"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

25.10.10


Não se preocupa em despir o vestido
... em cada dia que passa se alheia
Do bem e do mal.
Fica assim a olhar o chão...

Ou fica sentada...
Numa cadeira, sentada, a gemer de mansinho,...
Ou sorri vagamente para o espaço vazio -
O espaço vazio que é o seu próprio rosto -
Onde nada veio substituir o lugar
Dos gemidos roucos e intensos...

Djuna Barnes

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24.10.10

Camadas

Tenho muitas camadas
Uma camada de livros, outras de sapatos
Tem a camada de plantas
Tenho camadas de cosméticos e adereços
Uma camada de nomes e coisas que vejo
Tudo ordenado ao meu redor
Em forma de corpo
Um corpo que me sustenta quando o meu próprio me falta.

Viviane Mosé

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23.10.10

Revelação

Hoje só fotografei árvores,
Dez, cem, mil.
Vou revelá-las à noite.
Quando a alma for câmara escura.
Depois vou classificá-las:
Segundo as folhas, os anéis dos troncos,
Segundo as suas sombras.
Ah, como as árvores
Entram facilmente umas nas outras!
Vejam agora só me resta uma.
É esta que vou fotografar outra vez
E vou observar com assombro
Que se parece comigo.
Ontem só fotografei pedras.
E a pedra afinal
Parecia-se comigo.
Anteontem — cadeiras —
E a que resultou
Parecia-se comigo.

Todas as coisas se parecem terrivelmente
Comigo...

Tenho medo.

Marin Sorescu

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22.10.10

No espelho

No espelho
o olhar desaparece

às vezes desalojado
no meu próprio corpo

às vezes
angustiado
pela angústia
que rola
para lá e para cá como destroços
na rebentação

raspo com um dedo
o vidro
e oiço o mundo gritar.

Pia Tafdrup

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21.10.10

Mais nenhuma foto

Mais nenhuma foto, de certeza que há suficientes.
Mais nenhuma sombra de mim atirada pela luz para pedaços de papel, para quadrados de plástico.
Mais nenhuns dos meus olhos, bocas, narizes, humores, maus ângulos. Mais nenhuns bocejos, dentes, rugas.

Eu sofro da minha própria multiplicidade.
Duas ou três imagens teriam sido suficientes ou quatro ou cinco.
Isso teria permitido uma idéia firme. Isto é ela.

Assim, sou aguada, enrugo, de momento em momento dissolvo-me nos meus outros eus. Vira a página: tu, a olhar, estás novamente confuso. Conheces-me bem demais para me conhecer. Ou, não bem demais: a mais.

Margaret Atwood

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20.10.10

Busca-se um guarda-chuva

Ainda não consigo viajar aos sonhos de um gato.
Nem dormir no centro de um furacão.

Este é um tratado sobre ratos.
Pela esquerda afugento o roedor da insônia.
Pela direita oculto o rastro de uma lembrança.

Se os ratos fecham um olho, escrevo.
Se abrem, levam o que calo.

Há virgens encarnadas que habitam a ratoeira do vazio.
Discurso metódicos que não fazem ninguém feliz.

Amanhece na boca da sede que amanhece na mirada.

A palavra encharca como um guarda-chuva
sob um dilúvio de abraços perdidos.

A solitária palavra se diz sozinha
entre os solos de novembro.

Yadi Maria Henao

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19.10.10

Suposição

Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficando sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio. Como
a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então em tudo.
Vêem-se nus e sabem tudo.

(Eu não sei ao certo. Suponho-o)

Jaime Sabines
(trad. José Bento)

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18.10.10

Tarde

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Vasant Abaji Dahake
(trad. de Pedro Amaral)

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17.10.10

trago no peito uma saudade antiga
eterno segredo de embalar a ternura num berço de névoa

tenho um pomar que não cheiro
e uma música que não decifro

lá fora mora o medo e uma guitarra despenhada

trago no peito a saudade citrina de amar.

Isabel Mendes Ferreira

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16.10.10

No sótão

Ainda que soubessemos agora
que a tua roupa não seria mais
necessária guardamo-la,
lá em cima, numa arca fechada.

Às vezes lá estou eu, ajoelhado,
segurando-a, tentando reviver
o tempo em que a usaste, recordar
o tamanho real de braços e pulsos.

As minhas mãos descem por dentro
de mangas invisíveis, vazias,
hesitam, depois exibem
amostras da memória:

um feriado verde, um batismo vermelho,
todas as tuas vidas incompletas
definhando através dos verões sombrios,
entrando na minha cabeça como poeira.

Andrew Motion

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15.10.10

Prelúdio

te encontrei como por encanto
num desses acasos
num dia triste de outono

te encontrei assim
numa estrada qualquer

e quando percebi
já caminhava ao teu lado

minhas mãos já eram as tuas
e o peso da solidão havia acabado

os meus passos seguiam em cadência com os teus
tu eras o abrigo, o leite morno, a cama quente
e a vida era um eterno gargalhar.

mas isso foi no outono...
e o inverno não tardaria a chegar.

Lou Witt

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14.10.10

Regresso

E, contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi à aventura de partir e de chegar.

(...)

Manuel Alegre

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13.10.10

Da minha janela

Gentis borboletas coloridas
migraram dos meus sonhos despertos
para a janela de onde contemplo
a vida que escorre pelas narinas do tempo

No núcleo das vontades adormecidas
algumas boboletas em voos incertos
ainda estão a bailar aqui e ali
Ora na janela, ora dentro de mim

Úrsula Avner

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12.10.10

Grapefruit Moon

Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Manuel de Freitas

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11.10.10


(...) Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo
possuir.

Arriete Vileta

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10.10.10

Esta noite

Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar

António Sem

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9.10.10

Reencontro

E os meus olhos
redescobriram-te
através dos séculos.
E as minhas mãos,
conchas vazias,
encheram-se de sonhos
perdidos nos seixos
lapidados de teu
corpo amado.

Regine Limaverde

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