"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

14.7.10

Só alguns cravos

Nada sei de tílias e carvalhos
agapantos, tulipas, jasmins do Cairo.
Conheço bem urtiga, as locas, o mato
algemas de cipós, liana em laços.

Por sorte, só por sorte ainda guardo,
naquele pote a colônia macerada
— dói a alma, dói e não passa —
lembrando a timidez dos bredos
selvagens.

E, agora para enfeitar uma casa
alva casa entre gramas sem trato
voo pousado, varanda em asas
eu escolhi, só alguns cravos.

Cravos sem sangue, mas… encarnados.

Deborah Brennand

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13.7.10

Jantar

A música estranha
o vinho pálido-branco
o aspargo
a couve-chinesa
(o menu para um a francesa)

Ah!...
como são tristes
os pratos
de porção única
quando há espaço
para dois
na mesa.

Claudia Schroeder

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12.7.10

O quadro

complacente ela se aquieta e espia
não o toca
nada neles diz intimidade

estão ali há séculos
imóveis
sentados
o silêncio retumbando em cores vívidas

Márcia Maia

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11.7.10

De amor ardem os bosques

Há lembranças que matam
há bosques onde os amados vivem para sempre

há um cutelo de água nas fontes
quando as palavras voam para muito longe

há a noite
e os cães que dormem em cordas de sono
em vogais de vento e abandono

há barcos que deslizam no horizonte
muito lentamente
e as estrelas descem por dentro dos mastros
na noite

há uma orquídea azul que se suicida
onde começa o teu nome

Maria Azenha

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10.7.10

sabes, mãe. junto do piano, está uma mulher a escrever
sobre o coração. tem o peito aberto a sangrar numa taça
de vinho. bebermos esta mulher dá-nos sede de água.
é como se ela ouvisse por dentro das teclas. é como se
ouvisse por dentro das mãos.

ao ventre do piano é que o rio começa a ser fundo.
ao fundo do rio, para que seja eterno, é que se escreve
o nome da mulher. vês como as flores adormecem num grito?
e os pássaros cantam nos seus lábios?

é por isso, mãe. é por isso que o amor é um ser fêmeo.
é ao ventre do amor que o piano começa a ser corpo.
as palavras são gotas de orvalho ou meros cristais
invaliosos. é preciso beber o poema gota a gota,
sangrar como uma mulher. é preciso nadar este rio
até ser um poema de mar. é preciso florir um pássaro
na tua boca. é preciso escrever de alma nua.

alice macedo campos

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9.7.10

Fim

faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te.

todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se.

nenhuma clareira se abre à passagem dos
animais e do homem antigo.

são 4 horas na manhã de todos os relógios.

José Agostinho Baptista

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8.7.10

Oração de Clara ao seu jardim

Meu espírito clama pelos poderes cicatrizantes
do amor.

Neles penso, enquanto escurece ou chove torrencialmente
na ravina obscura que atravesso.

Vi levantar-se a ilusão da alegria perene como dádiva.

Que dardo cravas em mim, que assim entenebreço, que nervuras
tão densas me crias, se em ti me perco?

Maria Gabriela Llansol

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7.7.10

Cruel mensagem

Morto foi o sonho de um jardim
Por um verão servil, de cruel mensagem
E eu vi raízes, a vida agonizando,
Na lâmina acesa de um punhal.

Os musgos, as heras, as papoulas,
Manchavam a grama seca.
E lírios, junto ao sangue das rosas,
Magoados eram o pasto

De cavalos alheios e famintos.

Deborah Brennand

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6.7.10

Agora

Agora é tempo
de novamente libertar os pássaros
A grade da noite degelou.
Brilha luz em todas as varetas
flui
desfaz-se.
Para o outro lado resvalam
claras vozes de crianças.
Algo cintilante e solto
flameja
foge.
Atravessa o vidro
deixa vestígios de luz no azul
já longe como se em retorno
o espaço alvo e claro.

