"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


30.4.15


 
Beija-flor voava perdido
Não achava sua moça... Onde ela estaria?
Precisava tanto dela...
Quem colocaria palavras de amor em suas asas?
Quem lhe daria tanto carinho?
Beija-flor pousou e pensou...
- Ela deve estar presa na lágrima da lua
No pranto que a noite chorou
E como já é dia...
Fiquei sem minha poesia...

 Dina Isserlin
(foto Marceline Day)

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29.4.15


Desalento 

Tristeza destas minhas mãos 
demasiado pesadas 
para não abrirem feridas, 
demasiado leves 
para deixarem marca – 
tristeza desta minha boca 
que diz as mesmas 
palavras que tu 
– significando outras coisas – 
e esta é a expressão 
da mais desesperada 
distância.

 Antonia Pozzi
(foto Jean Harlow)

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28.4.15


Nada mais triste. Um carrossel à chuva. Eu hoje sou o carrossel molhado. Que girou sob o sol que não havia. Mas havia. Que se deixou ficar. Parado. Ferrugento. Chiando com o vento. À chuva. Sabendo que não houve nunca sol. Mas houve. Que só a chuva é real. Mas não. Neste decisivo momento como são todos podia fingir que canto. Que não me importo de estar ao sol ou à chuva. Que não sou esta imagem de desalento ou estas notas que parecem gotas. Mas não. Nada mais triste. Não conseguir fingir. Que canto. Ou que enlouqueço.

  Elisa
(foto Catherine Deneuve)

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27.4.15


Ruído das águas 

Não sei de mim nem uma gota
Sou oceano de águas abissais
Superfície pouca
O que tremula em minhas águas visíveis
É reflexo mal projetado do que sou
Há segredos ancorados em meu interior
Sombreando o que entendo ser
O que realmente sou

Entre uma onda e outra
Caminho no ritmo dos meus pensamentos
Busco no mar um alento
Meus pés conhecem a lápide das pedras rochosas
Deixam na areia úmida, uma marca porosa
Há uma âncora que me prende com gancho afiado
Todavia, meu caminhar sabe ser leve e solto
A brisa da reflexão passeia a meu lado

Úrsula Avner 
(foto Brigitte Bardot) 

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26.4.15


Ave alegria

Ave alegria,
cheia de graça,
o amor é contigo
bendita a risada
e a gargalhada!
Salve a justiça
e a liberdade!
Salve a verdade,
a delicadeza
e o pão sobre a mesa!
Abaixo a tristeza!
Ave alegria!

Sylvia Orthof
(foto Shirley Temple)

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25.4.15


Confeitos em alto mar

A menina queria
uma história
que fosse doce
e que falasse
dos bichinhos
que vivem no
fundo do mar.
E gostou de
ouvir sobre os
biscoitos em
forma de estrela
que dançavam
à noite sobre
as ondas para
a sobremesa
do siri dengoso
e das baleias

Alvaro Bastos
(foto Lily Elsie)

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24.4.15


O sótão 

Entrar com os olhos muito abertos
porque a luz se esconde
atrás do pó, das coisas
que esquecemos, alguma há-de
ser a nossa infância, trará sapatinhos
de verniz, um laço
dos casamentos das tias
uma tabuada com as contas
furadas de um dos filhos
cadernos com línguas estranhas
um Ferrari
repentino sem uma roda
uma subida até ao Himalaia
de uma teia de aranha remendada
Por que será que o sótão
está sempre no derradeiro andar da vida?

João Tomaz Parreira
(foto Martita Hunt) 

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23.4.15


 
ando cansada sabes...

há anos que me deito nesta banheira cheia de mim

deste sabor a sal que me conserva submersa

quase ilesa quando saio por enxugar

não te posso prometer o mar

porque estou confinada a esta banheira

limite do que sou

não tenho águas limpas que te deem força

ou um rio imenso a correr constante

sem o variar das estações

não te vou enganar...

mais não posso fazer do que molhar-te ainda mais

do que agitar as águas aparentemente calmas

da banheira

desta banheira branca

estou cansada sabes...

precisaria de coragem para abrir o ralo

deixar a água sair lentamente

cabeça

pescoço

ombros

barriga

pernas

últimas gotas a saírem-me pelos pés

até ficar vazia

seca

e depois...

depois esperaria que o ar me comovesse para além da pele

que as gotas evaporassem em redor de mim

e aí deixaria que fosses tu a abrir a torneira inchada

ferro preso da memória

ando cansada sabes...

vou abrir o ralo!!!

vem!!!

 sophiarui
(foto Jeanne Moreau)

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22.4.15


Aquela porta

Aquela porta… sim! 
aquela porta
sempre cerrada,
é sentinela morta,
que surge à entrada
do caminho da Vida!
Eu quero passar,
na estrada comprida
e cheia de luar!
Aberta esta porta,
a Vida é lá fora,
por mim a chamar!
Eu quero passar,
viver esta hora…
o resto, que importa?
Há música, há luzes, há gente que vive,
e tem o que eu sonho, e tem o que eu não tive!

É tarde, afinal… já não devo passar!
E caio, de joelhos, à porta, a chorar!

Maria de Santa Isabel
(foto Kay Frances)

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21.4.15


Cair da tarde 

Desfolham-se os rosais do meu jardim...

Tão leve como doce sombra de ave,
Num palpitar suave
De penas de cetim,
Que a noite desça, agora, sobre mim...

