"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


28.2.14


O inverno cobre minha cabeça, mas uma eterna primavera vive em meu coração.

  Victor Hugo

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27.2.14


Catarse

Me coloco pra fora
Me exponho
Me lamento toda hora

Me construo 
Desatino
Me destruo
Desabafo

Me escorro pelos olhos
Saio de mim para esquecer a tristeza
Lavo o rosto, o corpo,
e a alma!

Choro!

Fernanda Pittelkow

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26.2.14


Envelhecer é pura poesia.
 Até o sorriso fica entre aspas. 

  Cris Guerra

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25.2.14


Trilhos 

Ando pelos trilhos da vida
e não sei onde podem me levar.
Não viajo em primeira classe.
Quero o controle do meu caminho,
como tem o maquinista.
O receio é que não haja trilhos
para o destino final.
Construirei com minhas próprias mãos.

 Débora Linden Hübner 

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24.2.14


Aluga-se/Vende-se 

Vês aquela casa
com a porta trancada?
Um dia, para mim, 
foi encantada!

Tinha muita música, 
risos, 
gargalhas
que ainda posso ouvir...

Morava ao lado...
a solidão!

Hoje é só uma casa fechada,
com cortina rasgada
e alguma flor em botão...
Não! Não adianto mais nada!

Querendo,
está para ser alugada
ou até mesmo, vendo!
Quem mora ao lado?
Ah, claro!
A solidão,
mas quem sabe tendo cuidado...

 Rivkah Cohen 

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20.2.14


A ventania 

Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

  Eduardo Galeano 

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19.2.14


vestida de palavras 

 vestiu-se de memórias. ou talvez de sonhos. confundida com as personagens do romance que nunca terminou, vestiu-se de palavras luminosas, com frases tão belas quanto os afetos e entrou lá, no lugar onde as palavras jamais cessam de nascer. 

  Júlia Moura Lopes 

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17.2.14


Tinha o rosto cheio de íntimos silêncios. E na sombra aguardava o tempo numa confiança tranquila. Longínqua, como quem flutua na última claridade e reflecte nas margens da consciência. Raramente trazia até si uma palavra, um nervo de luz ou um rumor vigilante. Esperava talvez um movimento, um desejo de espaço. Ou qualquer outra coisa perdida no seu pensamento.

  Fernando Esteves Pinto

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16.2.14


Palavras no rosto 

Um rosto é um lugar de palavras.
Um rosto apagado, fechado sobre si mesmo,
é ainda um lugar de palavras.
Digo isto como se eu tivesse aberto o meu próprio/rosto e lesse a escrita dos meus pensamentos.
A escrita dos outros no meu pensamento.
Ao observar um rosto, tive muitas vezes a sensação
de abrir as palavras do silêncio.
Na escrita e no rosto, todo o ser se abre para os outros, 
mesmo em silêncio.

Bela Mandil 

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15.2.14


Revérbero negro 

Às vezes assusta-me este novo riso que tenho. Não que antes não risse, mas exactamente porque antes ria e este riso não ri. Apenas revérbero negro do que seria um sorriso se alguma alegria o tomasse. Só que não há alegria e o riso perpetua-se negro sob o céu pesado do olhar de outros que se perguntam e com razão: estará a ficar louco? Por mim nunca me coloquei a questão (é o olhar deles que me assusta). Nos dias a questão foi sempre outra: como sobreviver a esta dor sem pausa? Como atravessar este grito sem fim? É para ela que o riso é solução... 

  Jorge Roque

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13.2.14


Canção do mar 

Esta mulher é formosa 
como uma flor da montanha, 
mas é fria, fria, 
e é fria 
como a margem de neve 
onde fria floresce. 

  Herberto Helder

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12.2.14


  Tenho três poemas, 
disse. 
Pensar em contar poemas.
 Emily lançou-os 
numa caixa, não 
 consigo imaginá-la a contá-los, 
apenas espalhou um pacote de chá 
e escreveu um novo poema. 
Parece-me correcto. 
Um bom poema deve cheirar a chá.
Ou a terra crua e lenha acabada de rachar. 

  Olav H. Hauge 
(trad. Henrique Manuel Bento Fialho) 

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11.2.14


quero paz... 

 acordou em mim a vontade de ficar submersa n' água ouvindo o estrondoso silêncio que nela habita. só eu e o vazio dos meus pensamentos. a mergulhar nas profundezas dessa calma... 

  Flávia Vida

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10.2.14


A Louca de Louça

Descobri que sou inteiramente louca.
 Louca de pedra 
De pau 
De ferro 
De aço 
De louça
 E quebro à toa. 

  Maria Carmem Barbosa 

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9.2.14


Procura-se 
a aurora desperta pelo azul do mar, a quietude outonal que rasga o dia, a vida que ressurge rara após noite escura. 

 Procura-se 
a esperança que saiu voando sem rumo, uma alma alada como pássaro, que desapareceu entre o céu e o mar.

 Procura-se 
sonhos pássaros perdidos na névoa tardia, ventos leves, leves como o pensamento.

 Procura-se 
uma chance, uma sorte, uma nova saída, uma ilha, um pouco de paisagem, um verso capaz de descrever o instante. 

  Sônia Schmorantz

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7.2.14


O meu pequeno cão branco e eu 

O meu pequeno cão branco e eu -
entramos e saímos em todas as portas.
Procuramos-te a ti. Procuramo-nos a mim.
Choramos e passamos frio.

A chuva dá grandes voltas no largo.
Faz círculos em crescendo.
Não sei aonde vou nem onde estou
com o meu pequeno cão.

O mundo é grande. E tu és grande.
Onde terminam o caminho e a viagem?
Escuto o aguaceiro,
o meu pequeno cão ladra docemente.

Não te encontro. Não me encontro.
Contigo me perdi.
O meu cão olha entristecido
e aperto a minha cara contra as suas orelhas. 

Silja Walter

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4.2.14


Por um fio

Sobre os ombros
pequenos
o peso do mundo!

Quanto mais 
me debato,
mais rápido afundo!

A arte de andar 
sobre o fio
da navalha.

Procurando forças lá dentro,
de algo em mim,
que me valha!

Encostada em um canto,
Nua e sozinha!

Quem sou? Para onde vou?
Ninguém sabe nem viu!

No limite, na borda, 
à um passo...

Estou... por um fio!

 Lenise Marques

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