Ferreira

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7.11.10

da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como se fosse a origem da sede
e sossega-se contra o peito da alvorada

da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida

da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove morte contra os vidros
por dentro como soa o fim

Pedro Sena-Lino

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6.11.10

vem buscar-me...
atravessa o livro que deixei aberto no chão...
que eu tenho frio e não sei se encontro asas para regressar
...
preciso da tua retina aguada...
da sinceridade com que falas às cinzas azuis dos sonhos
...
sentiste o meu grito?
venceu o olvido vazio que nos separa?...

Daniel Gonçalves

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5.11.10

Não sei

à procura das chaves do carro, a revolver a mala. na ponta da caneta e no azul do tinteiro. a arrumar toalhas e lençóis no armário. a pensar nas pessoas que fazem palavras cruzadas, jogam sudoku. ontem. na chama da vela sobre a peanha. a passear na linha de um verso e a descer por um poema, a descer no elevador, a descer o Chiado. na chávena do leite quente, na porta do microondas. nos headphones da Fnac. hoje. nas camisas e gravatas nas prateleiras das lojas. na água que corre das torneiras de casa. no tempero de sal.

não sei de um eu onde não estejas.

Eugénia de Vasconcellos

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4.11.10

Naveguei-te

Entornei-me de nudez e dei-te o flanco as costas a pele roubei-te o livro onde rasgavas memórias trouxe-te suspenso e quando a noite amanheceu nos teus cabelos naveguei-te com a força do gesto fundo.

Isabel Mendes Ferreira

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3.11.10

Não digas que eu não estava à janela,
que não foi para ti o que não viste.
Há tanta coisa que não sabes, não digas.
Um dia ver-me-ás à janela de ontem
com a roupa que hei-de vestir amanhã.
Até lá pensa que me sonhaste. Nem eu mesma sei
o que fiz nesse dia. Mas a janela guarda os meus dedos
como tu me guardas. O tempo é uma invenção recente.
Era uma vez essa mulher que viste. Retira o vidro,
a moldura, e não te esqueças de abrir o horizonte.

Rosa Alice Branco

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2.11.10



Percebo novos sinais do tempo
diante do espelho mudo.
Olho incerta a nova ruga,
torcendo que ela não esteja
mas está.

Na tentativa de manter-me sã
encho a cabeça de lembranças.
Histórias muitas que eu não sei contar
e se acumulam
cristalinas
entre um fio e outro de cabelo branco.

Espelhos e paredes não me fazem falta
mas eu moro só.

Lilian Dalledone

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1.11.10

desilusão

a desilusão entrou
na porta trancada

a duplicidade irrompeu,
entrou pela noite
inóspita de palavras brancas

escapou a saudade
dos pedaços de uma aventura
caídos de um corpo

o mar, chegou até mim
num silêncio impenetrável
e reconheci-te na sombra,
ao anoitecer

murmúrios envolventes
de promessas e desejos
um amo-te!
dito a cada instante
em horas somadas, perdidas
de noites seguidas

a desilusão entrou
e abriu a porta...

lena maltez

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31.10.10

Enxoval

jamais conheci esse homem
que com certeza me dará
a parte de sua vida — a mais doce
um disco de Debussy
gomos de mexerica
beijos na boca seu sexo sua lívida
expressão de amor

jamais conheci esse homem
com quem terei um filho um cachorro um aparelho de chá
a louca intimidade das dores de garganta

(e por jamais tê-lo conhecido
é que me preparo
no ritual patético das moças
separo um vidrilho
um corpo debruado em cio
a maternidade branca das louças)

Déborah de Paula Souza

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30.10.10

A canção do tédio

Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
- É o tédio.

Guilherme de Almeida

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29.10.10

Espumante

enquanto minha bebida espumar
tomo-a, e sorvo você
enquanto algo meio sóbrio me significar
te tomo, e dela sorvo o líquido borbulhante
não me inspiro
nem aspiro a ser sua dona
enquanto bebo e engulo sua chama
você me sorve
e isso para mim
basta por enquanto.

Lara Amaral

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28.10.10

Lembrança da flauta tocada no Terraço de Fênix

No porta-incenso as cinzas já estão frias.
E a colcha púrpura é um mar revolto sobre a minha cama.
Eu me levanto sem o mínimo desejo de me pentear,
O toucador está coberto de pó.
As cortinas fechadas, banhadas pelo sol que já vai alto,
Têm medo de reavivar a minha dor
Tantas coisas quero dizer, mas aqui fico, muda!
Emagreço, não pelo vinho
Nem pela tristeza do outono.

Acabou-se, tudo acabou,
Dessa vez ele se foi para sempre.
Mil vezes, dez mil vezes pedi,
Mas não consegui impedir que partisse.
Foste para Wuling, longe de meus carinhos.
O pavilhão perdido na neblina.
Só água sob minha janela testemunha minha tristeza,
E cada vez que me volto,
Na direção do caminho que por onde partiste,
Aumenta minha tristeza.

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli e Wu Di)

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