25.3.15


E agora eu 

e agora eu quero 
eu quero para depois não querer
seguir o telefone por uma cidade
a língua de fora morre na ligação mas é sempre
a língua de fora
porque o corpo é objecto do tempo
e eu agora quero 
mas não quero para depois querer
existir no corpo inabitado
nada mais me absolve 
senão o silêncio em pleno voo
este corredor antigo que atravessa o escrito
o passado que lido é uma volta 
a fracção de segundo
e agora eu sou alheia à imobilização do desejo
sobre cada sorriso 
sobre cada noite
sobre cada pequena morte
que se liquidifica na insónia e na lembrança envolta 
numa espécie de melancolia interna
que parece furar a nuvem de fumo
a vontade de ser um aqueduto
uma ponte
uma raiz vertiginosa
um pousar de cabeça 
depois de um raciocínio complexo
e agora eu quero
eu quero partilhar um segredo 
com as palavras que o suportam
escrever no inferno
enlouquecer bela e feliz.

  Sylvia Beirute
(foto Elizabeth Taylor)

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