Maria de Santa Isabel
(foto Ava Gardner)

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20.4.15


Dona moça

... percebeu o cabelo dançar na frente dos olhos, como se quisesse chamar sua atenção dizendo:
 
 Acorda dona moça, a vida passa lá fora e você fica aí olhando pra dentro, fechada no nada. Flores precisam ser coloridas, sorrisos precisam ser enfeitados, estrelas estão amontoadas num canto esperando para iluminar os beirais das janelas. Hoje, uma borboleta comentou que você esqueceu sua aquarela na esquina da praça e crianças travessas andaram brincando de pintar vidraças, achando que eram cores sem dono, sem casa. O que foi que você perdeu, que de tão distante seus olhos não veem mais nada? O que encontrou pelo caminho que a fez descolorir e cansar de sorrir? Quero pintar um coração vermelho em sua boca, para que você se recorde de falar de amor, quero vaga lumes fazendo morada nas suas pestanas para iluminar seu olhar de flor. Vem dona moça, o tempo é agora, a vida é lá fora e tudo fica sem graça sem sua risada gostosa, sem sua mistura de cor. 

  Renata Fagundes 
(foto Marilyn Monroe)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.4.15


Depois de anos acariciando as dores que me deixaram partida, finalmente as deixei partir. 
E fiquei inteira. 

  Fernanda Gaona 
(foto Anita Ekberg)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.4.15


Guarde pra você 

Fique com meu sonho.

Embrulhe-o,
leve-o pra casa,
faça o que quiser!

Guarde-o no banheiro,
pendure-o na parede,
qualquer coisa.

Mas, por favor,
de vez em quando,
mande-me um pedaço dele
e venha junto.

Donald Maischitzky
(foto Bing Crosby & Grace Kelly)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.4.15


Aquarela 

Peguei minh'alma
para vesti-la com as
cores de minha tristeza.
 
Vesti-a com o azul
da melancolia mais profunda
e o amarelo
das folhas caídas.
 
Adicionei o vermelho
do entardecer da saudade
e o verde do olhar distante.
 
Quando vi,
minh'alma já era um
arco-íris. 

 Donald Malschitzky
(foto Ava Gardner)

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13.4.15


ferida

fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
flora
o ir
vai
o rir
rói
a amor
mói
o céu
cai
a dor
dói

Augusto de Campos 
(foto Ginger Rogers)

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12.4.15


 Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.

Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.

Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.

 João Miguel Fernandes Jorge
(foto desconheço autoria)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.4.15


Oração 

Senhor,
Dá-me a serenidade dos rios diante dos temporais
Dá-me a força das rochas diante das guerras
Dá-me a doçura da flor em todo tempo
E se acaso eu fraquejar, perdoa-me
Permita-me recomeçar.

 Arnalda Rabelo 
(foto Ava Gardner) 

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9.4.15


Contemplação primaveril 

Lamento que, quando se abrem as flores,
não as possamos contemplar juntos.
Quando caem, partilhamos as penas,
mas em lugares diferentes.
Alguém pergunta-me:
- Que tempo te provoca
mais sofrimentos de amor?
Eis a minha resposta:
os dias em que se abrem as flores
e também aqueles em que tombam por terra.

Xue Tao
(foto Maggie Cheung Ruan)

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8.4.15


O horizonte claro

Um dia reencontraremos as nossas pombas
e o amor e a beleza serão colhidos à mão.

O dia em que o mínimo canto será um beijo
e cada pessoa um irmão para a outra.

O dia em que ninguém feche a sua porta,
o cadeado se converta em relíquia
e o coração seja suficiente para viver.

O dia em que o sentido de cada palavra seja desejar,
para que não procures a última palavra.

O dia em que a melodia de cada letra seja vida
para que eu não persiga a rima do meu último poema.

O dia em que cada lábio seja canção
para que o mínimo canto seja um beijo.

O dia em que chegues e fiques para sempre
e o amor se identifique com a beleza.

O dia em que voltaremos a atirar miolo de pão às nossas pombas.

Espero esse dia, mesmo que cá não esteja.

 Ahmad Shamlú
(trad. Luis Felipe Parrado) 
(foto Audrey Hepburn)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.4.15


A pele

A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro

mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra

porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo

dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.

Pia Tafdrup 
(foto Adrienne Ames)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.4.15


Quando alguém já não tem forças... 

Quando alguém já não tem forças para escrever, 
tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.

Quando alguém já não tem forças para andar, 
tem de voar.

E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.

Mas aconteça o que acontecer a história continua, continua.

 Eeva Kilpi
(trad. Luis Filipe Parrado)
 (foto Bette Davis)

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5.4.15


Domingo 

Era domingo
no teu vestido novo
azul turquesa
aquele onde eu buscava
transparências
encontrei castanhos
os teus olhos
e foi nesse mar
que se afogaram os meus

  Rui de Morais
(foto Cary Grant & Grace Kelly)
 
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.4.15


Conto 

No meu conto,
Não havia fadas
Não havia príncipes
Não havia sapatinhos
Não havia charrete

No meu conto,
Havia sonhos
Havia amor
Havia saudades

Sem fadas , 
Não vi o príncipe
Não fui ao baile
Não fui princesa
Não perdi o sapatinho
Fui apenas gata borralheira.

  Flor Pedrosa
(foto Mary Pickford) 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