Sobre espelhos
Em menino, eu tinha medo dos espelhos. O meu temor era que a imagem reflectida se movesse sozinha ou, por exemplo, que o meu corpo fizesse coisas que eu não lhe ordenava. (…) Deste temor insuperável a cegueira libertou-me.
Não me agradam nada ou agradam-me demais. Agora, claro, livrei-me deles. Porque a cegueira é um modo drástico de apagar os espelhos.
Jorge Luís Borges
(photo Buster Keaton)
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Restaurante
Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória
Só à porta da rua
o tempo reaparece.
Yvette Centeno
(photo Fred MacMurray and Carole Lombard)
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Os dias normais
Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,
e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.
São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,
os assassinos
do amor.
Karmelo C. Iribarren
(photo Jean-Paul Belmondo)
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Classificar
Avento farinhas de mesmos sacos,
desfaço o bolo ainda quente, minhas mãos
crispam a forma na fornalha
da ignorância: não aprendo a lição
da humanidade no esforço de me lançar
ao centro da controvérsia; sou o resumo
do jornal de domingo em cadernos
imensuráveis; talvez me anuncie
em econômicos classificados: terça-feira
estou ofertado ao nada. Compareçam.
Pedro Du Bois
(photo James Dean)
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Vida é caleidoscópio.
De nada adianta girarmos o cilindro devagar.
Tanto cuidado para quê?
Quando menos esperamos os cacos de vidro desabam uns nos outros e formam o imprevisível desenho.
Francisco Azevedo
(photo Audrey Hepburn)
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3x4
Passar a limpo os cinco sentidos.
Apagar com sono e borracha
para usar -todos-
novos em folha
de novo:
sem luvas, óculos, fones,
perfumes de meio ambiente
e com a boca livre de lembranças.
Armando Freitas Filho
(photo Gene Tierney)
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Sempre-viva
Quando nasci tive sete irmãos
Enquanto vivi sete amores
Ao longo do caminho carreguei sete chaves
E abri sete portas
Quando chegar a hora, morrei como quem teve sete vidas.
Beth Ameida
(photo Claudia Cardinale)
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Desejo-te Tempo
Não te desejo todos os bens do mundo,
Apenas te desejo aquilo de que gosto mais:
Desejo-te tempo – para sorrires, para rires.
Usa-o bem – podes vir a conseguir.
Desejo-te tempo para acções e pensamentos,
Não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para pressas e correrias,
Mas para te instalares, ai, onde pertences acima de tudo.
Desejo-te tempo, não para esbanjares,
Mas para teres e conservares, deixando algum de sobra
Para te emocionares perante a vida, para confiares no seu curso,
Em vez de seguires o ritmo inflexível das horas.
Desejo-te tempo para alcançares as estrelas
E tempo para cresceres, para seres quem és.
Desejo-te tempo para esperanças novas, para amares de novo.
Pois não adianta deixar esse tempo para depois.
Desejo-te tempo para te encontrares,
Para encher cada dia, cada hora, de alegria.
Desejo-te tempo para esqueceres o que precisas.
Desejo-te: tempo para viveres!
Elli Michler
(photo Maude Fealy)
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