"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

14.8.10

Entre nós há um rio intransponível.
Há um muro que impede as nossas vozes,
sustenta a linguagem do silêncio,
e torna os teus lábios impossíveis
no ciciar de seda do vento nocturno

e, apesar de tudo,
os meus braços alongam-se para além de mim
e estão á tua espera

pois não é possível ficar onde se está
despojados de luz, despojados do ser,
impedir o amor quando ele está a nascer!...

Albino Santos

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13.8.10

no tear do destino
fiandeira de mim
desnovelo meadas
matizo riscos dos bordados
ora pontilhando alegrias
ora cerzindo,
da vida
retalhos-rasgo

Ana Merij

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12.8.10

Faz-me

Faz-me
bicho de seda
para que a distância
na tua pele
sendo recente
se aproxime lenta
como fogo esplêndido no peito

e assim transpareçam lábios de ouro
e eu possa tomar o sangue
como pão
onde parco e branco é o meu leito.

Graça Magalhães

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11.8.10

funde-se o corpo, a dor, a saudade
nessa falta de poros
nessa ausência de pêlos

ah, como é triste a distância
entre o cinzel e a pedra
eu e teu amor
esculpidos em solidão

Lílian Maial

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10.8.10

Ausência

À sombra da tua ausência
Repouso os meus olhos
Fechados, inertes
Vagueiam por mim
Procurando destroços
Em que despertes,
De repente

Sei-te ausente,
Sei que não posso
esperar-te
Mas este vício
De aguardar-te
Prende-me como lama,
Lodo
Atrofiante, espesso.

E como nódoa
Entranhada
Permaneces como gesso
Colado à parede
Do meu afecto
Qual vinagre
Na minha sede
Qual erro
De tudo
Quanto em mim
Está certo.

Virgínia do Carmo

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9.8.10

Quando eu morrer
não me dêem rosas
mas ventos.

Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a quebrar
e vagar.

Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto
num jeito
de nunca mais parar.

Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
não.
Oh, sentir sempre no peito
o tumulto do mundo
da vida e de mim.

E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar,
o meu coração
fica para ti.
para ter a ilusão
de nunca mais parar.

Alexandre Dáskalos

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8.8.10

... essa enganosa tristeza
que me abate vicio
dos portais fechados
dos caminhos de pedra
da solidão dos olhos de luxo
saudade de um dia
que ainda espero virá
minha aflição não é minha
como a rua a escola e a terra
meu desejo é essa mescla
pressentimentos e dores
outra estação que se aproxima
me põe sereno

de verdadeiro encontro

como aquela vez em que tocaste
uma pele angustiada
como o dia em que acendeste as luzes
os olhos as manhãs
como os campos que trouxeste em teu cansaço
como abraço
o tempo em greve
ventos ciganos
laços e verdades

Renato Tapado

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7.8.10

Há em mim três mulheres:

uma santa cheia de culpa;
uma devassa cheia de luxúria;
e uma que se oculta das duas

Trago as fases da lua...

A quarta mulher é sombra
a vagar no escuro...

M.G. Ferraz

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6.8.10

O canto prodigioso

Quem o estaria escutando
ao pássaro prodigioso?
Pela janela entreaberta
o canto me chegava
- e subindo no ar,
impregnando-a
da sua breve eternidade,
sustinha a tarde que descia

e enquanto cantasse
era dia

António Simões

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5.8.10

A Hóspede

Não precisa bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.

Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.

O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram a relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.

Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.

Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.

Guilherme de Almeida

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4.8.10

Volto à casa da minha infância, janelas e portas fechadas!
Vasos de gerânios vazios, onde antes aquele canto enfeitava.
Sob a casa, sustentada por vigas envelhecidas, corria um braço
de mar onde outrora eu brincava. Seguiu seu curso sem pensar
na dor da minha saudade, ao ver meu espaço ocupado por águas
paradas de um triste alagado!

Iracema Zanetti

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3.8.10

Esta ânsia que és tu

É esta a ânsia que cedo ou tarde, não se desfaz...
Não se transforma, não se verga...
Não me deixa em paz.
É esta a ânsia que vive dentro de mim...
Que ri, que chora, como se sentimentos tivesse...
E que quando entardece, adormece assim.
Aninhada no meu peito, como se um refúgio fosse,
E mais cedo ou mais tarde vai acordar novamente...
E vai-te querer aqui...
É esta a ânsia que me consome, e que eu ando como louca,
Para arrancar de dentro de mim!!!

Ana Cardoso

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2.8.10

Múltiplas escolhas me percorrem
Deixo-me sucumbir pelas diversidades
Das tantas mulheres que sou
nunca guardei referências.

Sou habitada por várias cidades
onde o feminino transita livremente
pelas ruas das minhas querências.

Nídia Caldas

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1.8.10

Dos ciclos

Algo em mim
não se (des)intrega.

Apesar da seiva
derramada
dos sonhos amputados.

Semente
renasce
em nova primavera.

Ricardo Mainieri

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31.7.10

Sábado

Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:
chegar à margem e ter medo da quietude da água.

Antonio Gamoneda

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30.7.10

No jardim

Na densa tarde de quietude mais
os amados silenciam

Suspeitam
da impossibilidade de um bis
(jamais alguém se banha na mesma luz)

Um pássaro descuidado passa e canta
a dizer que viu

Dalila Teles Veras

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29.7.10

Quem sou?!...

Imersa nas brumas de meu interior,
sinto-me múltipla...
uma que chora os ais do amor...
outra que, oculta nas sombras, busca a Luz...
e outras tantas,
que a busca de meu eu conduz
ao infinito do ser;
mesmo assim, permite-me que me iluda
e, coberta apenas pela seda pura, assim desnuda,
estou velada, sou mistério...
sou mister... sou corpo e alma...
sou mulher!...

Carvalho Branco

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