"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

13.9.10

escondida na toalha, o vagar da tesoura mordendo afinada, ela cortou parte de seus cabelos na pia larga do banheiro maior – os fios acabados engolidos com a água. na porta entreaberta, nossas vidas se encontraram e um espelho embaçado (desvio de olhar fixo) uma lágrima de vapor escorrendo no reflexo. escutei o toque do aço no mármore, o ruído da chave dando voltas, o ímpeto da ducha quente estalando o chão.

Victor da Rosa

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12.9.10

Deitados lado a lado, envoltos nas fadigas do dia. Paisagem fresca e calma onde passam histórias irrealizáveis, o sono repousava sobre nós. Nenhuma espada precisava de nos separar.

Um peso delicioso, pesando na minha perna, despertou-me. Reconheci o teu pé. Soube então, por um homem e uma mulher que se conhecem, o que era estar deitado lado a lado.

Ernesto Sampaio

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11.9.10

Passagem

Entre fantasia e realidade
invento cores
entre solidão e a lágrima
eu canto.

Se a verdade queima meus sonhos
e a dor arde insuportável
eu choro até a noite acabar.

Depois eu lavo o rosto,
tomo meu café
e saio de bicicleta
à procura de outros caminhos.

Flávia Menegaz

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10.9.10

Melodia apenas
- sem caveiras de fogo
a iluminarem o pensamento das pedras.

Melodia apenas
- sem o suor das mãos dadas
no guiar dos labirintos.

Melodia apenas
- sem as lágrimas por dentro das flores
a queimarem o coração dos mortos.

Melodia apenas
dos pássaros ocos
a cantarem nas árvores
a repetição emplumada
do cio do primeiro mundo...

Vem, melodia!
Melodia apenas.

José Gomes Ferreira

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9.9.10

Primeira Pessoa

Eu preciso dizer
coisas que não posso
eu preciso ser
coisas que eu sou
eu preciso ser melodia

eu preciso viver
a vida que vive
em mim
desatinada
desarvorar que nem
coisa ruim
e depois
voltar
com aquele sorriso
nos olhos

e preciso destruir os medos
romper as correntes
rasgar elo por elo
Paralelamente
a minha própria
pessoa

Eu preciso amar incondicionalmente
sem neuras e
apelos...
desvencilhar-me dos fantasmas
que insistem
na alma toda

Ser gota
mulher e verdade
eu preciso ser
EU
Nem que seja só agora.

Lúcia Gönczy

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8.9.10

Da impossibilidade

Sempre um de nós
foge. Sombria água
trépida e contínua
água em céu diverso
como diversa eu sou
chão sem flor.

Vã palavra, múltipla
palavra, longínqua
semente entre o arco
e a corda. Nada sara
em meu cego corpo
eu que imagem sou,
não alegoria.

Tremor antigo, árvore
sem fruto, nada resiste
nesta cidade sem casa
- só a garça chega em seu
liso voo porque o tempo
nunca é longo.

Ana Marques Gastão

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7.9.10

A vingança dos objetos

alforriei
os teus canários
primeiro
depois
soltei os laços
do vestido
voei

Sandra Regina S. Baldessin

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6.9.10

Breve instante

Sussurra o vento nas folhas....
Eis-me aqui em irreversível instante!
Eis-me aqui numa espera instigante!

Caem sobre mim, folhas dos teus versos,
Nos dias de sol ou nos dias que se vão sem ele.
Eu desejo o sonho mais puro,
Mantendo-me viva nele.

Brotam em ti as gotas do orvalho noturno.
Brotam em mim literárias falas.
Nos teus olhos, então me descubro,
Na verdade, onde tu calas.

Eritânia Brunoro

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5.9.10

Tiro de novo a fotografia do envelope e ela fixa-se logo
em mais realidade na ficção da sua imagem.

Está de perfil como sempre a vejo e olho-a tão intensamente.
Temo que ela se volte e vá falar – e que é que iria dizer?

O nosso encontro é no eterno, meto de novo a fotografia no envelope.

Nunca a amei assim.

No absoluto da imaginação. No vazio da inexistência.
Na pureza do existir que é igual ao seu nada.
No amor em si.
E a ternura que me toma é tão. Ternura de nada.

Absurda estúpida.
Na ficção interna, virada para dentro de eu ser terno.
E a sua imagem aérea.
E a reconstrução súbita de tudo quanto nela aconteceu.

Vergilio Ferreira

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4.9.10

A sua água

O que ele amava nela era a sua água - como a de uma pedra preciosa. É afinal de contas o que é realmente amado numa mulher - não a bainha de carne que a reveste - mas a sua assinatura.

Lawrence Durrel

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3.9.10

Tem na maneira de olhar
Aquela dúbia certeza
De quem pretende fixar-se
Numa doce realidade...

E o seu vulto quando passa,
Parece deixar no espaço,
A graça de uma saudade!

Há no seu riso -
Uma nota
Que lembra um laivo de sombra
Nessa beleza tão séria
Onde tudo quanto é belo
Desgraçadamente existe.

Ah!, meus amigos, a vida!...

- Falei de amor, pus-me triste.

António Botto

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2.9.10

Persona

A princípio
acreditei
que fosse flor.
A haste flexível
a sustentar
a corola
imantada
de sol.

Depois,
no corpo breve,
pressenti
a ave.
Asas inquietas
em desferir
o vôo
mais alto.

Hoje sei bem.
Ave-flor-alada
é você.
Mais que isso.
Mulher
em sua têmpera
de aço.

Ivanira Bohn Prado

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1.9.10

... umas vezes o meu amor é longínquo
outras vezes à beirinha.
Umas vezes brisa calma
outras vezes movimento inquieto das levadas
a desabar em cascatas nas encostas escarpadas.
O tempo a escorrer e eu não penso em medi-lo.
Por hoje amanhã também podia ser noite...

E o amor ali pendurado
naquele cacho de buganvílias.

Antonio Paiva

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31.8.10

Estio

Vem,
deixa a marca dos teus pés sobre a
nudez do mármore,
abre o decote azul sobre os teus
frutos amadurecidos,
diz que são maçãs sem sombra de pecado,
lembra-te que nestas noites de Agosto
a lua te veste de branco
e sobre as suas pedras de luz passeiam
estranhos animais do verão,
gargantas que entoam uma melodia
saem palavras, sem sentido,
vem,
ouve esse rumor cálido na raiz dos teus
cabelos,
solta-os, deita-te, esquece tudo,
procura apenas o meu nome entre as cinzas.

José Agostinho Baptista

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30.8.10

Há sinais que indicam um desvio
que nunca tomarei,
mesmo assim imagino
a história da minha vida
seguindo esse caminho,
e sou outra mulher
e vivo numa casa
com um jardim semeado de papoilas,
e sempre que florescem
passeio com a minha filha,
com uma rapariga triste
que não me reconhece.

Há sinais que são o testamento
que ninguém escreverá
ao fim de uma curva.

Ana Merino

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29.8.10

Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço o seu imenso clamor

Ana Hatherly

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28.8.10

Pensamento longe

A leveza de teu vestido
E tuas mãos dizendo adeus.

Eu iria, mesmo com a certeza de não te encontrar,
E voltaria sem te ter visto,
Passeando com a tua lembrança.

Eu caminharia horas e horas pensando em ti,
Sem chegar nunca ao termo do caminho
Onde estivesse escrito: aqui se acaba o amor.

Dante Milano

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