18.3.18


Baloiço

Passaram os anos, mas a memória ficou no tal coração que com amor me transformou; 
Perdida nos sonhos, balançava por um futuro melhor, usar esse balançar como um fim para toda a dor; 
Cantar enquanto sentia o vento puxar o meu cabelo e lançar a voz ao ar como um apelo; 
Abstrair-me de tudo aquilo que me rodeava enquanto que o sol o fim do dia anunciava; 
Apreciar cada balanço como uma ascensão e ir crescendo na pressa de queimar a solidão; Imaginar os meus dedos a romper o manto azul do céu, receber de braços erguidos aquilo que a vida me deu. 
Esticar as pernas numa tentativa de voar para um mundo diferente onde conseguisse aceitar o que a realidade tem de duro para me dar; 
Será sempre uma tentativa de limpa-lágrimas o fugir à dolorosa monotonia diária; 
O acto de ascender as pernas bem esticadas e sem medo, a força feita com as mãos nas cordas já desgastas pintado o chão com pegadas abstractas. 
Mostro e digo a simplicidade com que ouço, escrevo então a simplicidade de andar de baloiço. 

  Sónia Oliveira Fonseca
(photo Joan Leslie)

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