Ano Novo
noite de ano novo, roupa elegante, penteados sensacionais, luxo.
ano novo, o mesmo corpo, a velha alma lamacenta.
ao largo o fogo de artifício, a esgrima dos copos altos, festa.
como um dos eremitas medievais recolhes ao quarto sem uma palavra.
é cedo, irremediavelmente tarde já.
regressas talvez à infância, aos lugares ermos e silenciosos.
uma fonte deita sem parar,
no chão, a esmo, o barro quase verde das bilhas quebradas.
sobre os cacos água corrente, água boa, água limpa,
e tu respiras, tu renasces – muito longe tu caminhas para mais longe ainda.
João Ricardo Lopes
(photo Mirna Loy)
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