"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.12.15


(...) eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços... 

  João Carrascoza
(photo Olivia de Havilland)

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30.12.15


Sortilégio 

 Primeira estrela que eu vejo, 
dai-me tudo o que eu desejo. 
Se o cachorro latir, ele me ama. 
Se a bicicleta passar, ele me odeia. 
Se a porta bater, ele está pensando em mim. 

 Fecho os olhos. 

  Silvana Guimarães 
(photo Sophia Loren)

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29.12.15


Anéis do meu cabelo 

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro
Diz à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo

Já não digo que viesses
Cobrir de rosas o meu rosto
(...)
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

 António Botto
(photo Claire Trevor)

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28.12.15


A minha amiga

Ao menos tenho a minha fiel amiga 
Nunca deixa de estar ao meu lado 
Fica de noite comigo 
Tem-me em seus braços enlaçado 
Seguro, apertado 
Não me pode deixar 
Veio para ficar 
A minha querida amiga 
Dor

  Yoshira Marbel 
(trad. Carlos Campos) 
(photo Sharon Tate)

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27.12.15


Prece 

 Dê-me o esquecimento, meu pai. 
 Dê-me uma noite sem sombra 
 ou sobressalto, um sono inteiro 
 um instante sem rumor.
 Dê-me teu silêncio, meu pai.
 A solidez das pedras, o rigor das coisas 
 a solidão sem dor. 

  Maria Esther Maciel
(photo Elizabeth Taylor) 

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26.12.15


 Quem fala do amor? Eu tenho frio
e quero ser Dezembro

Quero chegar a um bosque apenas sensível,
até à maquinaria do coração sem saldo.
Eu quero ser Dezembro

Dormir,
na noite sem vida,
na vida sem sonhos,
nos tranquilizados sonhos que desaguam,
no rio do esquecimento.

Há cidades que são fotografias
nocturnas de cidades.
Eu quero ser Dezembro.

Para viver ao norte de um amor que aconteceu
debaixo do beijo sem lábios de já há muito tempo,
eu quero ser Dezembro.

Como o cadáver branco dos rios,
como os minerais do Inverno.
Eu quero ser Dezembro.

 Luis García Montero
 (photo Mary Charleson) 

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24.12.15


Natal

Acende as velas
da árvore de sua vida
para aquecer a família
neste Natal!

Pendure os presentes,
bem amarrados,
e faça uma promessa
a você mesmo
de se libertar
dos passados.

Faça um pisca-pisca
dos seus olhos,
e não dê tanta
importância
às coisas passageiras.
A vida é um festival!

Siga em frente!
Prepare a ponteira
da árvore para indicar
novo caminho,
afinal,
tudo é festa,
nesta noite de Natal!

Ivone Boechat 
(photo Everett Collection)

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23.12.15


Fantasma

Com os olhos cobertos 
Pela fina renda que caía do chapéu 
Assistia o baile 
Do canto mais discreto da sala. 
Pessoas divertiam-se ao sabor das músicas e bebidas. 
Casais beijavam-se felizes pelo momento único. 
Outros, passeavam, conversavam. 
Tudo estava correndo da maneira habitual. 
E era assim que teria que ser. 
Levantou-se em silêncio 
Retornando para o quadro que pendia na parede. 
Gostava destes rasgos de realidade 
De tempos em tempos. 
Sentia-se viva 
Depois de muito. 

  Gisa 
(photo Bette Davis)

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22.12.15


Triste

Não consigo compreender.  
Penso e não entendo. 
Reflito sem conclusões. 
Fico aflita. 
Tento, em vão, 
Não procurar respostas. 
Preciso delas. 
Tenho medo que o silêncio me devore. 
Sinto ele próximo, 
Muito próximo. 
Choro. 

  Gisa 
(photo Maureen O'Sullivan)

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20.12.15


A água

Despe, na solidão da tarde, 
Tua roupagem manchada de quotidiano, 
E deixa que a chuva molhe teus cabelos 
E vista teu corpo de escamas de prata. 
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos 
E colhe no cântaro de tuas mãos 
A música dos dias que adormeceram 
No fundo de teu ser. 
Mármores líquidos moldarão teu corpo. 
Nuvem, 
Penetrarás a carne da manhã. 

  Paulo Bomfim
(photo Clara Bow)

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17.12.15


 Os meus olhos
olham os meus olhos,
para lá da janela
há sombras
suspiros
árvores e rosas.
Dentro da janela,
Só os meus olhos
Olhando outros olhos encobertos.

O silêncio pesa.

Isabel Meyrelles 
(photo Gabrielle Ray)

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16.12.15


 Com a mala cheia de insultos,
ela guardou as dores no corpo
e vestiu um poema barato.
Restava-lhe abrir janelas.
Era certo que em algum
lugar uma nova vida 
amanheceria. 

 Renata Belmonte
(photo Ingrid Bergman)

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15.12.15


de tanto sonhar
 olhando para parede
 cavou um túnel 
 para outro mundo 
apenas com o olhar 
 atravessou e 
nunca mais se soube dela 

  Marisete Zanon
(photo Veronica Lake)

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14.12.15


 Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.

