As coisas lentas
Fumo demasiado depressa o meu cigarro apagado. Os cigarros fumam-se lentamente ao espelho fixando um único dos nossos rostos. Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se, observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole. Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender um cigarro. Na casa onde tu fumavas cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície do espelho, o teu vagar respondia-me até ao esquecimento de nós. Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes que me chegue aos lábios.
Está frio neste lugar. A boca abre-se como uma coisa lenta em forma de espanto.
Inês Fonseca Santos
(photo Julie London)
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