6.9.14


Janela 

 "Estás cada vez mais cínica", disse ele, depois daquele breve silêncio que acontece quando já não há mais nada a argumentar. Ela levantou-se, aproximou-se da janela, abriu-a, acendeu o cigarro que já tinha entre os lábios, e depois de lançar a primeira baforada de fumo, respondeu-lhe "não, estou cada vez mais velha". Enquanto o cigarro durou, manteve o olhar o mais longe possível, vagueando entre constelações cujo nome nunca conseguira decorar. Desejava que aquele cigarro ardesse a noite toda, queria perder-se nessas estrelas longínquas. Ele levantou-se do sofá, ficou de pé alguns segundos, como se esperasse que o seu movimento a trouxesse de novo para dentro da sala, para dentro da conversa, para dentro do que sobrava dos dois."Vou-me deitar", disse ele, por fim; ela acenou a cabeça sem se voltar, anuiu com a mão num gesto leve e continuou perdida entre as estrelas, as lágrimas a torná-las ainda mais brilhantes. 

  Natália Cardoso 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Há demonstrações de carinho que nos imensam!"
Manoel de Barros

Demonstre seu carinho...