"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30.9.10

Gravura

Ela cabe no meu mundo como um leve toque
de asa no meu rosto
asa
de um pássaro ver-
melho-baton. Um tom.
um céu ris-
cado em claro tom.
Música de sino de
cidade pequena pequenos di-
minutos dedos velozes
meu corpo dentro de
um carro luz-me-
tal atravessa a cidade
quando os
dedos
dela
deslizam.

Simone Brantes

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29.9.10

A Partida

Duas mulheres jogavam as cartas. Eram as duas formosas
e perversas. As duas faziam batota.

A partida prolongava-se mais do que o costume,
a julgar pelos gestos de impaciência que nenhuma ocultava.

Vida e Morte se chamavam.
E tinham apostado o coração de um homem, como sempre.

Amalia Bautista

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28.9.10

Esse lado de mim...

Esse lado de mim que vive
Desejando partir
É minha metade forasteira,
Selvagem e traiçoeira...

Chega ansiando ir embora,
Parte pensando em voltar,
E amarga uma impaciência que não controla...

Esse lado de mim que passeia pela vida
Sorrindo diante do intocável,
Brilhando olhos de lobo,

Voz mansa quebrando o silêncio,
É a parte de mim que não sabe o que quer,
Minha metade cansada,
Frágil e sensível...

Deseja ser guiada por um sonho,
Brincar na memória de alguém,
Ser parte eterna de uma alma
Que já aprendeu a amar...

Débora Böttcher

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27.9.10

Rosa

Tão bela singela
Retrata vigor
Desprende sentido
No caule da flor
Tal qual um vestido
De rubro tingido
Enfeitando o amor

Descansa a rosa
não mais um botão
Suave repousa
na palma da mão.
Poema em prosa
o vermelho da rosa
É dor e paixão..

Oh! Rosa formosa
Esbelta, viçosa
de raro esplendor
Gentil, caprichosa
Exala perfume
E provoca torpor
Rosa, vermelha e amarela
Tão rosa tão bela...
Que enfeita o amor...

Priscila de Loureiro Coelho

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26.9.10

Solidão

Apanhei o cabelo
em rabo de cavalo
agora a minha solidão
vê-se tão bem
como a minha face

E a minha face
é desassombrada
as sombras
não são minhas...

Adília Lopes

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25.9.10

Mulher de Minutos

Não sou mulher de minutos
Daquelas que os segundos varrem
Para debaixo do tapete sujo
Não pinto os cabelos de fogo
Nem faço tatuagem no umbigo
Me recuso a usar corpetes e cinta-liga

Há sementes em meu ventre
São poemas que ainda não reguei
Prefiro guardá-los em silêncio
Até que o tempo amadureça meus minutos
E a vida me contemple com seus frutos

Não borro meus cílios com a solidão da noite
Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs
Meu corpo é feito de marés
Onde navegam mil anseios
Veleiros sem direção
Estou sempre na contramão

Mônica Montone

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24.9.10

Tinha o rosto cheio de íntimos silêncios. E na sombra aguardava o tempo numa confiança tranquila. Longínqua, como quem flutua na última claridade e reflete nas margens da consciência. Raramente trazia até si uma palavra, um nervo de luz ou um rumor vigilante. Esperava talvez um movimento, um desejo de espaço. Ou qualquer outra coisa perdida no seu pensamento.

Fernando Esteves Pinto

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23.9.10

Primavera

Já vem a primavera, desfraldando
pelos ares as roupas perfumadas,
e os rios vão, nas águas jaspeadas,
os frondíferos troncos retratando;

vão-se as neves dos montes debruçando
em tortuosas serpes argentadas;
pelas veigas, o gado, alcatifadas,
a esmeraldina felpa vai tosando.

Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
e a natureza as melindrosas cores
esmera na pintura das boninas.

Ah! Se assim como brotam novas flores,
se remoça todo o orbe... das ruínas
dos zelos renascessem meus amores!

Filinto Elísio

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22.9.10

Vontade doce

Tenho vontade
duma coisa doce
como se fosse vontade de ti

Tenho vontade
de uma coisa suave
como canto de ave
que encanta e sorri

Tenho vontade de algo diferente
que deixa semente
agora e aqui

Tenho vontade
de dizer ao mundo
que dói muito fundo
a vida, sem ti

Maria Mamede

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21.9.10

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente

Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui

Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará

Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

António Franco Alexandre

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20.9.10

O silêncio

Peço apenas o teu silêncio,
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.

Um silêncio onde a tua alma se embrulha,
friorenta, trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressonâncias de antigas primaveras
de outonos descoloridos e de chuva a cair no negrume da noite.

- Vá, motorista de taxi,
transporte-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!

Saul Dias

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19.9.10

Encontrando-te

Amo a pálida redondez da lua
que ignora o tédio do número e da cifra
Amo o úmido regaço da terra
que ignora o rigor do vento que calcina

Quero os espelhos azulados da noite
que conhecem o segredo da vida
Amo o terciopelo da rosa
e o aroma da chuva no verão

Quero o silêncio das horas
com a só linguagem de tuas mãos
Amo a luminosidade dos teus olhos
quando miras a despedida do sol
sobre os morros como se tu também
fosses marchar no acaso

Quero a certeza de teu tempo
que se pega à minha nostalgia
Amo a suavidade de tua ternura
que se abre no sossego de teu riso

Quero que saibas que meu ramos
tem para ti a tibieza da seiva
essa torrente sensual e fugitiva
que se alimenta de luz em tuas pupilas.

Júlio Cesar Perié

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18.9.10

Um quadro

amarelecido, esquecido
cravado no peito da parede
guardando recordações nos traços
apagando pouco a pouco a face
a sangrar todas as lágrimas
em cada nervura da alma
restos das falidas mãos
aromas, momentos vividos
nos trêmulos pinceis dos dedos...

num dia cheio de luz
cores choveram do céu
o mundo alargou sorrisos
de lado a lado
percorrendo montanhas
ligando oceanos
refletindo meus sonhos
noutro lado do mundo...

Maria Thereza Neves

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17.9.10

Os cisnes

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

Júlio Mário Salusse

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16.9.10

Lena

Dentro do valle, ao lado de uma penha,
de onde caindo um fio de água canta,
a casinha de Lena se levanta
ficando bem de frente para a brenha.

Mira de longe quem na estrada venha
entre a verdura da fecunda planta.
Alli, a voz de Lena em tom que encanta,
esconde o som monótono da azenha.

A água que escorre pelo valle a dentro,
vae na ravina humedecer as flores;
e eu só para escutá-la, me concentro.

Amo-a e fujo-lhe a medo... Disse alguém
que ella, uma vez, falando-se de amores,
jurou nunca na vida amar ninguém.

Álvares Bezerra

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15.9.10

Colecionador de quimeras

Quando as minhas angústias
começam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio à rua a passeá-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.

Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como pássaros
em busca de primaveras
imprevisíveis.

António Tomé

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14.9.10

Lembrança

Só ela compreendia o som
dos meus silêncios. Temia
às vezes que o tempo hostil
fugisse enquanto conversávamos.
Depois disso esvaiu-se a memória
e vejo-me agora a falar
dela contigo, entre espirais de fumo
que anuviam a nossa comoção.
Esta é a parte de mim que encontro
mudada. O sentimento em si informe
neste agora que é apenas saudade.

Eugénio Montale
(trad. de Ivo Barroso)

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