"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


28.2.15


Metade 

Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa
Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio
Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde
Metade mulher metade sonho

  Jorge de Sousa Braga 
(foto Louise Brooks)

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27.2.15


E ele agarrou-lhe na mão, e ela agarrou-lhe na mão, e ficaram de mãos agarradas, primeiro a olharem para as mãos, depois levantando lentamente os olhos, que por fim se encontraram, perdendo-se uns nos outros, sem já saber quem via ou era visto, os olhos ao mesmo tempo a verem e a serem vistos, nus, sem qualquer pudor, como se tudo fosse possível uma vez mais, uma última vez, sem esquecer que o que lhes estava a acontecer é impossível, quanto mais de esquecer. 

  Pedro Paixão
(foto Cary Grant & Ginger Rogers)

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26.2.15


comércio 

estou a vender
enigmas
(arde um fósforo)
sussurrados de vento
para apagar
o pôr-do-sol
de perdas
incontáveis.

vendo mistérios
rubros arcanos
ou mesmo
peças avulsas
de encantamentos
recheios de fios
solitários
que nos une
ao tempo
da vida bacante.

 Ana Paula Perissé 
(foto Bette Davis)

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25.2.15


Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill
(foto Elizabeth Taylor)

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23.2.15


Era hora de fazer contas à vida. Somou todas as alegrias, subtraiu as tristezas e dividiu pelos anos que estavam casados. O resultado final dizia-lhe que era necessário rapidamente multiplicar tudo por dois antes que o resultado fosse negativo. 

  Fernando Guerreiro
(foto Orson Welles & Rita Hayworth)

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22.2.15


Nunca faltava um dia ao trabalho. Nos dias de férias ia para a fábrica. Na sua cabeça ninguém conseguia fazer tão bem o trabalho quanto ele. Naquela tarde sentiu-se mal e levaram-no para o hospital. A empresa continuou a laborar como se nada se tivesse passado. Afinal de contas, o cemitério está cheio de homens insubstituíveis.

  Fernando Guerreiro
(foto Alain Delon)

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21.2.15


A falta que me faz 

Falta um tanto de mim
em mim

Falta um tanto
quanto...

Falta um meio
um terço
um quarto
um canto

Falta tanto
tanto
tanto...

 Nancy Romanelli
(foto Teresa Wright)

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20.2.15


da mesma forma 

ele tem um jardim que
estampa bem a frente da casa.
dentro, o sol bate e faz as
paredes ficarem com bastante vida
por volta das 10 da manhã.
mas é muito estranho, confuso e
belo ao mesmo tempo,
porque tudo foi deixado como ela
gostava.

 Isaías Faria
(foto Ella Raines)

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19.2.15


Sou uma criatura 

Como esta pedra
de S. Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refratária
assim totalmente
desanimada
Como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
vivendo.

Giuseppe Ungaretti
(trad. Jorge de Sena) 
(foto Marlene Dietrich)

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18.2.15


Parte de mim

Acho-me estranha
Gosto da solidão
Guardo segredos do coração
Gosto do silêncio Da noite
Das canções mais tristes
Das chuvas mais fortes
Temo a morte!
Sou fascinada pelas flores
Resistente a dores
Porém frágil aos amores
Tenho medos que desconheço
E outros que até mereço
Sou avessa ao espelho
Não uso vermelho
Gosto das comidas picantes
Prefiro as bebidas quentes
Temo as alturas
As pessoas
Amo a bravura do mar
Tenho olhos tristes
A razão dentro de mim
Fui buscar
Não encontrei
Você não estava mais lá.

Valquíria Cordeiro
(foto Kim Novak) 

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17.2.15


Cartas para Cláudia 

Se eu pudesse escolher os meus sentimentos
em relação as pessoas que me rodeiam,
escolheria enamorar-me com toda a
intensidade de que sou capaz.

Escolheria que, na altura em que essa paixão
diminuísse, debaixo dela crescesse o
sentimento.

Escolheria que nem eu nem o outro nos
assustássemos com o desaparecimento da
paixão e que soubéssemos enfrentar-nos
com a mudança da intensidade para a
profundidade.

Escolheria que esse sentimento fosse amor
e não somente desejo.

E, finalmente, escolheria que se desse a
possibilidade de voltar a enamorar-me, de
vez em quando, pela pessoa que amo.

 Jorge Bucay
(foto Paul Newman & Joanne Woodward)

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16.2.15


Ícaro 

Sacudiu o pó
tratou cuidadosamente a ferida do joelho
reuniu os bocadinhos das suas
asas
colou-as com paciência
e pendurou-as na parede da sala
como recordação

António Pedro Pita
(foto Otto Sander)

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15.2.15


Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala.

  Ana Teresa Pereira 
(foto Louise Brooks)

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13.2.15


Balão esvaziado 

Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu. (...)

