Cabelos de Chuva
Antes de sair de casa, ela guardava as lágrimas no bolso mais fundo. Depois andava o dia todo a desembrulhar sorrisos abertos e quando lhe fugiam as forças, metia discretamente a mão no bolso e empurrava as lágrimas mais para dentro, sentia-as atravessarem-lhe o tecido da roupa, umedecerem-lhe a pele morna do peito. Com os dedos molhados, ajeitava então os cabelos em desalinho, naquele gesto tão dela que todos lhe conhecíamos, e sorria de novo. Chamavamos-lhe cabelos de chuva.
Nunca a vimos chorar. Nunca a veremos chorar porque ela partiu hoje, a mulher que guardava as lágrimas no bolso mais fundo.
Quando me fui despedir dela, fiquei muito tempo a olhar-lhe os dedos entrelaçados, cruzados sobre o peito finalmente seco de lágrimas. No rosto cadáver, um teimoso ponto de luz iluminava-a toda: o mais belo sorriso aberto que jamais lhe conheci.
Ana Paula Mateus
(photo Rita Hayworth)
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Oi.Belo poema, parabéns.Parabéns pelo belíssimo blog, gosto muito de fotos preto e branco.:O).Um ótimo fim de semana.Abraço.
ResponderExcluirOlá, Vinicius! Grata pela visita e por seu carinho.
ExcluirBjs e bom fds.