"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

3.11.10

Não digas que eu não estava à janela,
que não foi para ti o que não viste.
Há tanta coisa que não sabes, não digas.
Um dia ver-me-ás à janela de ontem
com a roupa que hei-de vestir amanhã.
Até lá pensa que me sonhaste. Nem eu mesma sei
o que fiz nesse dia. Mas a janela guarda os meus dedos
como tu me guardas. O tempo é uma invenção recente.
Era uma vez essa mulher que viste. Retira o vidro,
a moldura, e não te esqueças de abrir o horizonte.

Rosa Alice Branco

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2.11.10



Percebo novos sinais do tempo
diante do espelho mudo.
Olho incerta a nova ruga,
torcendo que ela não esteja
mas está.

Na tentativa de manter-me sã
encho a cabeça de lembranças.
Histórias muitas que eu não sei contar
e se acumulam
cristalinas
entre um fio e outro de cabelo branco.

Espelhos e paredes não me fazem falta
mas eu moro só.

Lilian Dalledone

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1.11.10

desilusão

a desilusão entrou
na porta trancada

a duplicidade irrompeu,
entrou pela noite
inóspita de palavras brancas

escapou a saudade
dos pedaços de uma aventura
caídos de um corpo

o mar, chegou até mim
num silêncio impenetrável
e reconheci-te na sombra,
ao anoitecer

murmúrios envolventes
de promessas e desejos
um amo-te!
dito a cada instante
em horas somadas, perdidas
de noites seguidas

a desilusão entrou
e abriu a porta...

lena maltez

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31.10.10

Enxoval

jamais conheci esse homem
que com certeza me dará
a parte de sua vida — a mais doce
um disco de Debussy
gomos de mexerica
beijos na boca seu sexo sua lívida
expressão de amor

jamais conheci esse homem
com quem terei um filho um cachorro um aparelho de chá
a louca intimidade das dores de garganta

(e por jamais tê-lo conhecido
é que me preparo
no ritual patético das moças
separo um vidrilho
um corpo debruado em cio
a maternidade branca das louças)

Déborah de Paula Souza

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30.10.10

A canção do tédio

Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
- É o tédio.

Guilherme de Almeida

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29.10.10

Espumante

enquanto minha bebida espumar
tomo-a, e sorvo você
enquanto algo meio sóbrio me significar
te tomo, e dela sorvo o líquido borbulhante
não me inspiro
nem aspiro a ser sua dona
enquanto bebo e engulo sua chama
você me sorve
e isso para mim
basta por enquanto.

Lara Amaral

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28.10.10

Lembrança da flauta tocada no Terraço de Fênix

No porta-incenso as cinzas já estão frias.
E a colcha púrpura é um mar revolto sobre a minha cama.
Eu me levanto sem o mínimo desejo de me pentear,
O toucador está coberto de pó.
As cortinas fechadas, banhadas pelo sol que já vai alto,
Têm medo de reavivar a minha dor
Tantas coisas quero dizer, mas aqui fico, muda!
Emagreço, não pelo vinho
Nem pela tristeza do outono.

Acabou-se, tudo acabou,
Dessa vez ele se foi para sempre.
Mil vezes, dez mil vezes pedi,
Mas não consegui impedir que partisse.
Foste para Wuling, longe de meus carinhos.
O pavilhão perdido na neblina.
Só água sob minha janela testemunha minha tristeza,
E cada vez que me volto,
Na direção do caminho que por onde partiste,
Aumenta minha tristeza.

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli e Wu Di)

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27.10.10

não sou mulher de migalhas...
por fim,
o mesmo fim que nunca basta,
eu poderia retornar ao leito. refazer
o ciclo; entretanto, estanquei
geral. guarde o troféu na memória de lampejos
e na garganta seca,
minha última lembrança:
o gole da eterna permanência -
a essência de meus cacos.

Lúcia Gönczy

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26.10.10

Gasto-me à espera
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sobre os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

Luiza Neto Jorge

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25.10.10


Não se preocupa em despir o vestido
... em cada dia que passa se alheia
Do bem e do mal.
Fica assim a olhar o chão...

Ou fica sentada...
Numa cadeira, sentada, a gemer de mansinho,...
Ou sorri vagamente para o espaço vazio -
O espaço vazio que é o seu próprio rosto -
Onde nada veio substituir o lugar
Dos gemidos roucos e intensos...

Djuna Barnes

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24.10.10

Camadas

Tenho muitas camadas
Uma camada de livros, outras de sapatos
Tem a camada de plantas
Tenho camadas de cosméticos e adereços
Uma camada de nomes e coisas que vejo
Tudo ordenado ao meu redor
Em forma de corpo
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.

Viviane Mosé

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23.10.10

Revelação

Hoje só fotografei árvores,
Dez, cem, mil.
Vou revelá-las à noite.
Quando a alma for câmara escura.
Depois vou classificá-las:
Segundo as folhas, os anéis dos troncos,
Segundo as suas sombras.
Ah, como as árvores
Entram facilmente umas nas outras!
Vejam agora só me resta uma.
É esta que vou fotografar outra vez
E vou observar com assombro
Que se parece comigo.
Ontem só fotografei pedras.
E a pedra afinal
Parecia-se comigo.
Anteontem — cadeiras —
E a que resultou
Parecia-se comigo.

Todas as coisas se parecem terrivelmente
Comigo...

Tenho medo.

Marin Sorescu

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22.10.10

No espelho

No espelho
o olhar desaparece

às vezes desalojado
no meu próprio corpo

às vezes
angustiado
pela angústia
que rola
para lá e para cá como destroços
na rebentação

raspo com um dedo
o vidro
e oiço o mundo gritar.

Pia Tafdrup

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21.10.10

Mais nenhuma foto

Mais nenhuma foto, de certeza que há suficientes.
Mais nenhuma sombra de mim atirada pela luz para pedaços de papel, para quadrados de plástico.
Mais nenhuns dos meus olhos, bocas, narizes, humores, maus ângulos. Mais nenhuns bocejos, dentes, rugas.

Eu sofro da minha própria multiplicidade.
Duas ou três imagens teriam sido suficientes ou quatro ou cinco.
Isso teria permitido uma idéia firme. Isto é ela.

Assim, sou aguada, enrugo, de momento em momento dissolvo-me nos meus outros eus. Vira a página: tu, a olhar, estás novamente confuso. Conheces-me bem demais para me conhecer. Ou, não bem demais: a mais.

Margaret Atwood

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20.10.10

Busca-se um guarda-chuva

Ainda não consigo viajar aos sonhos de um gato.
Nem dormir no centro de um furacão.

Este é um tratado sobre ratos.
Pela esquerda afugento o roedor da insônia.
Pela direita oculto o rastro de uma lembrança.

Se os ratos fecham um olho, escrevo.
Se abrem, levam o que calo.

Há virgens encarnadas que habitam a ratoeira do vazio.
Discurso metódicos que não fazem ninguém feliz.

Amanhece na boca da sede que amanhece na mirada.

A palavra encharca como um guarda-chuva
sob um dilúvio de abraços perdidos.

A solitária palavra se diz sozinha
entre os solos de novembro.

Yadi Maria Henao

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19.10.10

Suposição

Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficando sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio. Como
a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então em tudo.
Vêem-se nus e sabem tudo.

(Eu não sei ao certo. Suponho-o)

Jaime Sabines
(trad. José Bento)

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18.10.10

Tarde

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Vasant Abaji Dahake
(trad. de Pedro Amaral)

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