António Gedeão
(foto Leslie Caron)
 
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12.2.15


Regresso 

Voltei a esse lugar
onde nunca tinha estado.
Do que não foi, nada mudado.
Sobre a mesa (de oleado
aos quadrados) meio vazio
encontrei o mesmo copo
nunca cheio. Tudo
permanece tal e qual
eu o não tinha deixado.

Giorgio Caproni
(trad. David Mourão-Ferreira) 
(foto Ursula Andress)

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11.2.15


olha minha pose: está forçada. olha a risada quase desenhada nos cantos da minha boca: está falsa. você acha que me lê. como num livro. não me leia assim, com o olho. você está lendo errado. me toque: estou escrito em braille.

  J. Castro 
(foto Peter Sellers & Sophia Loren)

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9.2.15


Descoberta 

 As gavetinhas escondidas no criado-mudo estão se abrindo. Contém novas direções, pílulas para se ouvir a música interna, diversos tipos de áureas e ainda um lindinho manual ilustrado de perdões. 
 
Vanessa Campos Rocha
(foto Lillian Gish)

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8.2.15


Estou na praia. É um dia excepcionalmente quente. De repente um golpe de vento arranca-me o chapéu de palha erguendo-o tão alto que parecia um papagaio lançado de cima dum monte. Corro pela areia tentando apanhá-lo mas ele vai velocíssimo. Continuo a correr. A areia queima-me os pés saltam-me lágrimas dos olhos. Não posso correr mais. Não consigo continuar sem regressar. Sinto-me desesperada. Caio no chão. Vou ficar aqui morrer queimada. Depois claro o chapéu poisou simplesmente a meu lado. 

  Ana Hatherly
(foto Brigitte Bardot)

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7.2.15


Ligas-me, e eu por segundos imagino a conversa e treino a compostura, recolho um soluço que me empata o ar, carrego um canino sobre o lábio inferior, quase sangro nem noto, e fecho a boca para que por ela não me saia, disparado, o coração aflito. Ligas-me, e eu não atendo, poupo-te ao embaraço e ao inferno das explicações, aos olás de circunstância, deixo que toques e toques e que vás por fim parar às mensagens. Ligas-me, e eu espero, desejo e espero, que despejes para um gravador o teu erro, o teu tédio, o teu gozo, os pedidos, as desculpas, as incríveis novidades do mundo ou, quem sabe, a precisão dos beijos empoeirados que esqueceste e deixaste em mim.

  Sofia Vieira
(foto Kathleen Hughes)

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6.2.15


ponto final 

pelo não, pelo sim
deu tudo errado
não me venhas assim
nem assado
vá, viva sem mim
fundo falso furado

Berg A. Mota
(foto Peter Finch & Anne Bancroft)

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5.2.15


Durante anos procuramos encontrar alguém que nos compreenda, alguém que nos aceite como somos, capazes de nos oferecer a felicidade, apesar das duras provas. Apenas ontem descobri que esse mágico alguém é o rosto que vemos no espelho. 

  Richard Bach 
(foto Brigitte Bardot)

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4.2.15


A mulher que não era bonita

Talvez, porque viesse angustiado, aflito, 
Amei uma mulher que não era bonita… 

Mas eu sei que não foi. Foi amor e sincero; 
Tanto a amei, tanto a quis, que inda a amo e inda a quero… 

Capricho, coração, uma coisa qualquer, 
Porque se quer e estima e se ama uma mulher?… 

Vocês hão de dizer “Todo rapaz é assim”. 
Fecha os olhos e diz sinceramente: “Sim”. 

O amor prende, o amor cega, o amor faz o que quer. 
Fez-me, portanto, amar a primeira mulher. 

Infelizmente, nem ela própria acredita 
Que se ame uma mulher que não seja bonita. 

 Judas Isgorogota 
(foto Jean Bradin & Betty Balfour)

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3.2.15


Cruel coração 

Estranho, como são as coisas do coração! Era possível passar anos e anos habituada à perda, reconciliada com ela e, depois, num momento de fraqueza, a dor reaparecia, aguda e crua, como a de uma ferida aberta.
 
  Donna Woolfolk Cross
(foto Nina Leen) 

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2.2.15


 Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas. Isso incomodava toda a gente. Por causa do barulho…

O coração batia tão alto!

Ela tentava explicar: «É um coração de pássaro. Eu estou no corpo errado! Daí o coração bater tão rápido. Eu sou um pássaro…»

Pouco a pouco as pessoas foram-se habituando ao barulho do coração. Acabaram mesmo por esquecê-la. Ninguém se apercebeu do que se passava.

E isso era bom para ela. Também ela se habituava. Começou mesmo a gostar do seu corpo. E sentia-se cada vez mais leve.

Ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu.

E depois, um dia…

As pessoas já não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia.

Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim.

 Regina Pessoa
(foto Mary Pickford)

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1.2.15


Indiferença 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcanças
e meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

Guilherme de Almeida 
(foto Brigitte Bardot)

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