"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

14.10.10

Regresso

E, contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi à aventura de partir e de chegar.

(...)

Manuel Alegre

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13.10.10

Da minha janela

Gentis borboletas coloridas
migraram dos meus sonhos despertos
para a janela de onde contemplo
a vida que escorre pelas narinas do tempo

No núcleo das vontades adormecidas
algumas boboletas em voos incertos
ainda estão a bailar aqui e ali
Ora na janela, ora dentro de mim

Úrsula Avner

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12.10.10

Grapefruit Moon

Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Manuel de Freitas

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11.10.10


(...) Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo
possuir.

Arriete Vileta

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10.10.10

Esta noite

Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar

António Sem

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9.10.10

Reencontro

E os meus olhos
redescobriram-te
através dos séculos.
E as minhas mãos,
conchas vazias,
encheram-se de sonhos
perdidos nos seixos
lapidados de teu
corpo amado.

Regine Limaverde

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8.10.10

Flores & Frutos

Compre na passagem
um ramalhete simples
e enfeite
a sala de visitas

tenha a visão
do jardim de ontem

aspire o perfume
como sonho encontrado
de situações futuras

refaça as flores no vaso
retire as hastes
diminua o tamanho
equilibre a disposição
entenda a beleza
decorrente da combinação

a sala resplandece nas cores
silvestres das flores
e o jardim se faz breve
na efemeridade
da vida e morte.

Pedro Du Bois

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7.10.10

Aritmética

... e a maciez de tudo:
um lápis entre os dedos,
dois cigarros,
quatro colheres de
açúcar,
que me amargava o chá
(mesmo de nervos)

Assim já está
melhor: amarga a vida
mas o chá docinho:
luminosa cidreira
entre pregas e rotas
interiores.

Caminho certo
para o coração

Ana Luísa Amaral

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6.10.10

Abismo

Vens a mim, te aproximas, te anuncias
Com tão leve rumor, que meu repouso
Não perturbas, e é um canto milagroso
Cada palavra que tu pronuncias.

Vens a mim, e não tremes, não vacilas,
E há ao nos olharmos atração tão forte
Que tudo desdenhamos, vida e morte,
Suspensos só no brilho das pupilas.

Penetras calmamente em meu viver,
E te sinto tão perto do que cismo,
E há nessa possessão tão funda calma

Que interrogo ao mistério em que me abismo
Se somos dois reflexos de um só ser,
A dupla encarnação de uma só alma.

Enrique González Martínez
(trad. de Renato Suttana)

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5.10.10

Passam ventos de morte...

Passam ventos de morte, passam ventos
Pelos jardins outrora perfumados.
Flores pendidas, mortas, laceradas,
Abrem no chão feridas silenciosas.

Passam ventos de morte. E tudo é tão gelado
E tudo é triste e tudo é desconsolo.
A chuva desce sobre os cemitérios
E leva frio aos mortos esquecidos.

Passam ventos de morte. Trazem velhos
Perfumes de esperanças já vencidas.
Vozes distantes, vozes do passado.

Teu sorriso... Tuas mãos às minhas presas.
Amada... Teus cabelos, teus cabelos...
Teus carinhos que nunca foram meus!

Hélio Pellegrino

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4.10.10

Madona da tristeza

Quando te escuto e te olho reverente
E sinto a tua graça triste e bela
De ave medrosa, tímida, singela,
Fico a cismar enternecidamente.

Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
Toda a delicadeza ideal revela
E de sonhos e lágrimas estrela
O meu ser comovido e penitente.

Com que mágoa te adoro e te contemplo,
Ó da piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da beleza.

Os meus soluços enchem os espaços
Quando te aperto nos estreitos braços,
Solitária madona da tristeza.

Cruz e Sousa

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3.10.10

Descem as pálpebras sobre
o sono vigilante.

É preciso, amor,
dar um nome a esse instante.

O que em nós sobra
à maré pertence.

Sabem à flor oclusa da resina
as esporas molhadas dos teus flancos.

O nosso tempo, amor. Tempo
líquido sulcado
de submarinas galeras e corvetas.

Há um relógio nupcial parado
suspenso entre nós dois.

Albano Martins

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2.10.10

Voltei à casa das heras.
A varanda, as paredes, estão carcomidas de bichinhos persistentes e raízes tentaculares. Penetro no escuro, no inóspito do bafio e do sonâmbulo. A velha casa está calada. Abro-lhe as portas, as portadas das janelas, e as réstias de sol arrumam-se oblíquas por entre grãozinhos flutuantes de poeira. Vê-se que lhe dói o esforço de voltar a ser espaço: o chão queixa-se e range sob os meus passos.

Venho ao pátio, de onde se avista o jardim e o cerne das colheitas. A terra está atapetada de velho, no lugar onde antes havia alegria e ornamentação. Volto ao interior da casa, ao seu desconfortável de agora. A antiga grafonola ainda se recorda das canções de há vinte anos. Sento- me, o olhar entrecortado nos retratos empoeirados.

Fico especada, a discorrer sobre o passar das canções: Fauré, Poème d’un jour. Onde se diz do encontro, do estar e do adeus. E neste ouvir, visto velhas memórias, antigos dizeres. Mas agora isto é apenas uma casa com uma história. Com princípio, meio e fim. Ninguém a pode mudar. São irreversíveis as heras da casa.

Se voltar, a história não há-de nunca ser igual.
Faz-me pena o tempo que foi.

Elvira Santiago

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1.10.10

Num espaço falso entre o que fui e o que sou
perduram as frases que eu não disse
aqueles gestos que eu não quis fazer
e toda a história da minha vida
que o destino não pôde escrever.

Olavo Rubens

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30.9.10

Gravura

Ela cabe no meu mundo como um leve toque
de asa no meu rosto
asa
de um pássaro ver-
melho-baton. Um tom.
um céu ris-
cado em claro tom.
Música de sino de
cidade pequena pequenos di-
minutos dedos velozes
meu corpo dentro de
um carro luz-me-
tal atravessa a cidade
quando os
dedos
dela
deslizam.

Simone Brantes

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29.9.10

A Partida

Duas mulheres jogavam as cartas. Eram as duas formosas
e perversas. As duas faziam batota.

A partida prolongava-se mais do que o costume,
a julgar pelos gestos de impaciência que nenhuma ocultava.

Vida e Morte se chamavam.
E tinham apostado o coração de um homem, como sempre.

Amalia Bautista

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28.9.10

Esse lado de mim...

Esse lado de mim que vive
Desejando partir
É minha metade forasteira,
Selvagem e traiçoeira...

Chega ansiando ir embora,
Parte pensando em voltar,
E amarga uma impaciência que não controla...

Esse lado de mim que passeia pela vida
Sorrindo diante do intocável,
Brilhando olhos de lobo,

Voz mansa quebrando o silêncio,
É a parte de mim que não sabe o que quer,
Minha metade cansada,
Frágil e sensível...

Deseja ser guiada por um sonho,
Brincar na memória de alguém,
Ser parte eterna de uma alma
Que já aprendeu a amar...

Débora Böttcher

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