Alois Hergouth
(trad. de Celeste Aida Galeão)

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5.7.10

Bendigo os diamantes que respingam na vidraça

Benzi-me de água benta e minha loucura foi perdoada
Ainda pouco fui santa, mas ninguém acreditou
O hábito não me coube / o hálito me queima a fala
Rogo por minha insanidade de volta
Preciso molhar o corpo trêmulo / deitar na terra fria
O céu desaba em mim como remissão dos pecados
Agradeço a chuva ardida cortante feito navalha
Afiada e ácida
Choro

Nesse instante um raio ilumina minha vista
Estou nua de tudo
Só / molhada / louca
E salva.

Márcia Rehen

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4.7.10

Ela deixou o sorriso guardado
numa gaveta da alma
e tentou colar o anel de cristal
com lágrimas e silêncio.

No lenço colocou a saudade,
na mala arrumou os retratos.
E viajou no redemoinho
das emoções naufragadas.

Voltou depois do tempo
e ficou na gare,
sentada,
premeditando ausências.

Só o apito do trem
acompanhou sua tristeza
no olhar parado
de quem mais nada espera
porque tudo aconteceu!

Maria Alice Estrella

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3.7.10

Tuas cartas

Relembro as tuas cartas uma a uma,
Em minha mente todas se gravaram
Não encontro uma só que não resuma
Tudo o que nossos lábios já trocaram.

Tu me escrevias sempre; vez nenhuma
A sua falta os olhos meus choraram.
Morria o sol do estio… vinha a bruma,
- E as tuas cartas nunca me faltaram.

Hoje os dias se passam lentamente
Que me escrevas espero ansiosamente,
Mas com que mágoa vejo que emudeces…

Termina esse silêncio que crucia,
Já que me vai trazendo dia a dia
A certeza cruel de que me esqueces!

Maria Carolina Wanderley

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2.7.10

Condição humana

visto preto e meu marido
é vivo

sou seu lençol
mãe de seu filho ausente

lavo seus colarinhos
não dormimos juntos

juntos
só colocamos
sal nas feridas

Helena Ortiz

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1.7.10

O espelho de água

Meu espelho, correndo pelas noites,
Torna-se arroio e foge do meu quarto.

Meu espelho, mais profundo que o orbe
Onde todos os cisnes se afogaram.

É um tanque verde na parede, e nele
Dorme tua desnudez ancorada.

Em suas ondas, sob uns céus sonâmbulos,
Os meus sonhos se afastam como barcos.

De pé na popa sempre me vereis cantando.
Uma rosa secreta intumesce em meu peito
E um rouxinol ébrio esvoaça em meu dedo.

Vicente Huidobro
(trad. de Anderson Braga Horta)

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30.6.10

Cinza e frio!

Silêncio…
A resposta que obtenho às minhas dúvidas…

Silêncio…
A resposta às minhas preces…

Silêncio…
A resposta às minhas lágrimas de desespero e dor, de infinita
tortura… são paredes de silêncio e eu, em amargura,
vou levando os dias como quem só já espera a noite
onde me revelo… me deixo ser como sou,
me desnudo diante doutro mundo…
esse mundo sem cor… cinza e frio,
vazio de vida… sequer sentida…
… porque o silêncio ensandece
e eu…
na minha humildade
apenas pedia uma resposta à minha prece…

Mas, vencida, me recolho
na sombra do que quer que tenha sido um dia…
Eu que apenas queria que o meu dia
tivesse cor, Senhor!

BlueShell

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29.6.10

Fugaz

Teu vulto ficou preso na porta,
tua mala perdeu-se na rua sem saída,
teu trem partiu para nenhum lugar...

Foste deixando pedaços de alma
por todos os caminhos
numa tentativa fugaz
de perpetuar o vazio
da tua eterna ausência...

Viro a página do livro
e descubro um poema
nunca escrito
e sempre oportuno...

Apago a luz
e acaricio
a sombra da saudade
que, insistente,
deita ao meu lado
e suspira...

Maria Alice Estrella

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28.6.10

Seletivo

Quem é você para vender
falsos sonhos e enciclopédias
no terreiro de minha casa?

Tire os seus sapatos:
no meu chão sagrado
só caminha quem tem asas.

Nirton Venancio

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