Maria do Rosário Pedreira 
(photo Greta Garbo)

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13.12.15


As Rosas de Saadi

Esta manhã eu quis levar-te rosas, 
Mas tantas eu tinha na cintura presas 
Que os nós cerrados não as puderam conter. 

 Os nós rebentaram. E elas levadas 
Pelo vento no mar foram tragadas. 
As rosas perdidas eu não consegui rever; 

 As águas ficaram vermelhas, como inflamadas. 
Esta noite minhas vestes ainda estão perfumadas. 
Aspira em mim a lembrança de as trazer. 

  Marceline Desbordes-Valmore
(photo Lily Elsie)

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12.12.15


Os primeiros momentos 

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados 

Coral Rumble
(photo Marilyn Monroe)

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11.12.15


... têm sido assim esses meus dias: 
aperto a mão contra o peito 
e o vazio do mundo me abraça. 

  Flávia Vida
(photo Marilyn Monroe)

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10.12.15


Volto já 

Volto já,
para não calar no peito
as dores, os golpes contidos,
no soturno das noites constantes
nas serranias dos amanheceres
deste mapa de suspiros.

Volto já,
para não arfar sozinho na multidão,
na voragem da poeira das sombras
e nos escombros da alma espancada.

Volto já,
para abrir as janelas dos sonhos
e atravessar o destino pela ponte
que leva aos versos iluminados do amor…

António Carlos Santos 
(photo Frank Sinatra) 

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7.12.15


Arranha-dor

Hoje me rasguei ao meio novamente… Já não é novidade para mim, muito menos para você.

 Confundi o doce com o amargo e, em questão de segundos, não consegui mais reconhecer o gosto que penetrava em minha saliva. Mergulhei em mar raso, superficial – inócuo –, que não demorou a adentrar profundezas e terrenos indesejados. 

 Não queria estar ali, mas você me levou até lá, com sua presença inóspita e seu desafio inadequado… arrastei-me ao porão de suas imundices. E me debulhei em lágrimas. 

 Pelo dito, pelo não-dito e por todas as dores que ficaram engasgadas em meio à garganta e o coração. Pelo violino que você tocou ao pé dos meus ouvidos, desdenhando ao fato de que ele arranhava notas ao contrário e, com isso, perfurava minha alma.

 Preferi me calar… não refutar, afinal, você jamais entenderia. Sussurraria algo ameno para mudar de assunto, porque você só sabe fugir… é apenas isso que você conhece. É tão somente a fuga que te move à vida. 

 Enquanto brinco de me desmanchar, você finge respirar uma espécie de ar seguro. E seguimos, até que não se lance a voz à imensidão. 

  Tatiana Kielberman
(photo Man Ray)

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6.12.15


Até mesmo em momentos de felicidade e entusiasmo (especialmente em momentos de felicidade e entusiasmo), eu nunca conseguia esquecê-lo por muito tempo. (…) E eu tinha a sensação de que isso nunca iria mudar, de que eu nunca me libertaria.

  Elizabeth Gilbert
(photo Bette Davis)

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4.12.15


Nós, mulheres despojadas, sem ontem nem amanhã, tão livres que nos despimos quando queremos. Ou rasgamos os vestidos (o que dá ainda um certo prazer). Ou mordemos. Ou cantamos, alto e reto, quando tudo parece tragado, perdido. [...] Nós, mulheres soltas, que rimos doidas por trás das grades - em excesso de liberdade.

  Maura Lopes Cançado
 (photo Lupe Velez)

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3.12.15


Silêncio 

 Há muito que Maria Antónia aprendera a calar. Calava a rebeldia, a vontade de cantar inopinadamente, os passos de dança que tendiam a ritmar-lhe o andar. De tanto calar, um dia, emudeceu.

  Maria Eu
(photo Norma Talmadge)

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2.12.15


A olhar-se de dentro de um caleidoscópio, a densa procura dos astros na imensidão partilhada... Eu idêntico e diferente perseguindo a idéia única de ser livre, embora persista a necessidade da prisão dos ''nós".  Eu buscando a fórmula perfeita do pertencer ao meu próprio eu. Eu oposto que atrai, já alimento que sou nessa lógica "órbita" esfera de ação. 

  Lanayash
(photo Audrey Hepburn)

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1.12.15


Eu costumava conversar a sós com você depois que você partiu. Eu costumava falar com você o tempo todo, mesmo estando sozinha. Conversei com você por meses a fio. Agora não sei o que dizer. Era mais fácil quando eu apenas o imaginava. Eu até imaginava que você me respondia. Tínhamos longas conversas. Só nós dois. Era como se você realmente estivesse comigo. Eu o via, sentia seu cheiro. Eu podia ouvir sua voz. Às vezes sua voz me acordava. Acordava-me no meio da noite, como se você estivesse no quarto comigo. Depois, isso foi lentamente acabando. Já não podia mais imaginar você. Tentei falar em voz alta com você como sempre fazia, mas não havia nada lá. Já não podia mais ouvi-lo. Então eu apenas desisti. Tudo acabou. Você simplesmente desapareceu. 

  Sam Shepard
(photo Marlene Dietrich)

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