23.4.15


 
ando cansada sabes...

há anos que me deito nesta banheira cheia de mim

deste sabor a sal que me conserva submersa

quase ilesa quando saio por enxugar

não te posso prometer o mar

porque estou confinada a esta banheira

limite do que sou

não tenho águas limpas que te deem força

ou um rio imenso a correr constante

sem o variar das estações

não te vou enganar...

mais não posso fazer do que molhar-te ainda mais

do que agitar as águas aparentemente calmas

da banheira

desta banheira branca

estou cansada sabes...

precisaria de coragem para abrir o ralo

deixar a água sair lentamente

cabeça

pescoço

ombros

barriga

pernas

últimas gotas a saírem-me pelos pés

até ficar vazia

seca

e depois...

depois esperaria que o ar me comovesse para além da pele

que as gotas evaporassem em redor de mim

e aí deixaria que fosses tu a abrir a torneira inchada

ferro preso da memória

ando cansada sabes...

vou abrir o ralo!!!

vem!!!

 sophiarui
(foto Jeanne Moreau)

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