"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

3.9.10

Tem na maneira de olhar
Aquela dúbia certeza
De quem pretende fixar-se
Numa doce realidade...

E o seu vulto quando passa,
Parece deixar no espaço,
A graça de uma saudade!

Há no seu riso -
Uma nota
Que lembra um laivo de sombra
Nessa beleza tão séria
Onde tudo quanto é belo
Desgraçadamente existe.

Ah!, meus amigos, a vida!...

- Falei de amor, pus-me triste.

António Botto

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2.9.10

Persona

A princípio
acreditei
que fosse flor.
A haste flexível
a sustentar
a corola
imantada
de sol.

Depois,
no corpo breve,
pressenti
a ave.
Asas inquietas
em desferir
o vôo
mais alto.

Hoje sei bem.
Ave-flor-alada
é você.
Mais que isso.
Mulher
em sua têmpera
de aço.

Ivanira Bohn Prado

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1.9.10

... umas vezes o meu amor é longínquo
outras vezes à beirinha.
Umas vezes brisa calma
outras vezes movimento inquieto das levadas
a desabar em cascatas nas encostas escarpadas.
O tempo a escorrer e eu não penso em medi-lo.
Por hoje amanhã também podia ser noite...

E o amor ali pendurado
naquele cacho de buganvílias.

Antonio Paiva

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31.8.10

Estio

Vem,
deixa a marca dos teus pés sobre a
nudez do mármore,
abre o decote azul sobre os teus
frutos amadurecidos,
diz que são maçãs sem sombra de pecado,
lembra-te que nestas noites de Agosto
a lua te veste de branco
e sobre as suas pedras de luz passeiam
estranhos animais do verão,
gargantas que entoam uma melodia
saem palavras, sem sentido,
vem,
ouve esse rumor cálido na raiz dos teus
cabelos,
solta-os, deita-te, esquece tudo,
procura apenas o meu nome entre as cinzas.

José Agostinho Baptista

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30.8.10

Há sinais que indicam um desvio
que nunca tomarei,
mesmo assim imagino
a história da minha vida
seguindo esse caminho,
e sou outra mulher
e vivo numa casa
com um jardim semeado de papoilas,
e sempre que florescem
passeio com a minha filha,
com uma rapariga triste
que não me reconhece.

Há sinais que são o testamento
que ninguém escreverá
ao fim de uma curva.

Ana Merino

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29.8.10

Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço o seu imenso clamor

Ana Hatherly

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28.8.10

Pensamento longe

A leveza de teu vestido
E tuas mãos dizendo adeus.

Eu iria, mesmo com a certeza de não te encontrar,
E voltaria sem te ter visto,
Passeando com a tua lembrança.

Eu caminharia horas e horas pensando em ti,
Sem chegar nunca ao termo do caminho
Onde estivesse escrito: aqui se acaba o amor.

Dante Milano

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27.8.10

Francesca

Surgiste de dentro da noite
E havia flores em tuas mãos,
Agora surgirás de uma confusão de gente,
De um tumulto de conversas sobre ti.

Eu, que te vi surgir em meio às primícias
Zanguei-me quando disseram teu nome
Em locais baratos.
Eu quis que as frescas ondas pudessem fluir sobre minha mente,
E o mundo murchasse como folha seca,
Ou um pólen de dente-de-leão levado ao vento,
Para poder te ver de novo,
A sós.

Ezra Pound

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26.8.10

Canto de alma e flores

Fantasio a alma
com o canto da consciência

Há pinheiros bordados na toalha
e perfume de hortênsias no jardim

No grito estridente do grilo
vão-se as horas
e num galho seco
a cotovia canta

Mas chega a noite
a chama da lamparina oscila
e na toalha
os pinheiros deixam cair folhas mortas

Amo esse quadro
esse recanto em que me escondo
E me preparo
para colher as flores da manhã.

Aymar Mendonça

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25.8.10

Passam os dias

Ondas de espesso óleo são meus dias:
passam tão lentamente que não passam.
Os homens a meu lado olham, passam,
lentos também como os meus lentos dias.

O futuro está aí, cheio de dias,
mas é um duro charco; por ali passam
lentas sombras de sonhos quando passam...
Nocturnos céus cobrem-me os dias.

Aprendi, ensinaram-me os que passam
que sempre passam, passarão os dias,
ainda que pareça às vezes que não passam.

Soube, além disso, que a bordo dos meus dias
também eu passarei com os que passam,
cinza na cinza dos dias.

Nicolás Guillén
(trad. de Albano Martins)

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24.8.10

Sono limiar

O dia ainda não terminou
para mim
apesar da amante noite
cobrir-me
o olhar nublado
no trajecto das palavras
desalinhadas
ao longo da pena
e uma vaga de mar
invade o sono
limiar

logo desperta
uma zoada invisível
no jardim do lago
com as cigarras
timbaladas
a cantar
um ritual secreto
igual
à vibração dos búzios
num espelho de água

o espírito
cada vez mais distante
alienado
a lembrar o primeiro sonho de amor

João Maria Nabais

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23.8.10

Candelabro

Num quarto vazio e pequeno, só quatro paredes,
e cobertas com tecidos inteiramente verdes,
um belo candelabro está aceso e arde;
e, em cada chama sua, abrasa-se
uma paixão lúbrica, um impulso lúbrico.

No pequeno quarto, que brilha alumiado
pelo forte fogo do candelabro,
não é absolutamente habitual esta luz que jorra.
Para corpos tímidos não é feita
a volúpia deste calor.

Konstantinos Kaváfis
(trad. de Ísis Borges da Fonseca)

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22.8.10

Matinal

O sangue recorda.
O turbilhão de nuvens negras
contra os olhos.
O remoinho de ramos e folhas
que se abeiravam da roda traseira
da bicicleta.
O peso da lama no guiador.
Os primeiros relâmpagos
que precedem o ribombar da tempestade
no cimo dos pinheiros.
O estrépito das pedras a rolar,
encosta abaixo.
A sombra violeta das sebes
inclinadas, onde fulgia uma colérica
chuva.
A lividez da campainha
quando os dedos a tocavam.
O voo em círculos da ave nocturna
no caminho esburacado.

Tudo isso porque foste embora.

Jorge Gomes Miranda

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21.8.10

As vestes

Enfrentei furacões com meus vestidos claros.
Quem me vê por aí com esses vestidos estampados não imagina as grades, os muros o chão de cimento que eles tornaram leves.
Não se imagina a escuridão que esses vestidos cobrem e dentro da escuridão os incêndios que retornam cada vez que me dispo cada vez que a nudez me liberta dos seus laços.

Iracema Macedo

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20.8.10

Memórias de um chapéu

Quisera então saber toda a verdade
De um chapéu na rua encontrado
Trazendo a esse dia uma saudade
D'algum segredo antigo e apagado

Um dia entre a memória e o esquecimento
Colhi aquele chapéu envelhecido
Soltei o pó antigo entregue ao vento
Lembrando aquele sorriso prometido
As abas tinham vincos mal traçados
Marcados pelas penas ressequidas
As curvas eram restos enfeitados
De um corte de paixões então vividas

Aldina Duarte

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19.8.10

A estrada branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino Mendonça

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18.8.10

Residência no ar

Não sei o que me convém,
se uma casa segura,
janela, quartos e trincos
ou se as portas todas abertas,
se residência no ar.

Não sei o que me convém,
se uma casa encerada,
a família pro jantar,
ou se ventania na estrada,
se residência no ar.

Não sei o que me convém,
se uma casa caiada
com horta, jardim e pomar
ou se andarilha no mundo,
se residência no ar.

Roseana Murray

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